Em tempos idos, fui fã acérrimo do que Dougie Lampkin conseguia fazer. Não é à toa que se conquista doze títulos mundiais de Trial. Houve um momento em que a modalidade era completamente dominada pelo inglês, fazendo lembrar o que Valentino Rossi fazia no MotoGP ou o que Vettel mais tarde fez na Formula 1. Ainda assim, a técnica e o equilíbrio deixava-me mesmerizado em frente ao televisor, questionando-me sobre o domínio e o treino que era necessário para alguém ser tão bom em algo. Anos mais tarde, chegou Trials Evolution, um jogo da RedLynx que me consumiu mais horas que as que estou disposto a admitir na Xbox 360.

O encanto primário de Evolution estava na sua jogabilidade e na rivalidade desenvolvida com os meus amigos digitais. Temporizado às décimas de segundo, tornou-se quase irracional a vontade que cada um tinha em querer ser o melhor daquele círculo de pessoas, ignorando completamente que existiam jogadores muito melhores que nós espalhados pelo mundo. Agora, praticamente dois anos depois, a RedLynx está de volta com Trials Fusion, lançado hoje para duas gerações de consolas. Depois de várias horas no palco da PlayStation 4, é claro que a produtora finlandesa expandiu a série com este capítulo, contudo, as novidades acabam por ser supérfluas e o que salva Fusion é o seu núcleo e o que catapultou a série para o estrelato: a jogabilidade.

Mal chegam ao ecrã principal de Fusion percebem logo onde vão passar o grosso do vosso tempo. Será, indubitavelmente, a jogar ou a libertar a vossa veia criativa criando pistas. Comecemos pela primeira opção. Como sempre, temos à nossa disposição uma carreira onde provaremos as nossas habilidades. Dividida em várias categorias e dificuldades, o fenómeno é conhecido: as primeiras tranches passam num ápice e quando olharmos para o canto inferior esquerdo, ficamos alarmados em constatar que já completámos 50% do modo principal. Cada categoria tem um pequeno treino inicial, que se prova bastante útil, explicando o básico, o intermédio e os movimentos avançados, servindo também como uma pequena antevisão do que vamos encontrar nas próximas provas.

Na segunda metade da carreira estão as provas de dificuldade mais interessante e é aqui que se dá o fenómeno que falava no parágrafo anterior: a longevidade que parecia ter a duração de uma ligeira brisa numa tarde primaveril dá origem a uma densidade e intensidade de uma estação completa. Como sempre, podem recomeçar a pista se cometeram demasiados erros ou recuar até ao ponto de controlo anterior se uma secção estiver a ser parcialmente complicada. E vão recuar. As rampas dão lugar a muros quase verticais, os saltos são trocados por fossos e a fluidez do traçado que o permitia terminar em segundos passa a ser algo do passado, ou seja, são todos bem-vindos a incontáveis momentos que envolvem quase partes iguais de destreza, estudo do próximo movimento e a capacidade de parar, perder um segundo a ajustar a posição na moto e no cenário, e atacar a próxima secção colocando toda a sapiência na ponta dos dedos que controlam a aceleração, travagem e a o balanço que colocam no analógico esquerdo do vosso DualShock 4.

Tudo isto é mutável e não existem guias que vos façam terminar o jogo. Claro que vão existir infindáveis guias no YouTube a revelar o que vão ter que fazer a seguir, todavia, não passam de teoria. Na prática serão sempre vocês e a vossa máquina numa união que só resultará quando carne e metal se fundirem e tiverem a mesma vontade em prol da destreza. O que era uma longevidade de uma hora é agora esticada e como precisam de um determinado número de medalhas para atingirem a próxima categoria, começarão a retroceder, tentando lascar segundos às participações nas categorias pretéritas, enfim, irão superar-se a vocês próprios, transformando prata em ouro ou platina até terem medalhas suficientes em inventário.

