Sem a campanha de marketing que caracteriza as obras das principais editoras da indústria, os estúdios independentes estão dependentes da sua capacidade para apresentar conceitos interessantes aos jogadores mais atentos e esperar que isso seja suficiente para que a palavra chegue até uma audiência maior. Essa tarefa é especialmente difícil quando estamos a falar de um jogo de estreia de uma produtora ainda à procura de provar o seu valor, tal como é o caso da SMAC Games.

Tokyo 42 Imagens Analise

Com Tokyo 42, a produtora captou a atenção dos jogadores e da crítica especializada através de um departamento visual extremamente bem trabalhado e uma jogabilidade que homenageia títulos como Syndicate e os jogos originais da série Grand Theft Auto. O VideoGamer Portugal teve oportunidade de falar com um dos produtores do título em junho do ano passado, altura em que o título já gerava algum interesse. Desde então, a obra chegou ao mercado, primeiro no PC e Xbox One em maio e uns meses mais tarde na PlayStation 4.

Depositadas várias horas nesta notável versão futurista de Tóquio, há muito para apreciar em Tokyo 42. Infelizmente, existem também problemas que têm um impacto negativo na experiência. No fundo, estamos perante uma obra recheada de boas ideias, mas que nem sempre as consegue executar da melhor forma. Nos momentos em que todas as suas componentes se conjugam como a produtora tinha idealizado, o título oferece doses elevadas de diversão, sendo por isso uma pena que, não raras vezes, a obra acabe por causar mais frustração do que entretenimento.

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Numa sociedade futurista, repleta de arranha-céus e carros voadores, assumimos o controlo de alguém suspeito do primeiro homicídio do ano de 2042 em Tóquio. Após escapar às autoridades com a ajuda de um conhecido, o protagonista embarcará numa missão pelo lado mais criminoso da sociedade para provar a sua inocência à medida que vai levantando o véu a uma gigantesca conspiração que assola a cidade. E como é que farão isso, perguntam vocês. Cometendo inúmeros crimes e atrocidades, pois claro. Não faz grande sentido, obviamente, mas a campanha do título serve essencialmente para dar alguma justificação às nossas ações, nunca conseguindo entregar uma história capaz de nos manter investidos na aventura.

Ainda assim, a componente narrativa está longe de ser um elemento de importância máxima numa experiência deste género, pelo que esta falha está longe de ter um impacto negativo na obra. Basicamente, a campanha e as personagens secundárias que introduz são utilizadas como fonte de contratos - ou seja, missões - que vos permitirão obter dinheiro e reputação no mundo criminoso. O aumento de reputação dá-vos acesso a contratos mais exigentes e mais recompensadores, enquanto o dinheiro pode ser gasto para adquirir disfarces e novos armamentos. 

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Com 25 missões incluídas na campanha, vários locais dominados por gangues para libertar e muitas mais dezenas de contratos secundários espalhados por diferentes personagens para realizar, Tokyo 42 está recheado de conteúdo para manter o jogador entretido durante várias horas. No entanto, os problemas da sua jogabilidade poderão fazer com que a motivação para concluir tudo aquilo que o jogo tem para oferecer possa nem sempre existir.

Fazendo uso de uma perspetiva isométrica e um de mundo de jogo meticulosamente criado para forçar o jogador a rodar a câmara em relação ao cenário - uma mecânica bem ao estilo do que havia sido realizado por Fez -, o título destaca-se pela diversidade de opções que nos oferece. Com um mundo aberto de dimensões respeitáveis, quase todas as missões podem ser abordadas de várias formas distintas, dando-vos opções, uma vezes mais óbvias do que outras, para concluírem o vosso objetivo de forma furtiva, à Rambo ou num misto das duas. 

