Estamos na época do ano em que todos os videojogos têm que reclamar alto a atenção dos jogadores, que o diga Titanfall 2, obra da Respawn Entertainment que chega ao mercado ladeada dos colossos Battlefield 1 e Call of Duty: Infinite Warfare. Depois de ter dedicado vários dias à obra, torna-se evidente que independentemente da sua prestação nas tabelas de vendas, estamos perante uma iteração melhorada da proposta original que chegou ao PC, Xbox One e Xbox 360 em 2014.

Titanfall 2 perde a Xbox 360, mas junta a PlayStation 4 ao leque de plataformas que o recebem, com a produtora a acrescentar uma campanha a solo propriamente dita à lista de conteúdo disponível. Ciente das queixas referentes à sua ausência no primeiro jogo, a casa californiana sabia perfeitamente que tinha de proporcionar algo substancial, algo que se esquivasse à sensação que estava lá apenas por estar. E foi precisamente isso que fez: a solo, Titanfall 2 revela-se uma experiência salutar, com cinco a seis horas em que saltamos por entre peças que têm tanto de epopeia científica como de apelo ao sentimento, ao lábio tremido.

Imagens Analise Titanfall 2

A esperança para fazer frente à IMC está depositada em nós, os jogadores que vestem a pele do piloto Jack Cooper. Saímos da formação e estamos prontos para combater uma guerra que gira à volta de uma arma poderosa, saltando de imberbe para última esperança numa tarde, porque nisto da ficção científica digital não há grande espaço para despedidas e ambientações ao que poderá ser o ponto final na nossa vida. Têm uma arma? Bem, então vamos lá ser o último reduto.

Isto poderia ser a introdução a um emaranhado de clichés, mas não. Apesar de não ser uma grande novidade sermos colocados na esteira de uma potência de índole destrutiva, a forma como fazemos esse percurso é, no mínimo, captivante. Cooper almeja tornar-se piloto de um Titan, criatura que no universo de Titanfall é uma enorme máquina andante pelo campo de batalha. E logo nos momentos iniciais da trama, é precisamente essa oportunidade que lhe é concedida, tornando-nos assim uno com BT-7274.

Imagens Analise Titanfall 2

E enquanto o mundo pode acabar à nossa volta, o arco narrativo de Titanfall 2 resulta porque se concentra na relação homem-máquina entre Cooper e BT. Há alguns caminhos escolhidos pelos argumentistas que são fáceis de adivinhar, mas o seu apelo à emoção entre o orgânico e o metal frio tocará na maioria dos jogadores. É escusado pensar que temos aqui uma ópera espacial da magnitude de Mass Effect, mas antes uma trama compactada, quase como se fosse uma depuração a uma escala mais rápida e semi-instantânea.

Misturando cenas de combate em que a locomoção é feita a pé com cenas em que estamos no cockpit do nosso amigo da dinastia do metal, a jogabilidade evita cair no facilitismo do ciclo matar-avançar-matar-avançar, alicerçando-se em alternativas temporárias, como por exemplo a manipulação do tempo, uma piscadela de olho a Prey e Mirror’s Edge. O final atira-se à jugular emocional sem perguntar se pode, algo que tem tanto de prevísivel como de eficaz.

Imagens Analise Titanfall 2

Calma, não pensem que vão encontrar aqui um argumento de Kubrick ou as sinopses de resquícios de Asimov ou Arthur C. Clarke descobertos no fundo do báu. A solo, Titanfall 2 funciona bem porque não é sobranceiro, atira ao coração do jogador mesclando várias mecânicas da jogabilidade, dando-lhe motivos para irem abraçar um amigo, dizer-lhe que se é possível uma amizade com blips e blops, mais fácil deverá ser entre dois corações que batem. Não é magia, mas sim um videojogo a equipar-se da munição Pixar e a disparar sentimentos por todos adentro.

Claro que não há ordem na forma como desbravam o conteúdo oferecido por Titanfall 2, mas, no fundo, a campanha pode ser encarada como uma antecâmara para o multijogador, onde terão pela frente vários modos de jogo em vários mapas para medirem forças com outros jogadores de carne e osso, seja apeados ou também no cockpit dos bastiões metálicos.

