A vida é difícil. Esta é determinada pelas nossas escolhas, mas no mundo dos videojogos um protagonista encara questões que o encostam à parede pelas decisões do jogador. É moldado de tal forma que se torna uma figura do espelho empunhado por quem clica nas decisões que aparecem no ecrã.

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Todavia, os criadores dessas mesmas questões são influenciados e inspiram-se no seu dia-a-dia, pelas sua vivências; não é de admirar que vejamos similaridades com o que se passa no mundo real, que nos instigam a debates e a refletir sobre a nossa sociedade, religião ou política. Sim, os videojogos são principalmente um veículo de escape ao quotidiano que nos deixa de rastos; os videojogos são também um meio que nos possa fazer pensar sobre temas mais profundos para além da futilidade de um "kill/death ratio".

A obra que será escrutinada nas próximas linhas, This Is the Police, tenta evitar uma discussão que podia ser feita por fóruns e redes sociais. Colocando o jogador a resolver os problemas da localidade de Freeburg, dando-lhe o estatuto do topo da hierarquia de uma esquadra, terá de escolher como terminar a sua carreira policial em 180 dias. Com a consciência tranquila, mas sem conseguir atingir os objetivos que foram inicialmente traçados, ou com alguns níveis de ilegalidade para tratar de assuntos que lhes são incutidos tanto pela mafia como decisões que afetarão a moral das decisões exigidas pela Câmara Municipal.

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A grande desculpa para situações destas aparecerem é a época em que o jogo decorre, os anos oitenta. Não posso deixar de concordar que estas situações aconteciam, contudo, estas também estão constantemente a serem notícia nas últimas semanas, nomeadamente nos Estados Unidos. A rivalidade entre a polícia e a população que protegem é um problema sério, devido ao racismo que teima em existir pelo medo que persiste de uma forma geral e por leis muito duvidosas.

Vocês vão assumir o papel de Jack Boyd, um agente da polícia com uma longa carreira, tão longa que pelo caminho foi ganhando um bom punhado de inimigos, seja na imprensa, na sua esquadra ou até na própria máfia. Foi-lhe incumbida a função de chefe da esquadra de Freeburg pelo corrupto presidente da Câmara Municipal, e em seis meses chegará a sua reforma. O objetivo será conseguir amealhar meio milhão de dólares na altura em que sairá da força policial e passará o testemunho à próxima vítima eleita pelo presidente da cidade.

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A história é contada em painéis de desenhos em monólogos de Boyd. Este conta-nos aas suas dificuldades em gerir a esquadra que agora está nas suas mãos, transtornos familiares e a luta interna que tem em lidar com membros criminosos da máfia local. Em certos momentos, somos chamados a intervir na escolha de decisões que vão afetar futuros eventos da trama policial. Por muito que seja empolgante seguir algo com tanta carga emocional, há escolhas que parecem tomar sempre o mesmo rumo visto já estarmos sobrecarregados de eventos que nos vão levar a um fim que não queremos para o protagonista, nem para as vidas próximas da sua.

Durante dois turnos terão de responder às ocorrências que vão sendo reportadas nas chamadas de emergência, cabendo a vocês escolherem quais e quantos oficiais serão enviados para o evento que vos aparece na maquete da cidade na qual podem visualizar onde estão as emergências e o caminho que tomam os vossos agentes policiais. Isto acaba num jogo de gestão de tempo, porém, é impossível saber se quando ficam sem agentes para acudir a emergências, alguma aparecerá enquanto têm a esquadra vazia. O objetivo é prender o criminoso e não haver baixas civis nem da polícia. O sucesso para o caso em questão dependerá da classificação do vosso agente em estrelas. O meu melhor classificado andava na casa das quatrocentos, enquanto que o pior andava perto das trinta. Se a ocorrência ficará resolvida recebem mais dez estrelas por agente, já se falharem ser-vos-á retirado estrelas ao vosso total.

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A minha tática era equilibrar os agentes que enviava ao serviço. Ou seja, um de valor muito elevado iria com alguém de valor baixo, mas se for um de duzentos mandava-o com um de cem. Inevitavelmente, vão haver situações em que estão com o pior da vossa esquadra para atender o serviço e não há tempo disponível para esperar pelo regresso dos agentes em funções, por isso o resultado era sempre desastroso quando aconteciam estas situações inconvenientes. Era difícil saber se numa determinada ocorrência, como um assalto a uma loja pequena, se os meus agentes regressariam com vida, ou até se apanhava o criminoso.

Em algumas situações terão de utilizar os vossos detetives ou a vossa equipa de força de intervenção, a SWAT. Estas investigações eram particularmente interessantes e captavam a minha atenção, todavia o meu foco estava sempre nos agentes da polícia que estava a mandar resolver ocorrência de menor grau criminal.

Por vezes, a Câmara Municipal encostava-me à parede com pedidos que não faziam o menor sentido. Por exemplo, despedir toda a minha força policial que fosse de pele escura, porque estava um grupo de delinquentes a espalhar a violência na comunidade negra de Freeburg. O meu melhor agente tinha que ser despedido, para obedecer a Câmara. Mas não o fiz, em troca foi-me recusado o pedido que tinha feito anteriormente para adicionar mais vagas à minha esquadra. Cedo apercebi-me que o jogo quer-me transformar tal e qual como o presidente de Freeburg, corrupto e sem nenhuma ponta de moral. Se tivesse alguma, as mecânicas do jogo rapidamente me forçariam a tomar decisões que me levariam por esse caminho.

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Tentei resistir, mas muitos polícias meus pediam folga, eu já com uma equipa reduzida e com situações cada vez mais perigosas a decorrerem em qualquer um dos meus turnos. A máfia também me obrigava a eleger um ou outro elemento para funções nas quais precisavam de presença policial. Se não agisse de acordo com as instruções que me eram dadas, um dia qualquer poderia muito bem ser eliminado por não ser corrupto e ter uma consciência em relação aos atos criminosos que me estavam a ser entregues todos os dias no meu escritório.

This Is the Police é tecnicamente muito consistente com a arte escolhida. O grafismo é interessante com um aspeto preenchido por formas geométricas, há arestas por todo lado, mas com espaço suficiente para incluir alguns detalhes. O que destaco com mais facilidade é a apresentação a todos os dias do jogo, onde Jack levanta os estores e têm à sua frente uma maquete da cidade onde acompanha todas as atividades dos seus agentes e das emergências da cidade. Os painéis onde é apresentada a narrativa também são bonitos com cores sólidas sem grandes contrastes. Mas o grande destaque vai para a escolha do elenco para a vocalização das personagens, nomeadamente de Jack Boyd. Este é vocalizado por Jon St. John, a carismática voz de Duke Nukem.

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This Is the Police tem um aspeto muito interessante e mecânicas que precisavam de um sério equilíbrio. Se não houvesse tantas situações que ficam fora do nosso controlo, este título tinha um apelo único. Contudo, há também o fator relevante que não joga a seu favor: a falta de sensibilidade para a forma como trata assuntos tão importantes que se passam hoje em dia e que não são apenas um recontar de eventos que ocorreram nos anos oitenta.