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Utilizar o cenário que rodeia o alvo a nosso favor e eliminá-lo sem que o caos se instale e balas comecem a ser disparadas em todas as direções é, pessoalmente, a forma mais interessante de jogar, mas essa opção nem sempre é verossímil. Percebe-se que num jogo recheado de possibilidades, a produtora tente criar cenários para satisfazer todas essas diferentes abordagens, mas nunca retirei grande prazer em situações de tiroteios. Nesses momentos, a obra transforma-se num frenético twin-stick shooter que torna-se demasiado avassalador com frequência, criando picos de dificuldade desnecessários que nos obrigam a tentar o mesmo contrato demasiadas vezes consecutivas.

Tokyo 42 está no seu melhor quando nos deixa ser metódicos com a nossa abordagem Assim que o caos se instala torna-se difícil retirar o máximo proveito da experiência porque somos forçados a dançar entre inúmeras balas e não raras vezes agradecer à sorte divina por não termos sido atingidos. Claro que podem sempre tentar esconder-se e recomeçar a investida - algumas missões incluem até checkpoints -, mas os inimigos são, de uma forma geral, demasiado inteligentes para vos perderem de vista facilmente.

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Dito isto, o principal problema da obra prende-se com a sua câmara. Por estar bastante afastada da ação, torna-se muitas vezes difícil aplicar a precisão necessária nas nossas investidas. Isto é sobretudo notório quando usam a Sniper, tendo sido várias as ocasiões em que tive de me aproximar do ecrã para conseguir perceber se a mira estava ou não bem colocada para atingir o alvo. Se porventura jogarem bastante perto do vosso ecrã, é provável que este problema não vos afete de forma significativa, mas se jogarem sentados no sofá, por exemplo, esta dificuldade para perceber o que se passa no mundo de jogo tem efeitos nefastos na experiência.

Para além disso, em alguns locais, as missões são tornadas ainda mais difíceis pelo facto dos edifícios que rodeiam o sítio em que se encontram bloquearem a vossa visão, impedindo-vos de ter o melhor ângulo possível da ação. Sim, como já referi, podem rodar a câmara para terem uma melhor perceção do cenário, mas os ângulos pré-definidos nem sempre são suficientes para compensar estes problemas momentâneos. Crítica semelhante poder ser aplicada ao texto dos menus que é ridiculamente pequeno. Percebe-se que a produtora pretenda mostrar o máximo possível do seu bonito mundo aberto a todo e qualquer momento, mas é inegável que isso prejudica com frequência a sua jogabilidade.

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Apesar de ser na sua essência uma experiência a solo, Tokyo 42 inclui também uma componente multijogador na forma de partidas Deathmatch que obrigam os jogadores a fazerem-se passar por NPC’s, encontrar armas e equipamento no cenário e finalmente atacar os adversários. Infelizmente, quando tentamos testar este elemento da experiência nos últimos dias na versão PlayStation 4 não conseguimos encontrar jogadores, o que é de lamentar.

No departamento técnico, é impossível não destacar a beleza do mundo criado pela SMAC Games. Como facilmente se percebe pela imagens que acompanham este texto, Tokyo 42 tem um estilo visual declarado, utilizando-o para estabelecer uma versão futurista da cidade japonesa que realça precisamente a modernização da sociedade. Repleto de cores vibrantes, bem como construções e edifícios de forma geométricas simples, mas agradáveis à vista, Tóquio é um mundo interessante de se explorar, mesmo que as ações que fazem nele sejam quase sempre as mesmas. Por sua vez, a banda sonora transporta-nos com sucesso para um ambiente futuro, dominada por sons electrónicos que auxiliam a temática da sua campanha e da ação.

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Tokyo 42 é, acima de tudo, um bom jogo com pequenos problemas que mitigam a qualidade da sua experiência. A diversidade de opções para abordar cada missão e a quantidade de conteúdo disponível permite-nos passar horas a fio numa lindíssima versão futurista de Tóquio criada com enorme atenção ao detalhe, mas a sua câmara demasiado afastada da ação torna muitas vezes difícil perceber o que se está a passar no ecrã. Nos seus melhores momentos, Tokyo 42 é uma experiência altamente divertida, mas os problemas são demasiados frequentes para serem ignorados.