Pedro Marques dos Santos por - Mar 23, 2016

Tom Clancy’s The Division Análise

Se existe algo que Destiny provou desde a sua chegada ao mercado em setembro de 2014, foi o facto de haver lugar na indústria e, mais concretamente, no mercado das consolas para obras que aliam as mecânicas dos atiradores tradicionais à procura constante por mais e melhor equipamento e armamento para elevarem o poder do seu protagonista. Borderlands foi o aperitivo para um género que parece agora estar a aproximar-se dos níveis de popularidade de algumas das séries que mais cópias movimentam todos os anos.

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The Division é o mais recente título do género e a estreia da Ubisoft nestas andanças com aquela que pode perfeitamente ser considerada uma das suas mais ambiciosas obras dos últimos anos. Comparações com o título publicado pela Activision são inevitáveis e, tal como Destiny melhorou imenso desde o seu lançamento original, também aqui existem vários departamentos que podem e devem ser trabalhados nos meses que se seguirão à sua estreia no mercado.

Apresentando-se como um Atirador na Terceira Pessoa, o título tem lugar num mundo pós-apocalíptico onde a disseminação de um vírus em plena Sexta-feira Negra, o maior exemplo da loucura das promoções numa sociedade capitalista, leva à morte de milhões de habitantes de Nova Iorque e consequente queda da civilização que passa assim a ser dominada por criminosos e no qual nem a lei marcial consegue controlar a população de sobreviventes.

Criada com o objetivo de assegurar a manutenção do poder do governo em situações na qual a sua soberania se encontra fortemente ameaçada, a agência The Division enviará os seus melhores agentes para a cidade que nunca dorme e assim recuperá-la das mãos dos criminosos e desordeiros que patrulham as ruas, ameaçando civis e destruindo o pouco que resta da sociedade civilizada. Enquanto membro da agência, o jogador terá de resgatar médicos, polícias e engenheiros para iniciar a operação de revitalização da cidade.

Apesar do mundo rico que tem à sua disposição, a obra da Ubisoft não coloca grande ênfase no seu arco narrativo principal. As cinemáticas são poucas e afastadas entre si e as missões principais servem apenas como auxílio ao objetivo de reestabelecer a normalidade em Nova Iorque, seguindo as missões que nos são dadas pelas Alas de Saúde, Tecnologia e Segurança da nossa Base de Operações. As personagens estão longe de ser memoráveis e fica sempre a ideia de que o potencial para uma narrativa mais complexa com principio, meio e fim nunca foi verdadeiramente aproveitado.

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Dito isto, o mundo de The Division é extremamente rico. Sim, é verdade que se encontra maioritariamente deserto e pode muitas vezes parecer demasiado vazio, mas dediquem o tempo necessário à sua exploração e prestem atenção aos detalhes e perceberão que não faltam informações para compreenderem a forma como os acontecimentos que deixaram a cidade de joelhos foram sucedendo e, acima de tudo, como os seus habitantes lidaram com a situação. A história principal pode não corresponder às expectativas, mas o mundo do título é muito mais do que apenas o vosso percurso até à sua salvação.

Cães selvagens a ameaçar os sobreviventes, indivíduos a tentar roubar carros, casais a discutir na janela, civis a serem violentamente espancados por criminosos, tudo isto e muito mais pode ser visto durante a vossa estadia em Nova Iorque, momentos que não têm qualquer impacto na jogabilidade, mas que são fundamentais para conferir um maior realismo e peso a este cenário pós-apocalíptico. Juntem a estas situações as centenas de colecionáveis espalhadas pelo mundo de jogo, sejam eles gravações telefónicas, fichas de agentes desaparecidas ou relatórios áudio de incidentes, e chegam facilmente à conclusão que o mundo de The Division é muito mais interessante do que aquilo que a narrativa principal pode transparecer.

Embora seja inegavelmente uma obra ambiciosa e diferente de tudo o resto que a Ubisoft tem produzido nos últimos anos, a espinha dorsal que suporta praticamente todos os seus títulos continua bem presente aqui. Um mapa gigantesco e repleto de objetivos secundários fará com que percam inúmeras horas de jogo sem realizarem uma única missão principal, no entanto, ao contrário do que acontece em outras séries, explorar o mundo e realizar as atividades secundárias que o mapa nos oferece foram os momentos em que a experiência mais me cativou.

Na verdade, as missões principais não só são incapazes de proporcionar os momentos de maior diversão, como acabam por ter o condão de revelar os principais problemas de The Division. Apesar de possuir um ciclo de jogabilidade altamente viciante, as missões principais e, acima de tudo, os seus bosses, que são a verdadeira definição de bullet sponges, trazem ao de cima os defeitos de uma obra que sem estes inimigos exageradamente poderosos poderia ser bastante mais agradável e na qual os seus pontos negativos passariam despercebidos.

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Ao introduzir estes inimigos nos momentos finais das suas missões principais, o título traz à superfície a repetição das suas mecânicas e jogabilidade, uma vez que durante cinco, dez ou mais minutos, dependendo da quantidade de vezes que morrerem, do número de jogadores com os quais estejam a partilhar a experiência e do nível da vossa personagem, estarão presos no mesmo combate, realizando sempre as mesmas ações vezes sem conta, ou seja, descarregar as vossas munições no inimigo e movimentarem-se de cobertura em cobertura até a inexplicavelmente longa barra de vida do inimigo chegue finalmente a zeros.

