Com The Walking Dead, a Telltale mostrou ao mundo o seu talento para construir narrativas complexas assentes num constante clima de tensão e focando as suas atenções para a maneira como diferentes personalidades lidam com a adversidade, bem como os elementos mais positivos e negativos da natureza humana. Não o fez apenas uma, mas sim por duas ocasiões, como escrevemos na análise à segunda temporada da série anteriormente mencionada.

Dito isto, as diferenças do universo de The Wolf Among Us em relação ao universo criado por Robert Kirkman são mais que óbvias. A primeira é na sua essência uma história de investigação, repleta de mistério e conspirações, que ganha um maior relevo graças ao seu vasto leque de personagens únicas e memoráveis, especialmente porque muitas delas são facilmente reconhecidas por públicos de todas as idades.

Para os menos familiarizados com o universo da obra, intitulado Fables e criado por Bill Willingham, aqui fica um pouco de contextualização. Há vários séculos atrás, as personagens das fábulas e contos de fadas que ouvimos durante a nossa infância foram forçadas a abandonar o seu mundo original, Homelands, e refugiar-se num recôndito bairro de Nova Iorque, conhecido como Fabletown, tentando, desde então, manter as suas verdadeiras identidades longe do olhar dos humanos, os Mundies.

As suas entidades são mantidas ocultas através de feitiços que conseguem conferir um aspeto humano a estas icónicas personagens, mesmo aquelas que estão longe de o ser na sua aparência original. Um desses casos é o nosso protagonista, Bigby Wolf, o Lobo Mau e o xerife de Fabletown. Enquanto xerife, o Big Bad Wolf é responsável por manter a paz entre as criaturas mágicas e assegurar que a sua identidade permanece ocultada em todos os momentos. Uma tarefa que se revela mais difícil que o esperado.

Em The Wolf Among Us, a cidade está a ser ameaçada por uma vaga de crimes e homicídios que estão a colocar em perigo a segurança dos seus habitantes e cabe ao protagonista descobrir os responsáveis. A premissa inicial é simples e permite a todos os jogadores, mesmo aqueles que não leram a banda desenhada, acompanhar sem problemas a narrativa. Ainda assim, será a brilhante atmosfera de suspense e mistério criada pela Telltale, que está presente em todos os momentos da obra, que captará instantaneamente a atenção dos jogadores.

Wolf among us

Não querendo revelar mais detalhes sobre a história do título, deixem-me apenas dizer que esta é mais uma prova da enorme capacidade deste pequeno estúdio para produzir algumas das narrativas mais complexas, interessantes e envolventes atualmente na indústria, sendo que essa habilidade revela-se principalmente na profundidade que cada uma das personagens possui, não existindo personalidades unidimensionais.

Um dos aspetos mais interessantes do jogo, e também do universo em questão, é o facto de nos providenciar a oportunidade de conhecer verdadeiramente e interagir com personagens como a Branca de Neve, a Bela e o Monstro, o Caçador do Capuchinho Vermelho, entre outras, e muitas vezes ver um lado completamente diferente das mesmas comparativamente ao que ficou registado nos livros de histórias para toda a posterioridade.

Mais uma vez, o nosso investimento nas personalidades com que interagimos ao longo da aventura deve-se em muito à enorme qualidade do desempenho dos atores que lhes deram voz. As nuances de cada atuação e a entrega das múltiplas linhas de diálogo é sempre adequada e verdadeira em relação às motivações de cada uma das fábulas e à situação em que se encontram.

Sucintamente, da narrativa de The Wolf Among Us podem esperar uma verdadeira aventura de investigação com uma boa dose de mistério, personagens interessantes e inúmeras reviravoltas inesperadas, que vos manterão a tentar fazer sentido de todos os seus detalhes muito depois dos créditos terem rolado, e um número considerável de momentos absolutamente memoráveis.

Apesar de ser facilmente reconhecida como uma obra da Telltale, a aventura de Bigby conta com várias sequências de ação que, para além de servirem um propósito narrativo e para salientar a verdadeira natureza do nosso protagonista, ajudam também a evitar que esta caia facilmente num ritmo demasiado lento, como por vezes acontece em títulos deste género. Felizmente, estes são alguns dos melhores momentos de ação que a produtora já nos ofereceu e, em muitas ocasiões, são os momentos altos dos episódios.

Uma das principais críticas que fomos apontando nas análises aos episódios individuais foi o facto de alguns deles não avançarem de forma significativa a narrativa, apresentando, em alguns casos, uma longevidade incrivelmente curta. O segundo episódio, por exemplo, pode ser terminado em menos de uma hora. No entanto, jogar agora o pacote completo ao nosso próprio ritmo torna a experiência bastante mais interessante e concisa, graças a ausência dos meses de espera entre os capítulos, abafando um pouco esses problemas.

Graficamente, o estilo visual que aproxima o título às obras que lhe serviram de inspiração assenta que nem uma luva à experiência, transformando-a numa espécie de banda desenhada interativa com cenários bastante detalhados à espera de serem explorados. Para além disso, o clima de mistério é acentuando por uma arte que faz lembrar os filmes Noir mais populares da indústria cinematográfica.

The Wolf Among Us é uma brilhante aventura de investigação que manterá os jogadores interessados graças ao seu elenco único de personagens e ao clima de mistério que envolve toda a narrativa. Com sequências de ação memoráveis e uma arte visual impecável, a história de Bigby afirma-se como uma das melhores que a Telltale já nos ofereceu. É pena que nem todos os episódios tenham a mesma relevância e espetaculariedade, mas tudo o resto faz-nos desejar que esta não seja a nossa última visita a Fabletown.