Numa altura em que as obras a que o lendário skater Tony Hawk empresta o seu nome pareciam ter batido no fundo a nível de qualidade e um regresso à série parecia cada vez menos realista, eis que, tal como com Crash Bandicoot, a Activision recorreu ao passado glorioso do seu catálogo para injetar uma nova vida a estes clássicos de uma era pretérita. Mais do que meros jogos, Tony Hawk’s Pro Skater e Tony Hawk’s Pro Skater 2 são um marco de um geração, são títulos que ajudaram a tornar o skateboarding quase num estilo de vida.

Independentemente de tudo isso, estes são, antes de tudo o resto, dois jogos de enorme qualidade, completamente merecedores de uma nova vida e de estarem disponíveis de forma fácil e acessível a todos os que pretendem matar saudades, bem como aqueles que pretendem experienciar um pouco de história desta indústria. Acima de tudo, é um lembrete que os jogos Tony Hawk forem em tempos algumas das melhores obras no mercado e não a sucessão de títulos, na melhor das hipóteses, medíocres a que assistimos nos últimos anos.

Pela mão da Vicarious Visions, Tony Hawk’s Pro Skater 1 + 2 apresenta-se não só como uma revitalização dos dois jogos originais, mas também como uma oportunidade para relançar a série para voos mais altos. Contudo, antes de abrir caminho para possíveis novos títulos, era indispensável reintroduzir na esfera pública estas experiências, lançadas no virar do século, com uma importante sensação de modernidade para captar a atenção de novas audiências, aquelas cuja a estadia nos jogos não será tingida pelas cores da nostalgia.

Ainda que não sejam obras impressionantes ao nível do grafismo, visitar níveis e locais icónicos, como o Warehouse ou a School, da série com visuais modernos que simplesmente não eram possíveis aquando dos lançamentos originais tem o seu encanto. A diversidade de cenários ajuda a que o espetáculo visual se mantenha estimulante, mesmo quando os ambientes pelos quais vamos fazendo truques e aumentando a pontuação não sejam propriamente interessantes. 

Os níveis mais expansivos, como Downtown, por exemplo, brilham de sobremaneira em relação aos restantes, mas basta olhar para imagens das edições originais para se perceber o trabalho de qualidade levado a cabo pela produtora para recriar de forma fiel aquilo que alguns já conheciam, mas agora potenciados por uma tecnologia mais capaz. No fundo, estamos perante uma coleção que eleva o grafismo aos padrões atuais, preocupando-se acima de tudo em preservar a identidade do trabalho original.

Dito isto, os jogos Tony Hawk’s Pro Skater destacam-se sobretudo pela sua fluidez de processos e um sistema de progressão que nos dá razão para regressar vezes sem conta ao mesmo nível em busca de aperfeiçoar o nosso desempenho. O esquema de controlos e o excelente trabalho de animações na transição entre manobras fazem com que os movimentos e os truques do nosso skater fluam de forma natural sem nunca complicar em demasia. 

Esse é, aliás, um dos maiores méritos destes títulos, isto é, a forma como oferecem um arsenal bastante alargado de truques sem pedir ao jogador que memorize extensas combinações de botões. A maioria das manobras requer apenas um botão de rosto e o movimento do analógico em determinada direção. Existem manobras mais complexas, como é óbvio, mas nada que esteja ao alcance apenas de alguns predestinados. 

Acima de tudo, o segredo para o sucesso passa por aprender o mais rápido possível os vários métodos para encadear manobras e aumentar o multiplicador da pontuação. Apesar desse foco claro em obter a melhor pontuação possível - existe tabela de líderes -, o sistema de progressão oferece também múltiplos objetivos distintos para concluírem e que, posteriormente, vos permitem desbloquear novos níveis. A gestão desses objetivos é inteligente na medida em que incentiva a experimentação de novas rotas, o que nos obriga quase a ter um conhecimento profundo e detalhado de cada nível no momento em que finalmente limpamos todos os itens da lista.

Para além disso, oferece vários skaters para experimentar, inúmeras opções de personalização e ainda desafios opcionais que alargam ainda mais o leque de atividades em oferta e motivam a prolongar a estadia por estes dois títulos. Menos clara é a influência dos atributos dos skaters na sua capacidade para realizar determinados objetivos num nível, seja porque são mais lentos, porque os seus ollies e distância de salto são mais curtos, nem sempre é óbvio se a razão porque falhamos sucessivamente a tentativa de uma manobra se deve a azelhice do jogador ou simplesmente à necessidade de usar um skater mais forte em determinados atributos.

Adicionalmente, Tony Hawk’s Pro Skater 1 + 2 conta também com modos para Speedrunners tentarem limpar todos os objetivos de um nível no menor tempo possível, outro para a criação e partilha dos vossos próprios níveis, assim como a possibilidade de jogar os melhores níveis criados pela comunidade. Finalmente, há ainda uma variedade de modos multijogador online e local assentes em diferentes objetivos para aqueles que quiserem competir com amigos e outros jogadores de carne e osso.

Acompanhada por uma banda sonora recheada de temas com alto valor nostálgico, a coleção da Vicarious Visions é assim mais um caso de sucesso neste esforço recente da Activision para recuperar propriedades intelectuais caídas em desgraça. Repleto de conteúdo e com visuais mais condizentes com o panorama atual da indústria, os jogos Tony Hawk’s Pro Skater mantém-se tão divertidos e motivantes de se jogar, graças a um imaculado esquema de controlos, como o foram no seu lançamento original, não faltando aqui conteúdo para justificar de sobremaneira o preço de admissão.