Filipe Urriça por - Jan 29, 2019

Travis Strikes Again: No More Heroes – Análise

Suda51 é um produtor muito peculiar. Ou se adoram as obras que produz, ou se detestam. Não há meio-termo para o criador de clássicos de culto como The Silver Case, Flower, Sun and Rain ou Killer7. Contudo, quem joga em consolas Nintendo reconhecerá o seu trabalho na série No More Heroes, lançada originalmente para a Wii. Por isso, não é de todo surpreendente que o regresso de Travis Touchdown seja feito na Nintendo Switch. 

Goichi Suda é um apaixonado por videojogos e de toda a cultura que os rodeia. Esta é uma afirmação muito fácil de fazer sobre Travis Strikes Again: No More Heroes, a nova obra da Grasshopper Manufacture, produtora presidida pelo próprio Suda51. Travis Strikes Again marca o regresso de No More Heroes – apesar de não ser uma verdadeira sequela – e de Goichi Suda como responsável máximo na direção de um videojogo. E se tinham dúvidas de ser um jogo deste conhecido autor, o que não faltam são sinais que este jogo saiu mesmo da mente irreverente de Suda51. 

Para ser franco, gostaria de poder afirmar que este é um dos melhores jogos independentes a chegar à Nintendo Switch, infelizmente não o posso fazer. A visão de Suda51 está lá, intacta e imaculada. Mas a indústria de videojogos não avança só de conceitos, seria necessário algo mais concreto do que um jogo com pouco mais do que uma narrativa. Travis Strikes Again apresenta-se como um jogo de ação, contudo este jogo não vive só dos combates com o seu sabre de luz. Este jogo existe para continuar a dar vida a uma personagem satírica. 

Acredito, sinceramente, que Travis Touchdown é uma caricatura de Suda51 – pois ele próprio é um apreciador de videojogos, um verdadeiro otaku. Com uma língua sempre afiada para falar com quem o confronta, Travis é o protagonista com mais personalidade deste meio em que se insere. Esta nova aventura coloca-o, literalmente, em confronto com o seu passado, pois o jogo abre com Badman a tentar vingar-se de Travis pelo assassínio da sua filha, Bad Girl. Porém, não é o pretérito de Travis que acaba por estar em causa mas o conceito do jogo em si.

Badman invade a autocaravana de Travis para matá-lo, só que não corre como esperado e tanto Travis como Badman acabam por serem aspirados para o interior de uma consola, a Death Drive Mk II – uma óbvia homenagem à SEGA Mega Drive. Esta consola é um autêntico mito urbano tal como foi a Polybius, mas esta acaba por ficar nas mãos de Travis Touchdown. Assim, o par de personagens vê-se a jogar os poucos títulos disponíveis para a mítica Death Drive. 

Quando entra num determinado jogo, tal e qual como o Exterminador Implacável, Travis tem de derrotar o boss de cada um deles para seguir para a próxima Death Ball, o cartucho esférico da Death Drive. A jogabilidade é, assumidamente, arcade. Estão num típico jogo hack'n'slash onde usam o vosso sabre de luz para derrotar os vossos inimigos. Estes nossos oponentes assumem a forma de criaturas poligonais, pois representam os bugs dos videojogos, os erros gráficos na linguagem de programação que dá vida ao jogo. Temos um leque limitado de ataques, mas uma boa variedade de habilidades para utilizar. É pena que estejamos impedidos de aceder a todas quando queremos, pois somos obrigados a mudar o nosso loadout de quatro habilidades. 

