Pela positiva ou pela negativa, o final de qualquer forma de entretenimento episódico é sempre determinante. Seja no final de uma temporada ou no final da série propriamente dita, muitos destes momentos transformam-se em ícones da cultura pop, quase sempre arrastando consigo a série completa.

Não quero dizer que o arranque e o miolo do espetáculo não seja importante, contudo, todos se lembram daqueles trinta segundos finais, tantas vezes aproveitados pelas produções para deixarem quem assiste sedento da próxima temporada ou, no caso de ser o final definitivo, a desfiarem meticulosamente todos os fotogramas nos próximos dias, semanas, meses e, em alguns casos, anos.

LOST, Breaking Bad, Sopranos, Dexter: tudo exemplos de finais que ainda ecoam e continuarão a ecoar pela Internet fora. Quem já viu sabe perfeitamente do que estou a falar, quem não viu, é especialmente importante relembrar que naquele quarteto está alguma satisfação, alguma confusão e, transversal a tudo e a todos, desagrado. Ou seja, independentemente de terminar com as melhores audiências de sempre ou de estar em evidente declínio, não é possível encontrar um final que agrade a todos.

Acredito que este despertar de opiniões tão fortes e aferroadas está relacionado com o tempo investido naquela programa, quase como se quiséssemos ser recompensados por toda a atenção e cuidado que lhe dedicámos semanalmente. E apesar dos exemplos dados serem totalitariamente dramas, o mesmo se aplica ao outro espetro de emoções. Seinfeld foi uma comédia e aquele final deixou muitos bons samaritanos irados além do compreensível.

Esta longa introdução tem um propósito: o jogo aqui analisado é The Wolf Among Us: Cry Wolf. O título pode não o indiciar, mas estamos perante o quinto e último episódio da primeira temporada da série da Telltale Games. É verdade que até aqui os exemplos dados foram de outra forma de entretenimento, mas acredito que todas as linhas dos primeiros parágrafos são aplicáveis a videojogos episódios e a Cry Wolf em particular.

Portanto, analisamos esta última hora e pouco pelo que oferece enquanto episódio ou pelo que vale enquanto última paragem para um comboio que já parou em quatro estações anteriormente? A resposta certa é: enquanto os dois, pois são indissociáveis. Quem começar Cry Wolf terá em mente uma única questão: como é que a produtora vai acabar a série? Pelo menos, foi a questão me foi assaltando o pensamento várias vezes depois de ter terminado In Sheep's Clothing, o quarto episódio da temporada.

A começar Cry Wolf temos um pequeno resumo de momentos importantes que se expandem por vários episódios pretéritos, deixando desde logo antever que nós é que a produtora vai tentar desatar nos próximos minutos. Até vermos os créditos finais rolarem temos um pouco de tudo: cenas com diálogo que ajudam a contextualizar o que estamos ali a fazer; cenas de ação, uma cena de perseguição e uma panóplia de escolhas que são, indubitavelmente, as mais difíceis da série, ombreando com algumas de The Walking Dead.

Quase tudo o que foi descrito tem um propósito, trabalhando relativamente bem em conjunto. O diálogo tem um papel bastante interessante, especialmente perto do final. A figura principal de Cry Wolf é quem melhor ganha com a excelência da escrita. Se forem ávidos consumidores de formas de entretenimento, é relativamente fácil avistar ao longe o que a produtora vai fazer com esta oportunidade dada à mencionada figura.

Estamos perante alguém declaradamente horrível, alguém desprezível. O jogador sabe disto, o elenco de Fabletown sabem disto, mas ainda assim dá um enorme gozo colocar a personagem à frente de quem o acusa e participar numa troca de argumentos, como se cada linha de diálogo fosse uma bola fluorescente e estivéssemos a assistir à final de Wimbledon.

Um bom vilão não é aquele que se limita a cometer os crimes mais bárbaros e hediondos, mas sim aquele que defende a sua inocência até o cair do pano, imaginem John Doe em Se7en. Tudo isto pode ser encarado como a primeira parte do ato final, mas a Telltale conhece bem para quem está a adaptar o trabalho de Bill Willingham, autor da saga Fables. E há um segundo ato; e é fácil admitir que não o antevi.

Os argumentistas foram hábeis: sabiam perfeitamente que ao acabar a temporada com o primeiro ato, estariam a cometer um erro crasso: o falatório duraria pouco tempo, pois praticamente não havia um gancho de mistério. Apesar de não ser polémico, é confuso e abre a porta a incontáveis teorias da conspiração. Quem era quem? Será que aquela personagem afinal era outra? O que é que significam aquelas últimas linhas de diálogo trocadas na conversa final? Gostem ou não desta manobra, a verdade é que resultou: é fácil irem ao Google e comprovarem tudo o que acabei de mencionar.

Muitos alegarão que não é tudo o que um final deverá ser, mas sejamos francos: apesar de alguns se aproximarem mais que outros, nenhum final o é: quem assiste tem sempre as suas perguntas que quer ver respondidas em 90 minutos. Horas depois de terminar o jogo, penso que a sua mais valia é a representação de Bigby como uma personagem ambígua. Pelo menos, é esse o espelho das escolhas que fiz na reta final do episódio, com o "lobo mau" a ser temido por todos.

Como já mencionei, existe uma cena de luta principal. Gostei da sua jogabilidade e serviu para esticar as falangetas, ainda que o seu enquadramento seja um pouco gratuito, transparecendo a sensação que foi colocada ali a pedido de quem se queixa de o jogo ter poucas cenas onde se pode ter um papel mais activo. O que esta cena me provou é que a Telltale tem artistas talentosíssimos, qualidade que é facilmente representada nos cenários e, especialmente, no desenho das personagens.

E já que estamos a falar do lado mais técnico do jogo, importa mencionar dois pontos: a banda sonora continua a ser boa a criar ambiente; e a vocalização é credível em praticamente todas as personagens. Mas permitam-me que dê destaque ao homem que vocaliza o vilão da série e do episódio. Já elogiei a escrita, mas para as frases e os parágrafos terem este impacto é necessário alguém que lhes dê volume. Como não quero estragar a surpresa a ninguém mencionando o nome da personagem, deixo aqui o nome de quem lhe deu voz: Philip Banks.

Então, vale a pena jogar a primeira temporada de The Wolf Among Us? Sim, vale. Mesmo com todas as falhas apontadas, Cry Wolf não deixa de ser um dos melhores episódios da temporada. É verdade que esperava que o final fosse um pouco mais conclusivo e que algumas personagens foram relegadas para papéis secundários na reta final, mas a porta fica escancarada à vontade da Telltale.