por - Jan 29, 2018

The Walking Dead: The Telltale Series Collection – Análise

Mais do que saciar aquela constante vontade de regressar a uma experiência, a um mundo, a uma história que nos marcou e que ficará para sempre connosco, analisar The Walking Dead: The Telltale Series Collection é uma oportunidade para encarar finalmente toda a saga da produtora californiana como um todo coeso, sem os gigantescos intervalos de tempo entre temporadas e episódios que muitas vezes geram expectativas impossíveis de alcançar e também suavizam o impacto de alguns dos seus momentos mais importantes.

TWD Collection Imagens Analise

Ao longo das últimas semanas tenho estado imerso no mundo pós-apocalíptico imaginado por Robert Kirkman, fazendo o meu caminho pela primeira, segunda e terceira temporadas de The Walking Dead, passando ainda pela minissérie protagonizada pela atormentada Michonne. Jogando praticamente ao ritmo de um episódio por dia, fica mais uma vez evidente que estas histórias saem sempre beneficiadas quando jogadas de forma constante, sem grandes interrupções. Existe menos tempo para ficar a marinar nos pontos mais fracos, enquanto os melhores momentos ocupam por completo as nossas memórias.

Isto beneficia sobretudo os episódios mais inconsequentes e as temporadas mais desinspiradas. Por exemplo, gostei mais da minha segunda passagem por A New Frontier do que quando a joguei – e analisei – à medida que os episódios iam sendo disponibilizados. Isto não significa, como é óbvio, que os problemas ou defeitos da aventura de Javier sejam corrigidos, significa sim que a sua influência no nosso desfrutar da experiência é bastante atenuada. Por sua vez, a minissérie de Michonne está longe de fazer o suficiente para conservar o interesse do jogador entre capítulos, mas torna-se numa sequência de episódios agradável quando jogada de uma só vez.

TWD Collection Imagens Analise

Dito isto, não surpreenderei certamente ninguém quando digo que a primeira temporada, a aventura de Lee e Clementine, continua a ser o ponto mais alto desta série e algo que dificilmente será igualado. Com melhorias visuais para tirar partido do poderio extra das consolas mais recentes, acompanhar a evolução da relação entre estes dois desconhecidos continua a ser uma experiência como poucas. Uma daquelas histórias em que tudo resulta na perfeição, em que todos os momentos têm o impacto pretendido, em que todas as surpresas apanham o jogador desprevenido e em que toda a aventura culmina numa das mais emocionais conclusões a que este meio de entretenimento já assistiu.

Com um vasto leque de personagens que continua presente na nossa mente muito depois da nossa primeira passagem, The Walking Dead tem na sua temporada de estreia algo verdadeiramente especial. Confesso que os momentos mais lentos e as paragens para a resolução de puzzles são bastante mais notórios quando já sabemos aquilo que temos à nossa espera no segmento seguinte, mas isso não é suficiente para prejudicar uma aventura que mata e introduz novas personagens com tal facilidade e mestria que nos coloca num estado de alerta constante.

TWD Collection Imagens Analise

Isso é algo que se perde um pouco na segunda temporada. Apesar de apresentar igualmente um nível médio de qualidade elevada, nota-se alguma incapacidade para voltar a recriar a magia do original. Se tivesse de apontar uma razão para o menor impacto da sequela, colocaria as culpas no elenco secundário. Não são maus, mas salvo algumas exceções, a maioria destaca-se pela inutilidade, pela fonte de problemas, frustração e conflitos que representam. A inexistência de uma relação semelhante ao constante e forte elo de ligação entre Lee e Clementine é também algo que impede a temporada de cativar da mesma forma.

Isto leva-nos até A New Frontier, a terceira temporada de The Walking Dead e, na minha opinião, uma oportunidade para refrescar os procedimentos. Ao mudar o foco para um novo grupo de personagens, a mais recente temporada consegue introduzir um fator de novidade que faltava na fornada de episódios anteriores. Infelizmente, a presença de Clementine e os seus frustrantes flashbacks acabam por mitigar esse esforço de renovação. Javier e Kate são personagens formidáveis e um duo que, embora assente num tipo de relação diferente, consegue cativar de forma semelhante aquela que os protagonistas originais o fizeram.