O que parecia impossível transforma-se em acessível e quando finalmente pararem para pensar, serão, certamente, jogadores muito mais qualificados do que quando iniciaram Fusion pela primeira vez. Pelo caminho, vão pensar que são os melhores jogadores do mundo. Minutos depois estarão a culpar o jogo, a sua física. Continuem e afirmarão a pés juntos que foram distraídos por um pássaro que passou no cenário ou na janela da vossa casa. Questionarão se o comando está avariado, fecharão as portas e ficarão irados se o telefone tocar, culpando-o por terem perdido a medalha de ouro por escassas décimas de segundo. O mundo estará contra vocês enquanto jogam Fusion e vocês estarão contra tudo e contra todos, mas não se preocupem, faz tudo parte da filosofia da série. Depois de tentarem cinco, dez, vinte, quarenta vezes: um momento de génio. Finalmente, domaram o jogo e os impulsos cerebrais conquistaram as dez falanges que seguram o comando. Tudo está perdoado, todos voltam a ser vossos amigos e, afinal, o jogo não tem uma conspiração pessoal contra vocês.

Trials é isto e Fusion é Trials. No fundo, a compreensão da física está intacta, as mesmas dificuldades e os mesmos momentos de conquista estão presentes, ou seja, a jogabilidade é o ponto mais forte do título. Contudo, fica-se com a sensação que a RedLynx teve a necessidade de fazer de Fusion uma obra mais robusta, adicionando novidades que, tal como já foi mencionado, são na sua maioria supérfluas e pouco fazem para o tornar mais recomendável. O primeiro caso é o catálogo de motos que têm à disposição. Obviamente, temos a mesma variedade de sempre, com a Baggie a servir para todo o tipo de utilização, a Roach a ser a mais robusta, a Pit Viper a requer mais técnica em troco de uma prestação que ajudará a superar as áreas mais complicadas, enfim, modelagens com um propósito e que têm uma utilidade justificada pelas agruras dos desafios. Contudo, agora temos também moto-quatro ao nosso serviço, como a TKO-Panda.

Ainda que varie a jogabilidade, relegando a finesse para segundo plano e apostando tudo numa condução mais sólida e menos desafiante, deixa de fazer sentido quando o jogador comum atingir o pico das suas capacidades. Imaginem que aprendem a andar de bicicleta à custa de quedas e joelhos esfolados durante dias e depois de terem feito uma corrida de vinte quilómetros os vossos pais vos oferecem uma bicicleta com rodinhas. Além disso, como podem ler nos parágrafos anteriores, o encanto de Trials está em desenvolvermos e exibirmos habilidades únicas, algo que nunca é enaltecido com quatro rodas no chão. Dito tudo isto, são de uso obrigatório, pois existem provas que não podem ser concluídas em duas rodas.

Ainda na senda das novidades, Fusion apresenta secções de FMX, ou seja, refresca a jogabilidade pedindo aos jogadores para esquecerem a perícia habitual e trocarem-na por manobras a fazer lembrar os X Games. O analógico esquerdo continua a estar ao serviço da inclinação na moto, contudo terão também que realizar manobras com o direito e, obviamente, aterrar com as duas rodas viradas para sul. Coffin, Black Flip, Ruler, Going to Heaven, enfim, a lista é extensa e chega para fazer lembrar os tempos áureos de Tony Hawk.

Apesar de quebrar completamente o cânone da série, compreendo que alguns jogadores encontrem aqui algo para se abstraírem da tensão habitual. Infelizmente, ainda que responsivos, os controlos deixam algo a desejar no campo da precisão. Não deixa de ser irónico que a construção de uma saga baseada na exigência aos jogadores para não falharem centímetros, tenha agora uma variante que falha ao metro. O problema não está em realizar as manobras enquanto estão no ar, pois com o tempo dedicado ao jogo acabam por decorar os movimentos a realizar e depois de algumas tentativas que resultam em erro, finalmente começarão a ter uma noção do que é necessário. O problema está quase sempre na hora de controlar e coordenar a aterragem: "Olhem para mim, sou o Homem-Pássaro que aterrou de costas e cumprimentou o terreno com a cervical".

