Longevidade. É talvez este o elemento que impressiona no sucesso do fenómeno em que se transformou o universo das bandas desenhadas de Robert Kirkman. As bandas desenhadas arrancaram em 2003, a série de televisão que trouxe a propriedade intelectual para as massas está quase a celebrar oito anos de existência e o videojogo episódico que apaixonou e marcou milhões de jogadores viu o seu primeiro capítulo há já meia dúzia de anos.

Sim, foi há seis anos - mais concretamente, em abril de 2012 - que Lee Everett conheceu Clementine. Foi há seis anos que jogadores de todo o mundo levaram a cabo a sua missão de proteger a jovem rapariga de um mundo que parecia pouco interessado em zelar pela sobrevivência humana. Foi também há seis anos que nos despedimos, com muita mágoa à mistura, de Lee. Desde então, Clementine tem sido o nome indissociável da série da Telltale que permitiu aos jogadores assistirem ao seu crescimento desde criança indefesa até à jovem sobrevivente moldada pelas circunstâncias e forçada a crescer demasiado depressa.

Essa parece inclusivamente ser uma das temáticas exploradas pela produtora em The Walking Dead: The Final Season, isto é, o esbater-se da linha que separa a adolescente ou até a criança do adulto. O mundo pós-apocalíptico aqui retratado transforma rapidamente jovens em adultos, colocando a segurança e a sobrevivência acima de tudo o resto. Comparar a Clementine da primeira temporada, uma criança que conheceu o mundo antes dos mortos começarem a andar, com Alvin Jr. em The Final Season, uma criança nascida muito depois do apocalipse ter arrancado, é perceber o quanto as circunstâncias do mundo alteraram o normal desenvolvimento de uma criança.

Apesar da tenra idade, AJ é muito mais maduro e está muito mais preparado para a adversidade do que Clementine estava quando conheceu Lee. Continua a ser uma criança, algo que é por demais evidente em alguns momentos do episódio de estreia desta temporada, mas é uma criança a tentar comportar-se como um adulto. Como seria de esperar, os paralelismos entre a relação de Clem e AJ e a relação entre Lee e Clementine são vários, mas a produtora consegue fazer com que nunca haja a sensação de terreno já calcorreado, ainda que efetivamente estejamos novamente a moldar uma criança para sobreviver num mundo hostil.

Com cerca de três horas de duração, ou seja, uma duração bem superior aos tradicionais episódios da Telltale, Done Running brilha acima de tudo pela forma como consegue, de forma rápida e eficaz, dar dimensão e relevo ao seu elenco de personagens, algo que a série já não conseguia realizar de forma tão capaz desde a temporada de estreia. Claro que as interações entre a protagonista e o seu protegido são o elemento mais importante para narrativa resultar - e nesse departamento a produtora não desilude -, contudo, serão as restantes personagens que trarão o conflito, novas perspetivas e novas linhas narrativas que ajudarão a tornar a experiência mais impactante.

Se assistiram a qualquer um dos vídeos divulgados pela Telltale na antecâmara do lançamento, então já saberão que The Final Season leva Clementine e AJ até um novo grupo de sobreviventes, um grupo de sobreviventes com uma média de idades bastante mais baixa que o habitual, composto unicamente por crianças e adolescentes e sem quaisquer adultos por perto. Ironicamente, a sua base é a escola que frequentavam quando o mundo ainda era normal e que, graças à vasta floresta que a circunda, lhes têm permitido manter-se longe de atenção indesejada e com fontes de alimento relativamente próximas.

Também através deste grupo recheado de personagens interessantes e diversificadas - ainda que algumas não tenham recebido a atenção a que terão direito no futuro - se realça a dicotomia entre adolescentes a comportarem-se como adultos e adolescentes a comportarem-se como adolescentes. Apesar do ritmo lento e de uma predominância dos momentos de calma antes da metafórica e literal tempestade que encerra o episódio, Done Running está recheado de interações importantes entre as personagens, interações que nos permitem conhecê-las melhor, desvendar os seus passados e as dinâmicas do grupo.

O arco narrativo geral daquela que será a aventura final de Clementine apenas começa a ganhar forma nos minutos finais do capítulo de estreia, mas estas horas de conteúdo não sofrem com isso e as sementes que são deixadas para o futuro prometem a exploração de temas dos quais temos visto pouco nesta série. Acima de tudo, estamos perante um arranque convicto que se mostra consciente da hérculea tarefa que tem em mãos.

Dito isto, o primeiro capítulo de The Walking Dead: The Final Season revela também um claro progresso para a Telltale no que diz respeito à fórmula tradicional das suas obras e ao seu departamento técnico. Com mais segmentos de exploração, a introdução de colecionáveis, a utilização de uma câmara mais aproximada da personagem e um combate menos dependente de Quick Time Events, a nova obra da produtora californiana mostra um esforço claro para revitalizar a interação dos jogadores com as suas histórias, embora sem nunca esquecer que as histórias são mesmo o elemento mais importante.

As melhorias visuais são igualmente notórias. Os cabelos de Clementine a esvoaçar ao sabor do vento, o movimento ininterrupto da câmara para entregar momentos de maior valor cinematográfico e a utilização de uma técnica para transformar tudo o que está mais longe em meras silhuetas sem cor que apenas vão ganhando detalhe à medida que nos vamos aproximando das mesmas, criando uma sensação de que estamos a caminhar em direção a uma vinheta de BD, são alguns dos pormenores que tornem esta experiência mais rica no departamento visual. De notar que os soluços da framerate não foram sentidos neste capítulo.

Done Running é uma estreia auspiciosa de uma obra que tem a difícil tarefa de colocar um ponto final na história de uma das melhores personagens que esta indústria já teve oportunidade de conhecer. Um elenco que cativa, uma dinâmica excelente entre AJ e Clementine, melhorias visuais de realce e uma jogabilidade renovada unem-se para entregar um episódio que corresponde às expectativas, embora não nos dê uma real ideia do rumo a seguir em futuras entradas. Menos positiva é a impossibilidade de poder jogar capítulos individuais sem necessitar de reiniciar por completo o episódio, algo que se tornará frustrante para aqueles que quiserem todos os colecionáveis, bem como todos os Troféus e Achievements da obra.