Apesar de ter sido uma das histórias de maior sucesso no Kickstarter, tendo inspirado centenas de produtores a procurarem a ajuda dos fãs nesta plataforma de angariação de fundos, a Ouya nunca conseguiu captar verdadeiramente a atenção das massas que asseguram a prosperidade da indústria dos videojogos. No entanto, um dos seus exclusivos de lançamento, TowerFall, conseguiu atrair os olhos de muitos jogadores para a pequena consola e afirmar-se como uma obra que por si só justificaria a sua compra. Com o intuito de levar o seu título a um público mais extenso, Matt Thorson decidiu lançá-lo agora para a PlayStation 4, sob o nome TowerFall Ascension, e o resultado final apresenta-se como um dos melhores títulos do catálogo da nova consola da Sony.

Essencialmente, TowerFall Ascension é um título de combate em arena no qual os jogadores assumem o controlo de uma personagem munida com apenas um arco e flecha. Nos diversos cenários que estão localizados no interior rochoso de torres e masmorras, o objetivo principal passa pela aniquilação de todos os inimigos que estejam a popular o ecrã. Embora o conceito base seja bastante simples, a implementação e execução de pequenas mecânicas alternativas conferem à obra uma diversidade e inovação que a destacam de outros títulos do género.

Começando com um número limitado de flechas, somos desde logo confrontados com a necessidade óbvia de fazer a sua gestão da melhor maneira, uma vez que estas são o vosso meio principal para derrotarem os inimigos. Ainda assim, todas as flechas que dispararem ficarão sempre presentes na arena de combate à espera de serem recuperadas novamente, seja das paredes ou do corpo dos inimigos já derrotados. Esta reciclagem das flechas faz com que nunca fique no ar uma sensação de que os recursos à vossa disposição são escassos, mas ao mesmo tempo obriga-nos a ponderar os momentos e situações mais adequados para fazer uso delas, sabendo de antemão que vão depois ter de as tentar recuperar. Se não quiserem gastar as preciosas flechas, podem sempre optar pela técnica mais rudimentar de pisar inimigos na cabeça, embora este segundo métodos seja consideravelmente mais arriscado, pois um mero erro de cálculo significa morte certa.

A melhor forma de iniciarem a vossa experiência com TowerFall é ultrapassando o Quest Mode, uma vez que este serve essencialmente para introduzir os jogadores às mecânicas do título, podendo ser experimentado a solo ou cooperativamente com amigos. Apesar de não ser o modo de jogo mais interessante, esta campanha conta com dezenas de níveis que oferecerão horas de conteúdo aos jogadores que não tiverem oportunidade de partilhar a obra com amigos. Para além disso, a enorme variedade de inimigos e a diferente disposição dos cenários assegura que cada um dos níveis nunca possa ser jogado da mesma maneira que o anterior, forçando o jogador a adaptar constantemente a sua estratégia de jogo.

Cada um dos vários níveis disponíveis neste modo está dividido em várias fases de crescente dificuldade e alguns destes apresentam momentos em que o jogo faz questão de nos retirar da zona de conforto através de diversas alterações significativas ao que acontece no ecrã, seja pela remoção da iluminação do cenário ou colocando tudo o que está no ecrã a mover-se em câmara lenta. Estes momentos são absolutamente brilhantes pois nunca sabemos quando e se a nossa perceção do cenário será completamente modificada sempre que iniciamos um novo nível, mantendo o jogador completamente concentrado para evitar ser apanhado de surpresa.

Claro que estas pequenas variações à jogabilidade não seriam divertidas se a construção dos níveis e a deslocação não fossem igualmente eficientes. Todos os níveis possuem uma verticalidade inerente, uma vez que existem espaços abertos que permitem transacionar rapidamente entre a zona superior e inferior do ecrã, bem como entre o lado direito e esquerdo do cenário, permitindo percorrer os pequenos níveis de forma rápida. Adicionalmente, podem também optar por trepar pelo cenário como fariam num clássico jogo de plataformas, embora a precisão deste método deixe por vezes algo a desejar. No entanto, a qualidade da construção dos níveis assenta no facto de assim como o jogador pode movimentar-se rapidamente entre as zonas do cenário, também os inimigos o podem fazer. Isto significa que o jogador se verá forçado a observar todos os pontos do ecrã se não quiser ser surpreendido por inimigo. Talvez por isso, o modo a solo representa, mesmo na dificuldade normal, um desafio bastante considerável para o comum dos jogadores, apesar de nunca transmitir uma sensação de injustiça.

Apesar de Quest Mode ser um modo extremamente interessante, a verdadeira estrela da companhia é o modo Versus que permite jogar competitivamente contra até quatro amigos. Este modo está dividido em três tipos de partidas: Headhunters, Last Man Standing e Deathmatch por equipas. O primeiro premeia o jogador mais rápido a conseguir determinado número de mortes, enquanto o segundo dá como vencedor o último jogador a manter-se vivo, mesmo que não tenha sido aquele com maior número de mortes. As partidas podem não apresentar nada de verdadeiramente inovador, mas a enorme quantidade de opções de personalização faz com que as possibilidades sejam infinitas. Desde alterar o tipo de tesouros, pequenas caixas que conferem uma habilidade especial ou item especial ao jogador, que podem encontrar durante o combate: o tipo de flechas disponíveis, flechas capazes de perfurar as rochas ou até mesmo flechas que transportam bombas; as habilidades especiais, como um escudo de proteção ou asas para planar, e também as caraterísticas da arena, sendo possível fazer um combate todo em completa escuridão ou rodeado por lava.

TowerFall Ascension é, sem qualquer tipo de dúvida, um jogo muito mais divertido quando partilhado com amigos, afirmando-se como um dos melhores títulos multijogador atualmente disponíveis no catálogo da PlayStation 4. No entanto, é incompreensível a ausência de um modo multijogador online que permita a qualquer jogador, mesmo que se encontre sozinho, desfrutar daquela que é a melhor componente de toda a experiência oferecida pela obra de Matt Thorson.

Graficamente, o título faz um excelente uso do tão popular e intemporal estilo visual pixelizado, apresentando cenários incrivelmente detalhados e com uma variedade de cores e tonalidades que o permitem tornar-se bastante apelativo visualmente. A considerável diversidade de cenários é também de salientar. Cada um possui a sua própria identidade, levando-nos desde torres gélidas a cenários verdejantes ou até locais dominados pelas cores alaranjadas e avermelhadas do magma. Para ajudar a diferenciar os níveis, a banda sonora parece também ter sido criada especificamente para se adaptar na perfeição aos cenários pelos quais o jogo nos levará.

TowerFall, agora no PC e na PlayStation 4, tem a oportunidade de comprovar a qualidade que a versão original lançada na Ouya a um público mais extenso de jogadores. Apesar de ser mecanicamente competente quando jogado a solo, é no momento em que se parte para a componente competitiva que este se fixa como um dos melhores títulos deste ano e uma compra mais que obrigatória para todos os que tiverem a oportunidade de o partilharem localmente com amigos, uma vez que TowerFall Ascension não possui multijogador online. Esta ausência é apenas uma pequena nódoa na obra-prima que o título revela ser e não mancha em nada tudo o que de muito bom este oferece.