Isto não só torna a experiência repetitiva, como acaba por levar a inúmeros momentos de frustração e saturação que apenas se vão tornando mais frequentes com o aumentar da dificuldade. Para além disso, jogar a solo, tal como eu tentei ao máximo fazer, acaba por tornar-se uma opção muito pouco válida, pois o combate torna-se rapidamente tedioso e apenas se tiverem uma vantagem considerável de nível relativamente aos inimigos é que terão hipóteses de ser bem-sucedidos antes que a frustração comece a assolar a experiência.

Felizmente, o jogo oferece inúmeras opções para convidarem amigos e desconhecidos para vos acompanharem tanto na realização de missões, na exploração de Nova Iorque ou no embarque pela Zona Cega, podendo numa questão de segundos entrar e sair de grupos de jogadores. Ainda assim, o facto de o jogo estar constantemente online pode causar alguns dissabores, sobretudo para aqueles que pretendem jogar a solo e são impedidos de continuar a sua experiência quando os servidores entram em manutenção.

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Ainda relativamente à problemática das missões principais, os inimigos mais poderosos revelam também a falha do jogo em fazer com que as armas e equipamento que vão obtendo dos inimigos derrotados e da conclusão de missões acompanhe convenientemente a ascensão de nível da nossa personagem. Isto porque o loot é muito pouco recompensador e apenas oferece melhorias incrementais ao que já possuem, sendo que o nível do equipamento nem sempre se traduz numa melhor qualidade ou melhor utilidade para o jogador.

Cada peça de equipamento conta com um valor de proteção e depois estatísticas adicionais que permitam provocar mais danos, aumentam a nossa barra de saúde e os nossos pontos de habilidade. Estes são os elementos, juntamente com os talentos e habilidades a partir dos quais terão de escolher após realizarem melhorias na base de operações, que mais aproximam a experiência de The Division a um Role-Playing Game, mas a verdade é que o equipamento obtido através dos inimigos nunca nos prepara verdadeiramente para os obstáculos que são estes bosses.

Para ser sincero, terão mais sucesso se venderam esse equipamento aos vendedores dos esconderijos seguros e comprarem também aí armamento e equipamento que seja de facto condizente com o vosso nível. Não faz sentido nenhum que uma personagem de nível 10 tenha um número semelhante de armas no seu inventário e aquela que mais danos provoca em inimigos sejam apenas de nível 5 ou 6. Relativamente às modificações das armas, a produtora tem de ser elogiada por ter tornado bastante acessível um elemento da jogabilidade que não raras vezes se torna demasiado complicado para o mais comum dos jogadores.

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Como disse anteriormente, estes problemas apenas se levantam durante as missões principais, uma vez que durante a exploração do mundo, da Zona Cega e a realização de atividades secundárias, The Division é uma experiência bastante agradável tanto a solo como em modo cooperativo, embora a sua longevidade fique claramente beneficiada quando partilhado com amigos. Enquanto Atirador na Terceira Pessoa com foco na cobertura, o título da Ubisoft não é perfeito, faltando alguma fluidez ao seu combate, mas é mais do que competente para não afetar negativamente a experiência.

Desde o seu anúncio há já largos anos, a componente mais interessante de The Division era a área conhecida como Zona Cega, uma área habitada por inimigos mais exigentes e que fornecem melhores recompensas, bem como inúmeros jogadores também em busca de melhor equipamento. Tratando-se de uma zona altamente afetada pelo vírus, todos os itens recolhidos têm de ser extraídos por helicóptero para serem depois descontaminados, o que significa que qualquer inimigo, seja um NPC ou outro jogador, vos podem matar e roubar os itens recolhidos antes de os conseguirem extrair.

Significa isto que se abrirem fogo noutro jogador assumirão o estatuto de traidores e terão à perna todos os outros jogadores que estiverem por perto, sendo imperial que se mantenham em grupo para evitarem surpresas desagradáveis. A minha experiência na Zona Cega foi bastante tranquila e foram raras as situações em que jogadores aos quais me aliei se viraram contra mim, pelo que a entreajuda impera sobre a malvadez num modo de jogo que poderia ser completamente caótico.

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No que diz respeito ao departamento técnico, The Division é um título surpreendentemente sólido para as dimensões gigantescas do seu mundo. Nova Iorque foi recriada com uma fidelidade impressionante e a excelência dos efeitos atmosféricos e de luzes proporcionaram inúmeros momentos em que parei para tirar uma fotografia para a posteridade. Pôr-do-sol lindíssimos e tempestades de neve intensas não só abrilhantam o mundo, como também afetam a nossa visibilidade em momentos de combate. Os servidores nunca cederam durante o meu tempo com o jogo e o número de erros que presenciei contam-se pelos dedos das mãos, o que não é nada de extraordinário, tendo em conta que passei quase 35 horas com o jogo.

The Division é uma obra por vezes excelente e por outras vezes incrivelmente frustrante e tediosa. Explorar o mundo de jogo e receber a sua história através dos colecionáveis é uma experiência bastante interessante, mas as suas missões principais, aquelas que deveriam ser o exemplo do melhor que o título tem para nos oferecer, têm o efeito absolutamente contrário e revelam-nos por completo todos os problemas e defeitos que o jogo terá de ultrapassar para se manter cativante e não cair tantas vezes na frustração e monotonia. The Division criou um mundo extremamente belo e rico, mas não retira o máximo proveito do mesmo.

veredito

The Division é uma obra bastante ambiciosa, mas que precisa de limar algumas das suas arestas para poder corresponder ao seu potencial.
7 Mundo deserto, mas bastante interessante. Excelente em modo cooperativo. Combate repetitivo. Loot pouco recompensador.

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Lançado originalmente:

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