TWD Collection Imagens Analise

Ainda assim, tanto a segunda temporada como A New Frontier sofrem de um problema semelhante, isto é, a forma como lidam e apresentam o conflito que guia a narrativa. The Walking Dead brilha aos mostrar-nos pessoas a tentar sobreviver, agarrando-se ao que resta da sua humanidade. A primeira temporada mostrou-nos isso mesmo. Por sua vez, a segunda temporada e A New Frontier utilizam conflitos desnecessários e muitas vezes irracionais para criar os seus momentos de tensão. O final do quinto episódio da segunda temporada é o exemplo mais óbvio disto, algo que volta a acontecer, de certa forma, com a relação de Javier e David na terceira temporada.

Sem conflito, não há tensão, obviamente. Contudo, a forma como estes momentos nos são apresentados fazem-os sentir quase sempre forçados, o que por sua vez quebra a nossa imersão e o nosso investimento na ação, pois sentimos que, independentemente das escolhas e decisões, o jogo está constantemente a tentar fabricar choques de personalidades sem razão para tal. Percebo que a irracionalidade faça parte do comportamento humano e seja maior em situações de stress elevado como um apocalipse zombie, mas a Telltale podia e devia ter apresentado melhor estes momentos. Até porque desta forma, o resultado final é quase sempre o nosso desdém pelas personagens em questão.

TWD Collection Imagens Analise

Embora me tenha focado mais nos aspetos negativos das temporadas mais recentes, não quero que fiquem a pensar que são más, pois tal está longe de ser o caso. São aventuras de qualidade, recheadas de momentos de alta carga emocional, personagens interessantes e decisões complicadas. Não chegam perto de igualar a aventura original, mas são dignos sucessores de uma das melhores histórias contadas em formato videojogável. As suas falhas são demasiado notórias em alguns momentos, mas não mancham tudo aquilo que fazem bem.

Por último, temos a minissérie Michonne, o único conteúdo desta coleção que ainda não havia tido oportunidade de jogar. Não tinha grandes expectativas para este trio de episódios – até porque a receção crítica não foi propriamente famosa -, mas tal como já referi no início deste texto, é uma aventura interessante de se acompanhar, mesmo que nunca seja capaz de se transformar em algo verdadeiramente memorável ou que não se contente em ser apenas uma experiência acessória, secundária. A forma como utiliza o passado da protagonista cria alguns momentos cativantes, no entanto, terão certamente mais impacto naqueles que já estão investidos na personagem através das bandas desenhadas.

TWD Collection Imagens Analise

Como facilmente se percebe depois deste longo texto, The Walking Dead: The Telltale Series Collection é uma recomendação bastante fácil de se fazer. Aliás, seria impossível não o ser se tivermos em conta a inclusão de uma das melhores aventuras narrativas da história da indústria. Mesmo que os sucessores e a minissérie de Michonne não consigam rivalizar com a aventura de Lee e Clementine, continuamos a falar de conteúdo de qualidade óbvia e que merece a atenção daqueles que apreciam este género de experiências. Ter tudo no mesmo pacote é igualmente bastante conveniente.

Suplementos desta análise

veredito

The Walking Dead Collection é uma excelente oportunidade para regressar ou ingressar pela primeira vez na aclamada saga de Clementine. Michonne é uma inclusão bem-vinda, mas também o segmento menos memorável desta recheada coleção.
8 A primeira temporada continua a ser o auge da série. Beneficiam de poderem ser jogados ao ritmo do jogador. Algumas linhas narrativas menos felizes. Michonne nunca consegue deixar de ser uma história secundária.

Comentários

0 Comments
Inline Feedbacks
View all comments

The Walking Dead: The Telltale Series Collection

para PlayStation 4, Xbox One

Lançado originalmente:

05 December 2017