É ao olharmos para trás e repararmos que já se passaram quase catorze anos desde o lançamento de Total War: Shogun que percebemos que esta série já é veterana na indústria dos videojogos. Desde que Shogun abalou o mercado dos jogos de estratégia no início do milénio, ou até mesmo desde que Rome: Total War conseguiu conquistar a critica especializada ao juntar RTS e TBS num só conceito, muita coisa mudou na indústria.

Surgiram novos concorrentes, novas mecânicas de jogo ou até mesmo novos tipos de tecnologia, e com o anúncio de um novo lançamento na série Total War, principalmente sob a forma de uma sequela para Rome, as expetativas dispararam imediatamente, surgindo uma legião de fãs completamente desejosos de colocar o jogo à prova.

Mas como um jogo que consegue um sucesso relativamente mediático não consegue deixar de dar nas vistas, Total War: Rome II marca também a chegada de muitos novos jogadores ao campo de batalha. Aliciados pelos comentários positivos em relação aos seus antecessores, muito deste público poderá ver-se confrontado com algumas dificuldades desde uma fase muito precoce do jogo da The Creative Assembly, desde logo porque a curva de aprendizagem ainda é relativamente grande. Assim, para contrariar esta possível atrocidade, a produtora envia-nos para o cerne de um tutorial meticuloso e algo extenso, com o objetivo de nos apresentar às mecânicas base do jogo e também de nos apresentar ao enredo pelo qual vamos ser acompanhados nas horas seguintes.

Os membros da velha guarda deverão reparar numa série de novas implementações logo após alguns toques neste título. Desde logo, a gestão da alimentação e parte económica de cada região passa a estar facilitada através do agrupamento de cada uma das regiões em províncias, que por sua vez podem ser geridas funcionando como um todo. Ainda assim, a independência de cada uma das regiões continua a estar garantida com a necessidade de controlar as construções dos edifícios em cada "settlement", ou de conquistar individualmente cada uma das regiões de uma província para que a possam controlar como um todo.

A componente política volta a adquirir uma envergadura gigantesca em Total War: Rome II. As várias opções estratégicas a seguir oferecem um maior leque de variedades, mas em simultâneo, obrigam o jogador a pensar bem nas consequências das suas escolhas. A dedicação prestada a cada uma das componentes da nossa mini-sociedade (militar em detrimento da económica, por exemplo) tem repercussões imediatas que deveremos analisar sensatamente se pretendemos manter-nos no ativo. Da mesma forma, seremos confrontados com um sistema de pactos e alianças de guerra, com tudo o que isso envolve.

E é aqui que a maioria dos jogadores se começam a aperceber da existência de uma espécie de jogabilidade bi-partida em Total War: Rome II, que na minha opinião é responsável por grande parte do charme que toda a série apresenta. De um lado, terão de gerir todos os elementos de uma perspetiva quase puramente política, dando uso às diversas ferramentas de gestão disponibilizadas pelo jogo. Mas por outro, terão a oportunidade de abordar as batalhas a um nível terreno, controlando o decorrer dos acontecimentos numa perspetiva próxima, ao nível de um dos muitos RTS disponíveis no mercado.

Esta componente oferece uma visão muito mais humana das batalhas, oferecendo uma experiência pouco vista em jogos de batalhas estratégicas. Cada umas das unidades funciona, efetivamente, como um ser humano e se aproximarmos a câmara suficientemente bem, poderemos ver todos os seus movimentos. Como se não bastasse, as unidades são ainda afetadas por medidores de moral e a situação em que se encontram influencia diretamente a sua forma de combater. Tudo com o intuito de criar uma experiência ainda mais envolvente, num tipo de jogo que por norma despreza a importância individual de cada elemento do confronto.

Se ainda agora referi que uma parte do charme deste jogo se devia às mecânicas de jogo bem conseguidas, aproveito agora para referir que outra fatia se deve à componente histórica explorada pelos elementos do estúdio durante a produção. As diferenças entre culturas bárbaras e civilizadas estão bem salientadas no mapa de jogo, bem como toda a jogabilidade de cada uma, que se reflete principalmente na forma como as tarefas são realizadas e do proveito que cada uma das tribos retira disso mesmo.

Apesar dos benefícios culturais e históricos, a existência de tamanha quantidade de fações poderá revelar-se um inimigo de peso caso não disponham de um PC com uma boa capacidade de processamento. Isto porque o tempo que a vossa máquina demora a processar os movimentos de cada uma das fações inimigas depois de terem passado o vosso turno poderá ser suficiente para se entreterem a finalizar as palavras cruzadas do jornal do dia.

É claro que não terão de sujar as vossas mãos em todos os confrontos, uma vez que cada um deles ainda é responsável pelo consumo de largos minutos de jogo. Assim, poderão vocês mesmos decidir em que batalhas pretendem interferir diretamente, deixando as restantes serem automaticamente recriadas (ou simuladas, se preferirem) pelos mecanismos da obra. Esta ferramenta poderá revelar-se particularmente importante para os jogadores que dispensam toda a ação imediata, ficando-se pela experiência da batalha por turnos, gestão das tropas e estabelecimento de estratégias políticas.

O estúdio responsável pela produção do jogo volta a não desiludir ao nível gráfico. A escala do jogo é verdadeiramente alucinante e essa acaba por ser uma das razões pelas quais se torna muito mais recompensador focarmo-nos numa zona específica da batalha e apreciar a forma com as animações de cada personagem estão bem conseguidas. Os pormenores foram tidos em consideração e a componente gráfica consegue estar à altura da situação. Da mesma forma, também em larga escala as texturas conseguem cumprir os requisitos ainda que devam necessitar de uma máquina potente para conseguir correr o jogo em todo o seu esplendor. Em adição, este pacote poderá trazer como brinde não desejado uma boa dose de problemas de compatibilidade com alguns sistemas, ainda que a SEGA se tenha encarregado prontamente de os tentar resolver.

As exigências feitas à The Creative Assembly durante a produção deste jogo eram bastante simples: criar uma obra que conseguisse honrar a reputação criada por Total War: Rome, expandindo a sua escala de modo a que fosse criado um jogo verdadeiramente memorável. Para isto, não bastava modificar uma ou duas que tenham sido feitas de forma menos positiva, ou adicionar pequenos novos elementos que conseguissem transmitir uma falsa ideia de novidade. Era necessário criar um jogo que respirasse um novo ar, com novidades importantes, mas que ao mesmo tempo não fugisse demasiado daquilo que os fãs já conheciam, mantendo-se fiel a todo o conceito apresentado até então.

Felizmente, a produtora conseguiu manejar de forma ágil esta espada de dois gumes, dando à luz uma obra que ainda que mereça ser jogada por todos os amantes de estratégia, acaba por se ressentir na ausência do brio ou da sensação de novidade necessária para voltar a elevar a fasquia e marcar o estilo de estratégia nos computadores, como o seu antecessor tinha feito durante o ano de 2004. Em adição, a complexidade da experiência apresentada acaba por ser a "morte do artista" em algumas ocasiões, com a experiência a ser dificultada pela interface apresentada e por erros ocasionais ao nível da Inteligência Artificial.

No fundo, são pequenos pormenores que não deterioram a experiência como um todo, mas se a ambição era criar um videojogo capaz de marcar os anais da história dos jogos de estratégia, então talvez tenha faltado um maior esforço neste parâmetro. Porém, não é por isso que deixa de ser um título de estratégia de grande nível, que com certeza vai brindar os fãs com muitas horas de diversão.