Posso viver mais cem anos - o que é pouco provável - que nunca hei-de esquecer o momento em que o primeiro Tomb Raider me conquistou: dobrei a escarpa e dei de caras com o Tiranossauros Rex. Na altura havia paciência para dois amigos sentarem-se lado a lado. Enquanto um jogava, o outro fornecia informações, comentava, enfim, assistia no que podia. Nessa tarde, fomos dois amigos de queixo caído e com medo de avançar na aventura. 

Mais de quinze anos depois, a Crystal Dynamics apresenta o resultado da nova visão que tem sobre as aventuras da salteadora mais conhecida no mundo dos videojogos. A argumentação sobre este renascimento tem marcado e animado incalculáveis discussões na internet. Se uns dizem que Lara Croft não devia ser retocada, outros explicam que a saga estava estagnada há muito. Ambos os argumentos têm legiões de seguidores, portanto, a tarefa de agradar a todos era praticamente impossível.

Ainda assim, a equipa da Crystal Dynamics fechou-se em si mesma e laborou uma aventura nova, contemporânea, em muito inspirada pelos jogos que se tornaram populares durante o hiato de Lara. Os primeiros minutos do jogo são um prenúncio de tudo o que se seguirá: sozinha no meio de nada nem de ninguém, entregue a si própria, a prioridade de Lara é sobreviver e não explorar. Muito antes de percebermos qual é o argumento deste novo Tomb Raider, já a heroína de serviço arranca ferros do corpo, deambula por cavernas e mata para comer. Lara caída de joelhos, de ombros vergados à espera que tudo o que a rodeia seja caridoso com a sua existência. Mais fragilizada do que nunca, a apresentação resulta e o jogador é desde longo compelido a ajudar Lara, guiando-lhe a mão pelo resto do jogo.

O argumento que motiva Lara a passar por um inferno na terra parece ter-se inspirado no cruzamento de duas séries televisivas: Lost e The River. Lara, recém-arqueóloga, está a bordo do navio Endurance enquanto procura a ilha Yamatai no Pacifico. Aplicando a lei de Murphy, tudo o que podia correr mal, acaba por correr mal e o navio afunda-se no meio de uma tempestade, separando a tripulação. Daí para a frente, o grande arco narrativo coloca a heroína à procura da tripulação. Obviamente, nem tudo é o que parece, nem todos são quem aparentam ser e em poucas horas são mais as perguntas do que as respostas. 

Como já foi referido, Lara começa como um espectro da aventureira que outrora foi. Isto permite que o jogador acompanhe e ajude no desenvolvimento da personagem. As primeiras horas são passadas a mostrar as mecânicas ao jogador utilizando processos dinâmicos muito bem camuflados. Ainda que esta aprendizagem seja feita de uma maneira bastante natural, isto faz com que o jogo demore um pouco a revelar todo o seu esplendor e grandiosidade.

Ironicamente, é quando o jogo se abre ao jogador que os primeiros dissabores aparecem. Lara Croft passa de alguém em dificuldades a uma mercenária impiedosa em muito pouco tempo. Como há entretantos, Lara começa a abrir caminho por entre os opressores de caçadeira e metralhadora em punho. Neste Tomb Raider não há meio-termo e a debilitada defesa cedo dá lugar à uma ofensiva desmesurada, transformando Lara na versão feminina de Bruce Willis em Die Hard. 

A produtora focou-se em desenvolver um sistema de combate equilibrado e fluido. Desde o arco inicial até às pistolas e às caçadeiras, Lara não tem medo de nada nem de ninguém. Quando finalmente começam a achar o combate repetitivo, são dadas novas armas à protagonista, ou seja, no final do jogo, têm o poder bélico para invadir um pequeno país.

Gerir esse poderio todo faz-se usando um sistema bastante interessante. É necessário apanhar itens espalhados pelos cenários para melhorar ou reparar as armas. E se parece uma tarefa leviana, com o avançar do jogo terão que escolher em que armas apostar, transformado o processo num exercício de gestão bastante interessante. E não são apenas as armas que precisam de supervisão do jogador: as habilidades de Lara também estão abertas ao escrutínio de quem está ao comando. Divididas por secções, compete ao jogador moldar os pontos fortes da personagem ao seu gosto e necessidade. 

A exploração da ilha e os puzzles estão lá, ainda que não sejam tão amplos ou tão complexos quanto o desejável. Todavia, aqueles que gostam de sair do caminho principal e explorar todos os cantos dos mapas, encontrarão algumas salas secretas com recompensas para aqueles que completarem o seu objetivo. Quer explorem o jogo ou não, Tomb Raider é um produto quase cinematográfico. Desde o ritmo do jogo até à maneira como Lara escala uma torre de rádio - talvez inspirado no final de Dear Esther - o jogo transpira blockbuster de Hollywood. E isso não é mau, porque graças a essa direção artística, a câmara de jogo funciona para oferecer perspetivas deslumbrantes; alguns desses panoramas são muito mais épicos que a tarefa que estamos a fazer. 

A componente multijogador é genérica. Nenhum dos quatro modos de jogo consegue cativar e forçar o jogador a regressar para mais. Apesar dos objetivos serem feitos à medida do jogo, não há grande apelo em jogar Tomb Raider com outros jogadores. Seria muito mais interessante se a Crystal Dynamics permitisse que a aventura principal pudesse ser jogada a dois. Tal não aconteceu e não deve demorar muito para que os jogadores comecem a escoar das salas de jogo.

A componente técnica é, indubitavelmente, um dos pontos mais altos do jogo. Sim, os cenários são extremamente bem trabalhados e praticamente todas as áreas de jogo têm uma pincelada detalhada. Contudo, são os efeitos que arrebatam qualquer um. Desde as chamas ao ondular da água, todos estes pormenores servem para deixar o jogador de queixo caído. Todos os sons que o mundo de Tomb Raider emite ou todos os trechos musicais que o embalam são acima da média, porém, o destaque tem que ir para o trabalho de Camilla Luddington na pele de Lara Croft. O melhor elogio que se pode fazer a Camilla é que o seu trabalho é credível. E é tudo o que é preciso dizer.

Aqui está: Tomb Raider renascido das cinzas. Com uma mecânica de combate aprimorada e um grafismo incrível, os jogadores que só agora chegaram a esta saga entram pela porta grande. O apelo de Lara foi acudido por uma legião de fãs novos e da velha guarda. Pena o multijogador genérico e alguma falta de equilíbrio no desenvolvimento da personagem. Ainda assim, há muito que não se falava tanto sobre o lançamento de um jogo Tomb Raider. Tenho a certeza que se forem a qualquer loja de jogos, este jogo vai estar em grande destaque nas prateleiras e não perdido no meio de nenhures.