A curto-prazo é uma jogabilidade bastante satisfatória, mas em sessões de jogo mais alongadas acaba por se tornar demasiado repetitiva. Ter que colocar o jogo sempre em pausa para a variar a jogabilidade, ao alterar o conjunto de quatro habilidades, não é a prática mais eficaz. Passei a ignorar este ponto a uma certa altura e ia alterando pontualmente este conjunto, para depois poder ver como é que o meu tempo perdido ia ser recompensado. Cada Death Ball, cada novo jogo para a Death Drive, não altera profundamente o jogo, todavia funcionam como pausas ao ritmo cansativo que a jogabilidade principal entrega. Infelizmente, são maus minijogos que são entregues. Porém, há realmente um ponto alto neste campo: os bosses

Confrontar um boss é o auge da jogabilidade. Aqui já faz mais sentido vestir a bata de cientista e ver que habilidades combinam entre si. Podem optar por atordoar inimigos, bloquear o seu padrão de ataques, ou desferir golpes poderosos se tiverem uma boa técnica para que o inimigo não anule a vossa tentativa de o atingir. São batalhas onde também ocorrem uma troca de insultos, onde as personagens reforçam o seu caráter e o estilo cómico do jogo para satirizar e criticar a própria realidade dos videojogos. 

Embora a jogabilidade esteja mais fragilizada do que fortalecida pelas decisões de design de Suda51, é a escrita que revela o verdadeiro brilhantismo que Travis Strikes Again pode atingir. Após concluírem uma Death Ball, têm de procurar a seguinte numa viagem de moto. Aqui entramos na parte visual novel do jogo, que o produtor japonês acredita ser a parte mais aborrecida do jogo – e até brinca com a possibilidade de poder ser a causa das baixas notas que o jogo irá, eventualmente, receber. Esta é, sem sombra de dúvidas, a melhor fatia do jogo. Além de ser aqui que a maior parte dos comentários cómicos tem lugar, as extensas linhas de texto colocam uma pausa na monotonia do jogo. 

Há aqui uma escrita juvenil e pouco madura, mas há um frisar da bizarra narrativa pela qual No More Heroes é conhecido. Existem personagens bastante interessantes, mas é sempre Travis Touchdown a grande estrela. O argumento e os diálogos pecam pelo excesso de referências à cultura popular que o produtor japonês tanto adora. Não era necessário trilhar este caminho, explorar o mito urbano da consola seria muito mais interessante.

Tecnicamente, Travis Strikes Again é decepcionante. Não estava à espera que Goichi Suda estabelecesse um novo marco no capítulo do grafismo – não é, nem nunca foi a intenção dele. Mas como designer de videojogos devia ter-se preocupado realmente com este ponto: o desenhar do jogo propriamente dito, sobretudo, dos níveis do jogo. Até chegarem ao boss de cada Death Ball, vão ter de passar por corredores e áreas extensas que sublinham o aborrecimento sentido na jogabilidade. Pelo menos, mantém a coerência neste ponto. Contrariamente ao design e aos visuais do jogo, a banda sonora é uma das melhores características do jogo, principalmente, quando chegamos à parte de enfrentar um boss

Recomendar a obra da Grasshopper Manufacture não é tão fácil quanto o pode parecer para alguns jogadores. A obra continua a ter uma escrita muito bizarra, mas com um protagonista tão irreverente e cheio de personalidade, com outras personagens que frisam o aspeto menos convencional desta aventura. Infelizmente, apesar do argumento ser o ponto forte, jogar Travis Strikes Again é muito monótono. Pedia-se que o jogo estivesse ao mesmo nível das batalhas com os bosses, até nessa parte a música ganha uma outra relevância.

Quem é fã dos jogos de Suda51 tem aqui uma boa oferta e uma ótima surpresa num dos últimos níveis (Death Ball) em relação a um dos trabalhos pretéritos da Grasshopper Manufacture. Quem for com uma mente aberta, poderá ficar completamente desiludido ou fascinado com o que foi feito pelo produtor japonês de tantos clássicos de culto. É certo que ninguém ficará indiferente a Travis Strikes Again, agora falta saber se isso se irá traduzir em vendas que levarão à produção de No More Heroes 3 que os fãs tanto pedem.

veredito

Suda51 entrega mais um jogo para dividir opiniões. Apesar de ser cómico e irreverente, não consegue escapar à sua aborrecida e monótona jogabilidade.
6 Escrita irreverente. Personagens com forte caráter. Jogabilidade repetitiva. Excesso de referências à cultura pop.

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Travis Strikes Again: No More Heroes

para Nintendo Switch, PC, PlayStation 4

Lançado originalmente:

01 January 2018