Muito aconteceu entre o lançamento do segundo episódio de The Walking Dead: The Final Season em setembro e a recente estreia do terceiro capítulo da aventura que encerrará a história protagonizada por Clementine no universo criado por Robert Kirkman. A Telltale Games despediu praticamente toda a sua força de trabalho no dia seguinte à chegada de Suffer the Children ao mercado e viria mesmo a fechar portas de forma definitiva pouco tempo depois.

Seguiu-se um período de indefinição relativamente ao futuro de uma obra muito aguardada pelos jogadores e crítica especializada e entretanto adquirida na sua totalidade com a promessa de quatro episódios por um número significativo dos mesmos. O resgate veio pela mão da Skybound, a editora das bandas desenhadas do criador de The Walking Dead e já com alguma experiência acumulada na indústria dos videojogos, que assumiu a publicação e produção dos dois capítulos em falta, tendo recrutado muitos daqueles que estavam a trabalhar na obra quando se deu o colapso do aclamado estúdio.

Apesar de toda esta turbulência, o ponto final da história de Clementine prossegue, pelo menos aparentemente, indiferente aos problemas de bastidores e entrega-nos um penúltimo episódio que corresponde às altas expectativas, que se mostra à altura do momento solene e que prova mais uma vez o impacto que esta série teve naqueles que a jogaram e que Clementine ficará para sempre na nossa memória e na história desta indústria como uma das melhores personagens que esta já nos deu a conhecer.

Com um arranque morno que não deixava antever um capítulo particularmente memorável, Broken Toys vai lentamente, mas de forma segura, apresentando os seus trunfos e desferindo poderosos socos emocionais que afetarão o mais frio dos jogadores. Depois de dois episódios focados quase em exclusivo no elenco juvenil que assume o papel de maior destaque nesta temporada e no seu porto seguro que apenas é violado no final do episódio anterior, neste capítulo somos relembrados do quão nefasto e brutal o mundo de The Walking Dead pode ser e em concreto do quão longe alguns estão dispostos a ir para sobreviver e utilizar essa mesma sobrevivência para justificar suas ações.

Este não é, de todo, um mundo para crianças ou adolescentes que tentam conservar algum resquício de humanidade, mas isso não impede que o episódio reserve uma grande porção do seu tempo para as relações entre estes jovens em períodos de acalmia que ajudam a que nomes como Violet e Louis se tornem cada vez mais memoráveis e figurem junto das muitas personagens interessantes que esta série nos foi apresentando ao longo da sua duração.

Mais uma vez, a relação entre Clementine e o pequeno AJ volta a ser um foco de atenção e é novamente responsável por alguns dos melhores momentos da temporada. As nossas ações, seja durante os muitos diálogos que temos com Alvin Junior ou através das decisões que tomamos quando o jovem está próximo de nós, continuam a moldar a personalidade de uma criança que tenta ao máximo fazer sentido de um mundo para o qual nenhuma criança tem as ferramentas para lidar da melhor forma. 

São frequentes os conflitos interiores com que AJ se debate e que discute frequentemente com Clementine que, sob o nosso controlo, vai fazendo o seu melhor para criar um jovem que seja capaz de tomar as decisões corretas, que não aja por impulsos, que perceba o valor da vida e os traços de personalidade que fazem de alguém uma boa pessoa e que o separam daqueles contra os quais entra em conflito na luta pela sobrevivência. 

Todos estes momentos com AJ combinados com uma cena de convívio entre o grupo de jovens antes do ataque final que marcará o último terço do episódio, e ainda um flashback executado de forma excelente, conferem a Broken Toys um forte cariz emocional que acaba por ir desfazendo, camada a camada, a resistência do jogador que poderá ou não ver os seus olhos encherem-se de água a dada altura. Como não poderia deixar de ser, isto apenas resulta graças a uma excelente escrita que sabe perfeitamente as notas que tem de atingir.

No que diz respeito a aspetos menos positivos, há que mencionar que, por estranho que possa parecer, o jogo acaba por exagerar um pouco na facilidade com que pode levar a um ecrã de "Game Over" numa sequência de ação perto do final, especialmente num momento de ação furtiva em que a progressão correta está longe de ser bem comunicada ao jogador. Não ajuda que esse mesmo momento seja afetado por vários soluços da framerate que tornam a morte ainda mais frequente.

Com consequências importantes de decisões anteriores já reveladas e mais um final intenso marcado por uma decisão que terá certamente um impacto significativo na conclusão da obra, Broken Toys é um muito bom episódio que nos deixa simultaneamente ansiosos pela chegada do último capítulo desta história, mas também desiludidos por sabermos que estamos prestes a dizer adeus a Clementine. Os problemas de produção parecem não ter afetado o nível de qualidade da obra, pelo que os indicadores são positivos para a conclusão que aí vem.