Tokyo Mirage Sessions #FE Encore é uma obra peculiar, sobretudo para aqueles que não estiverem completamente absortos na cultura nipónica. A prevalência dos denominados “ídolos” por terras japonesas e a sua incrível capacidade para mover massas não encontra uma real correspondência nos mercados ocidentais, uma vez que existe toda uma indústria dedicada à criação destes entertainers que utilizam a sua aparência, personalidade e talento, em múltiplas disciplinas, para manterem os fãs investidos a um nível emocional profundo e, claro está, a investir muito dinheiro nos produtos que promovem.

Esta obra da Atlus, que se apresentou como um casamento inesperado entre as séries Shin Megami Tensei e Fire Emblem, transporta-nos para o epicentro desta indústria, acompanhando várias personagens inseridas numa dessas agências de talentos, a Fortuna Entertainment. Infelizmente, apesar de esforços para dar uma maior profundidade aos diferentes nomes que compõem o elenco, a verdade é que cada um deles acaba por ficar preso ao estereótipo da imagem pela qual devem ser conhecidos pelos públicos.

O protagonista, Itsuki Aoi, assume o papel do rapaz banal que, inexplicavelmente, têm um talento inato para tudo o que lhe é pedido, incluindo em determinado momento para obter  o contacto de raparigas com o seu charme, e acaba por se apresentar quase como a representação do jogador na aventura, no sentido em que consegue o afeto de todas as estrelas populares que o rodeiam, algo pelo qual qualquer fã destes “ídolos” anseia. No fundo, o título acaba por representar muitos dos elementos mais perversos da indústria em questão, seja a manipulação constante ou outros elementos ética e moralmente questionáveis.

Independentemente de tudo isso, Tokyo Mirage Session #FE Encore falha em utilizar este ambiente para entregar uma narrativa e personagens cativantes. Sim, oferece um olhar próximo dos mecanismos desta máquina de fazer dinheiro, mas o seu encaixe com o elemento sobrenatural tradicional de Shin Megami Tensei não proporciona uma aventura capaz de surpreender com os rumos que decide seguir. Como é habitual na série, também aqui há uma realidade alternativa, a Idolasphere, a que apenas alguns têm acesso, populada por criaturas conhecidas como Mirages que têm sido responsáveis por acontecimentos estranhos no mundo real.

Para além de ser uma agência de talentos, a Fortuna Entertainment é também uma fachada para Mirage Masters, aqueles com a habilidade de controlar e combater lado a lado com Mirage que, ao fundirem-se com o seu Master, se transformam em armas conhecidas como Carnage. Responsáveis pelo rapto de multidões em eventos de entretenimento públicos, Itsuki e os restantes “ídolos” são a principal defesa contra esta estranha realidade, sendo que cada capítulo da campanha se foca num acontecimento distinto que revela um pouco mais sobre a natureza da Idolasphere e envolve o resgate de alguém próximo ao grupo de personagens.

Ainda assim, como já referi, o título nunca me conseguiu prender aos fios narrativos e nem mesmo as missões secundárias dedicadas à exploração do relacionamento com o elenco secundário, desbloqueadas através do uso continuado dos mesmos em situações de combate, conseguiram proporcionar momentos de maior investimento. No fundo, estamos perante uma obra que demora demasiado tempo a revelar os seus trunfos e que pode perfeitamente perder o interesse de muitos jogadores antes de o fazer. É uma narrativa de serviços mínimos.

A seu favor, Tokyo Mirage Session #FE Encore tem o facto de se fazer valer de um combate por turnos extremamente interessante. Para além de uma constante sensação de progressão graças ao desbloquear de novas habilidades, de novas e mais poderosas Carnage para as Mirage após atingido um nível máximo de mestria com a mesma, e de novas combinações entre os elementos da party, as batalhas primam pela sua sensação de velocidade, nunca se alongando em demasia.

Essa velocidade provém da mecânica de Session que permite encadear ataques entre as diferentes personagens em ação e, a dada altura, até com aquelas que não estão na arena de combate. Estas combinações são desencadeadas através da utilização de uma Skill que explora uma fraqueza do inimigo, permitindo assim vários ataques no único turno de uma personagem. Na verdade, apesar de existir a possibilidade de realizar ataques simples, o jogo está claramente construído para que haja um abuso por parte do jogador das possibilidades abertas por esta mecânica que, diga-se, também pode ser usada pelos inimigos.

Além da componente estratégia associada ao capitalizar de um dos pontos fracos do oponente, há que também ter em conta que diferentes Skill desencadeiam diferentes Session, o que significa que a quantidade de dano e ataques proporcionados pela mesma será sempre dependente do ataque original, dos elementos que compõem a vossa party e dos ataques realizados pelos mesmos durante o processo. Por exemplo, uma Session pode ser interrompida a meio se um dos ataques envolvidos utilizar um elemento em relação ao qual o inimigo é imune e capaz de repelir.

O facto de as batalhas se desenrolarem a alta velocidade é importante se tivermos em consideração que as dungeons são geralmente longas e possuem características distintas, na forma de puzzles, que obrigam a várias passagens e uma longa estadia pelos mesmos espaços. Felizmente, o design das masmorras é diferenciado e consegue evitar a estagnação através da introdução de elementos que obrigam a abordagem distintas. Isto não significa, contudo, que a sua duração não se faça por vezes sentir, sobretudo em sessões de jogo mais prolongadas.

Fazendo do mundo do espetáculo o seu pano de fundo, Tokyo Mirage Sessions #FE Encore entrega uma experiência visualmente rica e repleta de personalidade. O contraste entre as ruas de Tokyo e os cenários no interior da Idolasphere dá uma real sensação de saltar entre mundos distintos, enquanto que as arenas repletas de público indiferenciado em redor do campo de batalha transformam cada combate numa espécie de performance, com cada ataque a ser realizado com os movimentos de quem tentar captar a atenção de uma audiência.

Não é por isso de estranhar que cada capítulo encerre com a atuação musical de um dos “ídolos”, atuação que não só entrega uma nova música à banda sonora acompanhada de um vídeo de estilo anime, como representa um momento de crescimento da personagem em questão e da materialização de todo o seu novo poder e esplendor. A banda sonora é assim parte integrante da experiência, sendo utilizada para elevar momentos da narrativa e também diferenciar os vários locais que vamos visitando.

Relativamente ao lançamento original, Tokyo Mirage Sessions #FE Encore vem equipado com trajes e músicas adicionais, para além de masmorras opcionais que podem utilizar para acumular itens que permitem subir imediatamente de nível ou elevar o nível de mestria de determinada Carnage, algo que o jogo faz questão de informar que pode ser abusado ao ponto de quebrar a experiência. Há também uma história secundária que explora um pouco mais as relações entre as personagens. No entanto, não é o suficiente para justificar uma nova aquisição da obra.

Seria uma pena se este RPG da Atlus ficasse para sempre preso numa consola já mais do que condenada ao fracasso quando o recebeu, pelo que o seu relançamento na Nintendo Switch é uma novidade bem-vinda. Não é uma obra de excelência, mas tem um sistema de combate suficientemente interessante para ser uma aventura prazerosa. No entanto, a narrativa e as personagens estão longe de ser memoráveis, o que prejudica a experiência a longo prazo. Para além disso, não deixa de ser estranho que uma obra que faz referência a Fire Emblem no seu próprio título aproveite tão pouco essa licença.