O final da primeira temporada de The Walking Dead foi choque convoluto de várias estirpes de luto. Se os cinco atos foram a escalada de um muro de decisões e emoções, os últimos dez minutos foram o arame farpado no seu topo: ninguém o ultrapassou sem ficar marcado de alguma maneira. Uns adoraram esse rasgar emocional, outros acharam que esse fim não justificou os meios da viagem. A Telltale sabia perfeitamente que estava a assinar um ponto de rutura com os tradicionais desfechos à conto de fadas que quase sempre apaparicam os jogadores e mantêm os seus sentimentos envoltos na suavidade da seda do Panamá.

Começar o primeiro episódio da segunda temporada - intitulado All That Remains - é ter o puzzle completo da primeira temporada em cima da mesa à vista de todos. Caso tenham o vosso progresso gravado no mesmo dispositivo em que começam este episódio, o jogo tem em conta as vossas decisões. Se não tiverem, a Telltale toma aleatoriamente decisões por vocês e apresenta um breve resumo do que se passou enquanto estiveram ocupados com outros jogos. Seja como for, ninguém dá o primeiro passo em All That Remains sem conhecer os eventos que colocaram um ponto final na temporada passada.

A protagonista é agora Clementine, a jovem que serve como um dos principais catalisadores de emoções nos capítulos anteriores. Seja pelo que viu ou pelo foi forçada a fazer, a sua tenra idade não é significado de um decrescimento no tom adulto do jogo. O mundo como o conhecemos não existe, as regras da sociedade há muito que foram atiradas pela janela fora, portanto, é compreensível que o peso da morte seja muito mais leve para estas personagens do que para nós. Ainda assim, o jogo escusa-se quase sempre a eliminar personagens do seu enredo de maneira gratuita. All That Remains continua a querer agarrar-se ao sentimento que a perda tem para nós, obviamente explorando ao máximo as escolhas que levam a cada ceifa.

Depois de tomar a decisão que terminou este capítulo, percebe-se facilmente o malabarismo que a produtora fez para conjugar o lado angelical da protagonista com a dureza e a crueldade exigidas para tomar algumas das decisões, o que no fundo é a exploração da nossa própria dureza e crueldade, pois quem pressiona o botão somos sempre nós e nunca a Clementine. Ainda assim, o nosso sangue frio e angústia foram quase sempre refletidos numa performance condizente no universo do jogo.

All That Remains está entre margens: para trás ficou grande parte do elenco com quem tínhamos criado laços e pela frente está a nova miríade de personagens que vão ancorar o desenlace dos próximos capítulos. No fundo, este episódio como uma transição entre vontades e personalidades, deixando em aberto o que aí vem sem nunca olhar por períodos muito extensos para o espelho retrovisor. O próprio narrativo encarrega-se de nos fazer sentir: Clementine está entre portos de abrigo, jogando quase tudo no conhecimento de quem lhe vai dar guarida e quem lhe vai dificultar a vida no futuro próximo.

O jogo é curto: depois de terminado, o Steam informa-me que passei duas horas com ele. Uma boa fatia desse período é gasta a completar uma lista de procedimentos para sarar um dos acontecimentos que o argumento se encarrega de despoletar e onde está uma das cenas mais guturais, gráficas e escusadamente prolongadas de sempre. Quanto mais aprofundei a minha exploração do carisma das novas personagens de duas pernas, mais fomentei a certeza que a cena mais emotiva do jogo é passada com alguém que usa quatro patas para se deslocar.

O pior desfecho é identificado automaticamente, contudo, é impossível olhar para trás e deixar de sentir alguns remorsos pelo que fizemos com as nossas próprias mãos. Claro que a Telltale sabia perfeitamente onde colocar este gancho emocional, mas não é menos verdade que a sua execução enaltece o peso da decisão: o que fazer quando vemos a personificação do sofrimento? Não é fácil, mas como no final do capítulo é revelada a percentagem dos jogadores que tomou a mesma decisão, foi possível perceber que mais de 90% agiu como eu, o que atesta o senso comum.

Estes pontos altos salpicam um capítulo geralmente morno. A primeira impressão das novas personagens também não ninguém cair irracionalmente apaixonado pelo seu carisma, porém, como já disse, são duas horas de transição em que a produtora planta sementes que se esperam ver florir nas próximas iterações da temporada. Temos pedidos de desculpa por não confiarem em nós, alguém que não demora muito a revelar a sua índole e a personificar a mesquinhez e claro, muitas decisões tomadas que resultam na confirmação imediata da sua importância através da mensagem que a personagem se vai lembrar daquilo. Quando virem os créditos finais, não se lembrarão do nome de um terço das personagens com quem passaram uma porção das últimas horas.

Tecnicamente, continua o tom caraterístico da série e a aposta num cel shading que lhe dá uma aura própria. Um dos detalhes que me encantou na primeira temporada foi a combinação da brutalidade emocional e muitas vezes física com o grafismo em desenhos. Este choque incongruente é de salutar e continua de boa saúde, tanto com o detalhe dos cenários como com as expressões das personagens, sejam faciais ou muitas vezes corporais. O mesmo se pode dizer da vocalização e da banda sonora. Melissa Hutchison, a voz de Clementine, faz novamente um trabalho esplendido, capturando a sua fragilidade e o seu crescimento como personagem e, sobretudo, como pessoa ao longo do tempo.

Os incidentes que arrastam Clementine pela lama neste episódio provam que a aposta numa protagonista muito mais jovem que Lee Everett não é sinónimo de um jogo mais suave e conservador. Com base nesta amostra podemos esperar mais quatro episódios tão ou mais agrestes que o que já jogámos até aqui. All That Remains não é um mau começo de temporada, apenas um ponto de partida em que todos se estão a conhecer, incluindo o próprio jogador. A Telltale tem tudo para tornar esta temporada tão memorável como a anterior, resta saber como vai jogar as cartas. Seja como for, enquanto jogador fiquei curioso para ver como é que o próximo episódio - intitulado A House Divided - vai fazer avançar o jogo.