Imagens Analise Titanfall 2

Nos jogos multijogador, antes de rasparmos o que o conteúdo proporciona, é impreterível que os alicerces, leia-se as infraestruturas técnicas, estejam à altura. E neste departamento, Titanfall 2 continua a dar uma resposta sólida às vontades dos jogadores, independentemente da hora do dia a que resolverem ligar-se aos servidores. A latência nunca foi entrave à minha prestação no campo de batalha virtual.

Para que o jogo não seja um affair momentâneo, há aqui bastante em que participar numa combinação que acabará por ser um gancho. Os Titan têm habilidades próprias: se gostam de jogar à ofensiva, há armas poderosas; preferem uma postura mais defensiva? Há escudos protectores. Gostam de misturar as abordagens? Há, por exemplo, a habilidade do teletransporte. Seja como for, o momento em que chamam estes companheiros é sempre uma descarga de adrenalina – Standby for Titanfall! e os olhos arregalados.

Imagens Analise Titanfall 2

Apesar de não estarem todos desbloqueados no início, podem contar com seis Titan no multijogador – Ronin, por exemplo fica acessível no nível 7, Legion no nível 15. Consoante forem jogando, vão acumulando experiência e consequentemente subindo de nível. Mas desbloquear os Titan é apenas o início, uma vez que são passíveis de serem personalizados, melhorados, ajustados, tal como o Pilot, que poderá ser refinado em vários parâmetros, seja a habilidade, o armamento bélico, ou pormenores como o Fast Regen, caso queiram que a regeneração da energia comece mais cedo.

São muitos os pontos que ajudam a aproximar a experiência que têm com Titanfall 2 da vossa natureza enquanto jogador, pontos que passam também pela estética. Tudo isto serve como a preparação para o que se passa no campo de batalha, aquilo que verdadeiramente sela o pacto entre obra e jogador. E, verdade seja dita, o ensemble destas batalhas digitais é um prazer, uma edificação do que já tinha sido estabelecido com o primeiro jogo.

Imagens Analise Titanfall 2

Por exemplo, o modo Attrition chega-nos do Titanfall original e continua a ser um dos pontos altos do multijogador. Duas equipas compostas por seis jogadores têm que se degladiar, matando todos os membros da equipa adversária, ganhando pontos por cada morte – seja de um humano ou de pequenos (e irritantes) personagens controladas pela Inteligência Artificial. É simples, mas resulta graças aos momentos que praticamente todas as partidas proporcionam: no caos do campo de batalha e na ânsia de recolher pontos para a equipa, há trechos soltos que ficam, quase sempre envolvendo o frente-a-frente com Titan, seja a carne para canhão que é Pilot contra Titan ou os épicos confrontos Titan contra Titan.

Mas há mais sete modos de jogo, incluindo versões de modos mais tradicionais, como se verifica em Amped Hardpoint, mas também partidas com regras interessantes: Last Titan Standing faz com que todos os jogadores comecem dentro de um Titan; em Pilots vs. Pilots apenas é permitida a entrada a Pilots, como é indiciado pelo título. Um dos destaques de Titanfall 2, contudo, dá pelo nome de Bounty Hunt e é fácil perceber porquê: matamos inimigos para ganhar dinheiro, sendo possível – e francamente recomendável – depositar a maquia em locais específicos quando for possível. Não só há o momentum de matar o adversário, como a estratégia de saber quando jogar pelo seguro e não ser ganancioso a mando da ambição desmedida.

Imagens Analise Titanfall 2

As componentes gráfica e sonora são competentes, não proporcionando o grafismo e a sonoplastia mais afirmada do ano, mas estando lá para enaltecer o que a jogabilidade é capaz de entregar. Titanfall 2 é um trunfo como videojogo e um exemplo de como uma sequela deve ser arquitectada: olhar para o que funcionou e expandi-lo, não se esquecendo de introduzir componentes novas para que a sensação de plissar não se instale precocemente. É pena que a campanha não tenha mais uma ou duas horas, apesar de o que é oferecido funcionar, e é também pena que o matchmaking não seja um pouco mais afinado. Mas são pormenores num quadro geral que vale a pena, vale bem a pena.