Nota: Esta análise versa apenas sobre o episódio em questão enquanto parte integrante de uma temporada composta por quatro capítulos, muito embora possa vir a ser o último a ser lançado devido à situação atual da Telltale.

O segundo capítulo da aguardada temporada final da demanda da Telltale Games pelo universo pós-apocalíptico criado por Robert Kirkman pode ter chegado recentemente ao mercado, mas não é por isso que o estúdio californiano tem estado nas manchetes durante os últimos dias. Tendo despedido 225 trabalhadores, reduzido a sua força de trabalho a 25 elementos e aparentemente cancelado todos os projetos em produção à exceção da sua parceria com a Netflix para levar Minecraft: Story Mode até à plataforma de streaming, o estúdio está nas bocas da indústria pelo seu inesperado e claramente mal gerido encerramento.

Embora já tenha entretanto revelado estar a encontrar uma forma para prosseguir até à prometida conclusão de The Walking Dead: The Final Season, não há como negar a sensação de fatalismo associada ao futuro da obra, principalmente se tivermos em conta que os principais responsáveis pela sua produção figuram entre as centenas de trabalhadores que perderam o seu emprego no final da semana passada. Dito isto, e mesmo que o título já nem se encontre disponível para compra nas lojas digitais, importa honrar o trabalho dos muitos envolvidos no projeto e entregar a nossa crítica ao que pode muito bem vir a ser o último pedaço de conteúdo da história da produtora.

Sem surpresas, Suffer the Children mostra-nos o grupo de jovens que compõe o elenco da temporada a lidar com os eventos e revelações chocantes que marcaram o final do capítulo anterior, eventos que causaram danos irreparáveis na dinâmica do grupo e na forma como estes se encaram uns aos outros e, obviamente, aos mais recentes elementos do mesmo: Clementine e Alvin Junior. Acima de tudo, o episódio não se esconde no momento de fazer o jogador sentir na pele o julgamento por parte das restantes personagens com as nossas ações.

Mais uma vez, a relação entre AJ e a protagonista é o elemento fulcral da narrativa, sendo que este capítulo apresenta-se como um importante momento no processo de maturação da criança, da sua aprendizagem em relação às consequências dos seus atos e à análise das circunstâncias que o rodeiam. Alvin Junior pode ter sido criado já em pleno apocalipse zombie, mas isso não significa que tenha perdido por completo os traços naturais de um jovem na flor da idade, nomeadamente a sua impulsividade e incapacidade para acatar pedidos com os quais não concorda.

Tal como na aclamada temporada de estreia da série, The Final Season volta a colocar o jogador no papel de figura paternal, mas as diferenças entre a Clementine que Lee conheceu naquela casa de árvore e o AJ que a jovem rapariga vai tentando guiar por este mundo decadente são mais que muitas. AJ não é um pequeno indefeso, muito pelo contrário, é ele que carrega em punho a única arma de fogo que a dupla possui e tem já claramente experiência na sua utilização, não hesitando no momento de a apontar aos que considera ser uma ameaça.

Mais do que influenciar o rumo de narrativa de forma significativa, as decisões mais importantes são aquelas que moldam aquilo que este se tornará à medida que vai crescendo. Aliás, é isso que as obras da Telltale sempre fizeram melhor, isto é, a construção de relações memoráveis com personagens extremamente bem caracterizadas. Suffer the Children destaca-se novamente nesses momentos, quando coloca de lado o arco narrativo geral da temporada e se foca exclusivamente na interação entre as personagens, momentos que oferecem um pequeno vislumbre do que seriam estes jovens num mundo normal.

É apenas uma pena que estes momentos não sejam tão frequentes neste episódio como no seu antecessor. É certo que algumas personagens que pouco tempo de antena tiveram no capítulo de estreia recebem bem mais destaque em Suffer the Children, mas continuam a ser os mesmos nomes a brilhar mais alto, facto que a produtora parece abraçar sem problemas tendo em conta o principal momento de decisão que marca o encerramento deste episódio. Infelizmente, a existência em menor quantidade de interações significativas entre as personagens faz com que o ritmo naturalmente lento seja mais acentuado nos momentos de exploração.

Depois dos indícios deixados no capítulo anterior, o segundo episódio da temporada dá-nos uma melhor ideia do arco narrativo geral da mesma, revelando os antagonistas e as suas intenções. É neste departamento que The Walking Dead: The Final Season se mostra menos capaz, optando por rumos narrativos que já foram demasiadas vezes explorados tanto nesta série, como noutras do mesmo género. A líder do grupo antagonista é talvez o único ponto de interesse deste elemento narrativo, mas isso deve-se sobretudo ao seu potencial e não ao que é mostrado neste episódio.

Embora não seja tão eficaz como o seu antecessor, Suffer the Children é mais um episódio que se destaca graças ao seu elenco de personagens e às interações entre as mesmas. A relação entre AJ e Clementine continua a ser o ponto fulcral da experiência e uma fonte de momentos altamente cativantes. Ainda assim, à medida que o arco narrativo mais abrangente que vai guiar a temporada é revelado, torna-se também mais evidente uma sensação de familiaridade, de que já passamos por isto antes, de que há pouca capacidade para surpreender verdadeiramente o jogador com antagonistas de motivações distintas.