"Sabes como é ser espancado quase até à morte? É pacífico. Como se estivesses a flutuar para bem longe. Mas depois acordei novamente..." Esta frase retirada de um monólogo de Kenny em Amid The Ruins, o quarto episódio da segunda temporada de The Walking Dead, retrata na perfeição o mundo em que Clementine e companhia se esforçam para permanecerem vivos, embora cada vez menos razões evidentes existam para continuar a lutar.

O mais recente episódio da série de sucesso da Telltale Games continua a seguir a história atribulada da jovem imaginada num universo pós-apocalíptico em que o único objetivo é sobreviver para ver o dia de amanhã. Começando no exato momento em que o episódio anterior terminou, Amid The Ruins agarra rapidamente a nossa atenção e, consoante a vossa decisão no final do terceiro capítulo, joga de forma brilhante com as emoções do jogador para o fazer sentir algo que talvez nunca antes tenha sentido num jogo, nem mesmo nesta série, um sentimento quase doloroso de culpa.

Ainda assim, os cinco minutos iniciais criam uma expectativa que, infelizmente, nunca é verdadeiramente cumprida durante a restante hora e meia de duração. Após a cena que abre o episódio terminar, o ritmo diminui drasticamente e só apenas nos momentos finais, segundos antes de os créditos rolarem pelo ecrã, volta atingir os mesmos pícaros de intensidade com que nos tinha brindado no seu começo.

The Walking Dead é uma série que vive dos momentos de enorme tensão e das decisões com elevado impacto emocional, mas em Amid The Ruins tais situações são escassas e afastadas umas das outras. Não quero com isso dizer que o episódio esteja desprovido daqueles momentos que vos ficarão retidos no cérebro até ao final da aventura. O problema é que estes não estão presentes em número suficiente para tornar o capítulo, como um todo e isolado dos restantes, memorável.

Este episódio da temporada protagonizada por Clementine ficará na memória de muitos jogadores como um capítulo de transição entre um dos melhores episódios da série e a conclusão que se espera épica da temporada. Isso significa igualmente que estamos perante uma das entradas mais lentas e desinspiradas da saga e que não consegue corresponder às altas expectativas a que qualquer capítulo de The Walking Dead está sujeito.

Construir um episódio com um ritmo mais lento e com menor carga emocional pode ter desvantagens, mas por outro lado permite algo em que a Telltale nunca deixa a desejar: o desenvolvimento das personagens. Embora se foque quase exclusivamente numa única personagem, a relação que estabelecemos e toda a informação que nos é fornecida permite compreender melhor as suas motivações e as razões para o seu comportamento, sendo certo que o jogador acabará com uma perceção diferente em relação a essa personagem daquela com que começou.

No entanto, esta é a série de Clementine e, como tal, o seu crescimento como pessoa e sobrevivente é sempre uma componente indispensável em qualquer episódio. Amid The Ruins mostra-nos uma jovem cada vez mais diferente daquela que entrou em contacto com Lee Everett através do seu Walkie-Talkie. Alguém capaz não só de se defender implacavelmente contra os Walkers, como também de tomar as decisões mais complicadas em frações de segundo com as quais terá de saber lidar, para o bem e para o mal.

Toda a experiência de The Walking Dead não seria nada se não estivesse alicerçada no excelente diálogo e trabalho de voz a que a Telltale já nos habituou nas suas obras. São impressionantes as nuances das performances dos atores e a maneira como estas contribuem para a transformação das personagens em indivíduos reais. Para além disso, a utilização inteligente das rápidas variações do tom da banda sonora consoante a situação, tornam a obra mais especial e memorável do que alguma vez poderia ser sem a conjugação destes fatores.

Graficamente, o quarto capítulo da segunda temporada mantém-se fiel ao estilo visual da série, continuando a sua constante homenagem ao material que lhe serve de inspiração. No entanto, nem mesmo a semelhança do título a uma banda desenhada faz com que a violência e a quantidade enorme de sangue e entranhas no ecrã tenham menos impacto do que o pretendido. Amid The Ruins tem possivelmente um dos momentos de maior violência psicológica para a protagonista de toda a saga e tudo isso é conseguido de forma excecional sem recorrer ao fotorrealismo.

Um pouco como já havia acontecido na temporada anterior, o quarto ato é mais fraco que todos os seus antecessores, mas nem por isso deixa de ser uma experiência altamente recomendável com um final que promete deixar água na boca aos jogadores para a conclusão épica da aventura de Clementine. Resta-nos agora espera que o último capítulo chegue o quanto antes às nossas mãos.