"Parece que gostas quando tudo corre mal porque dá-te uma desculpa para deixares de fazer de conta", esta é a frase que desarma Bigby aproximadamente a meio de A Crooked Mile, o terceiro episódio de The Wolf Among Us. Apesar de insinuar o pior do protagonista, este diálogo fez-me encontrar humanidade no seu lado mais obscuro e constatar o que já suspeitava há muito: Bigby só está a tentar dar o seu melhor, navegando uma teia urdida com mestria narrativa enquanto desfia o negrume da sua própria alma.

Como faz parte de uma série episódica, A Crooked Mile prossegue os eventos que concluíram o episódio anterior. Bigby começa a perseguição de Crane, o suspeito do homicídio que concluiu Smoke and Mirrors. Crane é o vice-presidente de Fabletown, ou seja, a perseguição da verdade encetada por Bigby transporta muitos interesses poderosos na bagagem, o que a impregna de importância e faz do protagonista alguém destemido a vários níveis.

Se já experimentaram os dois capítulos anteriores, saberão da existência de um espelho mágico que informa a localização de qualquer Fable. Foi partido em vários pedaços e, mesmo quando Bufkin recolhe os cacos e tenta reconstruir o GPS fabulado, apercebe-se que o puzzle está incompleto com a falta de um dos pedaços. Isto dá azo a que os argumentistas da Telltale apresentem uma mecânica que vais espevitar o interesse de todos os jogadores.

Este é o ponto em que A Crooked Mile se trifurca: têm três locais a visitar e um relógio implacável que vos informa do tempo que ainda resta até à reunião do suspeito. O tempo é contado, ou seja, impendentemente da vossa escolha primária, os acontecimentos variarão de acordo com ela. Como não há um caminho com as prioridades certas, a introdução do dilema exulta a conclusão do episódio várias vezes, o que como podem depreender pelo que leram até não é penoso e, como demorei menos de noventa minutos a ver o ecrã ser preenchido com os créditos finais, também não vos consumirá uma eternidade.

A longevidade, apesar de esparsa, permite que não existam momentos mortos, com Bigby a não perder tempo a chegar a um funeral, a contracenar com Tweedledee e Tweedledum, a tentar resolver a já mencionada situação com o espelho partido e a descolar em direção aos três locais também já descritos na análise. O caminho que escolhi permitiu-me trocar linhas de diálogo com Georgie Porgie, o proxeneta amedrontado que mal nos cumprimenta pode levar um soco na cara, merecido só por continuar a ser uma das personagens mais desprezíveis do universo de Bill Willingham. Crooked Mile é rico na introdução de novas personagens, contudo, como a maioria delas está associada a momentos determinantes da sua conclusão, vou mencionar apenas Flycatcher, um porteiro que pode ser encontrado no escritório da dupla Tweedle.

Escolher a ordem pela qual se quer experimentar o terceiro episódio é uma escolha intrínseca à experiência que vão ter com ele, contudo, está longe de ser a única vez que vão ter que ponderar bem o que fazer, pois Crooked Mile está pejado de momentos que são disrupções com o passado da série e, indubitavelmente, com os dois episódios que restam. Como é costume, sempre que fazem algo merecedor de nota, o jogo informa-vos que certa personagem se vai lembrar da ação. Porém, numa cena que decorre no bar Trip Trap, em que uma personagem bebeu o suficiente para as veias transportarem álcool em vez de sangue, é caricato que a após um desses momentos marcantes, a Telltale tenha optado por avisar o jogado que a personagem não vai lembrar do que acabou de acontecer.

Crooked Mile vai acumulando a tensão ao longo de três terços da sua duração, preparando o jogador para um final que deixará qualquer com o folgo tão cansado como se tivesse acabado de subir um lanço de escadas. Não só os acontecimentos são reveladores e um pouco inesperados, como a jogabilidade está à altura, ou seja, a já conhecida mecânica de deslizar o analógico direito até ao ponto de interesse mencionado no ecrã e depois puxar o gatilho condizente, ajuda a aumentar a tensão. Quando esta linha de comandos é exigida ao jogador, por uma lasca de segundo somos apanhados desprevenidos, reagindo à pressa e apontando o melhor que sabemos e conseguimos.

Ainda sobre o final, é impossível deixar de sentir que chegamos aqui demasiado depressa. Os noventa minutos parecem eclipsar-se em menos de sessenta, o que agrava a espera de mais de dois meses que separaram os episódios. O tempo que passou entre a conclusão de Crooked Mile e este parágrafo serviu para uma ponderação que acho interessante: as escolhas do jogador moldam o protagonista com que joga. O Bigby que fui criando desde o primeiro episódio é um ser razoável, o mais ponderado que pode ser face às circunstâncias. Porém, tudo isso se esfumou no calor dos últimos cinco minutos do título aqui analisado. A pressão associada ao desprezo criado face a uma determinada personagem foi superior à razão: estendido no chão é uma incongruência na minha personagem e não me arrependo de o ter feito. Posso ter desiludido quem presenciou a cena, mas não me desiludi a mim próprio.

Os campos técnicos continuam iguais ao que é o estilo da série: grafismo desenhado com atenção aos detalhes, muito Néon a contrastar com o sombrio dos recantos dos cenários e uma banda sonora a acompanhar. É interessante constatar que a direção artística permanece homogénea, engajando o jogador na sua cenográfica sem o cansar ao final de três episódios. Ainda de salientar alguns soluços técnicos em algumas cenas de vídeo e alguns tempos de carregamento que não parecem otimizados na versão PC.

The Wolf Among Us: Episode 3 - A Crooked Mile é, sem grande margem para dúvidas, o melhor episódio da série. Sem esperar grande tempo para levantar fervura, serão poucos os que olharão para o relógio duas vezes enquanto o experimentam. O crème de la crème está reservado ao trecho final: memorável, bem dirigido e com uma jogabilidade que não fracassa na altura de trocar a escolha de diálogos por momentos pautados por ação, deixará quem o experienciar a ponderar sobre o que aconteceu durante algum tempo. Além disso, deixa Bigby numa posição que torna a espera por In Sheep's Clothing, o quarto episódio, insuportável. O maior problema está na sua longevidade: noventa minutos, o que é muito pouco para quem esteve mais de dois meses à espera.