To Leave tinha potencial para ser algo verdadeiramente especial, algo de diferente numa indústria cada vez menos pautada por obras que possam realmente ser consideradas originais. Ora, To Leave é efetivamente diferente de tudo aquilo que joguei no passado recente, infelizmente, ser diferente não significa que seja necessariamente uma obra de qualidade. Há aqui ideias bem interessantes, mas a sua execução impede-as de brilhar e oferecer uma experiência aprazível.

To Leave tem na sua narrativa e temática os seus principais trunfos, mas deixa que a sua jogabilidade perturbe decisivamente o nosso apreço por esses dois elementos. O seu arranque é emocionalmente pesado e - se se derem ao trabalho de ler as entradas do diário do protagonista disponíveis logo no início da campanha - toca em vários temas difíceis de digerir sem grandes filtros ou eufemismos. Afinal de contas, jogamos com uma personagem com depressão maníaca que se refugia nas suas alucinações psicadélicas.

Distinguir o que é real e o que é produção da mente afogada em químicos do protagonista nem sempre é fácil, mas o jogo faz um bom trabalho em manter toda a experiência coesa nesse aspecto, ou seja, em assegurar um fio condutor ao longo da aventura. To Leave faz das materializações das causas e consequências dos problemas de saúde mental da sua personagem obstáculos para serem superados, o que resulta com sucesso no sentido de nos aproximar do estado mental daquele que controlamos.

Diria até que resulta demasiado bem. A obra da Freaky Creations não é uma experiência divertida de se jogar - nem o deveria ser, tendo em conta a temática -, mas também não é uma experiência agradável ou recompensadora de se jogar. E é aqui que assentam os problemas deste peculiar título. Pode uma obra pensada para levar os jogadores a um estado de desespero, pessimismo e frustração ser considerada boa, ou má, quando faz precisamente isso?

A resposta a essa pergunta ditará a vossa opinião em relação a este jogo. Contudo, esta é a minha análise, pelo que terão de levar com a minha perspetiva sobre o assunto. De forma sucinta, To Leave é uma das experiências mais frustrantes que alguma vez tive oportunidade de jogar. Não é uma experiência agradável, é certo, mas o principal problema é a forma como castiga desenfreadamente o jogador sem lhe oferecer uma recompensa que justifique verdadeiramente esse caminho penoso pelo qual nos obriga a passar até chegar ao final de cada um dos capítulos.

Começando de forma enganadoramente simples, com capítulos rapidamente concluídos com simples e curtos segmentos de plataformas tradicionais, o jogo não demora muito até complicar os seus segmentos fazendo uso da porta voadora do protagonista. A forma mais simples de descrever a jogabilidade durante estes momentos é fazer-vos relembrar o “bom” velho Flappy Bird, o fenómeno que dominou os dispositivos móveis há uns anos atrás. Obviamente, a diversidade é muito maior aqui, mas a mecânica central é a mesma: pressionem o botão X para fazer a porta ascender, deixem de o pressionar para o resultado inverso.

Assente neste mecanismo, To Leave introduz novos tipos de obstáculos e desafios para o jogador ultrapassar com a sua progressão pelos seus vários capítulos. No entanto, o título da Freaky Creations não sabe quando parar e passa frequentemente a linha do aceitável no que diz respeito à sua dificuldade. To Leave não é só difícil. É, também, muitas vezes injusto, cometendo com frequência o maior erro que um título de plataformas - ainda que esta esteja longe de ser uma obra tradicional desse género - pode cometer, isto é, colocar-nos dependentes de um processo de tentativa e erro.

São várias as decisões de design questionáveis que podem encontrar por aqui. Para além dos obstáculos impossíveis de antever e que basicamente significam que morrerão sempre que chegarem a uma área do nível, a colocação dos checkpoints parece às vezes aleatória, oferecendo-nos vários de seguida em segmentos de dificuldade reduzida e poucos, ou nenhuns, em segmentos de dificuldade máxima. No fundo, To Leave é um jogo que pede ao jogador um nível de precisão que os seus controlos simplesmente não oferecem, o que leva a que a frustração seja uma presença constante.

Ao longo dos níveis existem fragmentos para serem recolhidos que aumentam a duração do “combustível” da porta voadora, sendo que após este se esgotar, terão de começar o nível do seu início. Ou seja, para além da dificuldade associada aos níveis, têm ainda de lidar com a pressão associada ao facto de existir uma constante diminuição do tempo disponível causada pelos vossos sucessivos fracassos. No final de cada capítulo, o protagonista atira-se literalmente para a sua cama e isso acaba por se revelar uma perfeita representação daquilo que sentimos quando concluímos um nível. Não é uma sensação de recompensa ou de um trabalho bem feito, é a sensação de quem pensa, por entre alguns impropérios, “Finalmente!”.

No departamento técnico, To Leave é uma obra bastante bela visualmente, optando por um estilo gráfico que transforma a sua ação numa espécie de banda desenhada em movimento que se destaca pela paleta de cores utilizada e os efeitos e animações que pautam os seus cenários. A sua banda sonora também não desilude, fazendo um excelente trabalho no acompanhamento da jogabilidade e na sua adaptação ao que os níveis nos vão colocando em frente. É altamente recomendado que joguem com auscultadores.

To Leave tem o coração no sítio certo, mas isso não é suficiente para se afirmar como um bom jogo. A sua dificuldade exagerada aliada a várias opções de design apenas tem o condão de adensar a frustração à medida que as horas se vão acumulando. Posso não ser o mais habilidoso dos jogadores, mas estar mais de três horas preso no mesmo nível é inaceitável nos dias de hoje. Eu fi-lo porque estava a jogar a obra para análise, porque caso contrário teria desistido bem mais cedo, tal como provavelmente acontecerá com muitos daqueles que derem uma oportunidade a este título. Se a dificuldade não vos assusta, então To Leave poderá ser merecedor da vossa atenção.