Quando não estiverem entretidos a tentar completar o modo carreira, provavelmente estarão a medir forças no multijogador. Infelizmente, a competição online só deverá chegar daqui a algumas semanas, o que significa que estarão cingidos à competição local. Com suporte para até quatro jogadores em simultâneo e uma dezena de pistas, convém mencionar que poderão ser vocês a adicionar e remover os traçados que compõe o conjunto, algo que evita - ou provoca - certos comentários dos vossos adversários sobre favorecimento. Se estiverem numa maré vencedora, é natural que sejam acusados de escolherem apenas as pistas onde são melhores. Caso estejam na mó de baixo, podem sempre fazer o mesmo tipo de acusação, mesmo que no fundo saibam que o adversário é melhor. Mesmo privados da competição online, uma das funcionalidades que mais me fez regressar a Evolution, localmente existe sempre o encanto das picardias, dos amuos e da quasi-irracionalidade de humilhar ou sermos humilhados frente-a-frente.

Saberão tão bem como eu que a estadia de Trials na vossa mente e na vossa consola é extrapolada pelas criações dos outros jogadores. Fusion não foge a esta regra e, felizmente, o Track Central está presente e conta já com algumas criações interessantes, apesar de ainda estarmos no dia do seu lançamento. Durante os dias em que o testei pude descarregar e experimentar a criatividade dos meus pares e acredito que, pelo menos na PlayStation 4, o tempo entre a escolha da pista e o acelerar é inferior. Abrindo o Track Central podemos ver várias áreas: Escolhas da RedLynx, escolhas do uPlay, pistas mais recentes, pistas com melhor classificação e uma secção Featured que ainda não apresenta resultados. Os filtros são muitos e ajudam a encontrar a pista certa para o momento certo. Uma breve pesquisa nas pistas de dificuldade média recentemente adicionadas permite-me ver quem a criou, a percentagem de votos positivos e negativos que recebeu e a respetiva tabela de liderança. Ainda é cedo para avaliar o seu sucesso, mas se levarmos em conta o que foi criado e partilhado em Evolution, a RedLynx torna a oferecer à comunidade um Plateau para brilhar e manter o jogo vivo durante anos.

As luzes da ribalta também podem incidir sobre vocês. Acedendo ao editor de pistas, podem dedicar o vosso tempo livre a criar algo que vos encha as medidas. O básico não é difícil compreensão, contudo, se quiserem criar uma obra-prima, preparem-se para empreender longas sessões. À partida sabemos como colocar o ponto de partida e traçar a pista com a ajuda dos analógicos, assim como alterar a altura do dia e a meteorologia. Não é preciso muito para começarmos a colocar objetos que estão divididos em várias categorias, como comuns, gerais, rampas e, por exemplo, elementos citadinos. Pessoalmente, quanto mais tempo investi na criação de uma pista que não fosse ir do ponto A ao ponto B numa linha reta, mais menus descobri, o que comprovou que as ferramentas, ainda que complexas e até um pouco intuitivas, estão cá todas para quem quiser mergulhar de cabeça na criação. De salientar que à distância de um botão está uma roda com as opções mais escolhidas, como as definições do editor, as camadas que cada pista tem e a possibilidade de adição e remoção, enfim, algo que facilitará a vida aos mais devotos.

Com a chegada à nova geração de consolas, nota-se os benefícios da mesma no jogo. Com texturas mais definidas e variadas, ainda que a temática seja quase sempre futurista, é de salientar a variedade de cenários, com paisagens inspiradas em desertos, selvas, gelo e até na malha urbana, não é difícil a nossa visão ficar parada a contemplar as animações e pormenores que ajudam a dar vida a cada cenário, como as explosões, os drones que se vão cruzando com a nossa passagem ou até o que vai pautando uma distância que vai para além do trilho onde se desenrola cada prova.

Infelizmente, existe alguns pontos menos conseguidos. Algumas das texturas mencionadas demoram algum tempo a aparecerem e os tempos de carregamento deixam algo a desejar. Além disso, importa salientar que Fusion tem ao seu serviço dois narradores: um masculino e um feminino, sendo este último o principal. Os comentários de Cindy são interessantes ao início, elogiando a nossa prestação e aos poucos deixando-se impressionar com a nossa presença, chegando, por exemplo, a perguntar como é acordar na nossa pele. Porém, não têm capacidade de se manter interessantes e engraçados durante muito tempo, caindo num marasmo de tiradas cansativas que chegam a ser irritantes, especialmente se tivermos que reiniciar um trecho consecutivamente e a cada vez termos que ouvir os mesmos comentários. A banda sonora continua uma saga desenxabida e desinspirada, a começar com o tema principal que é simplesmente atroz.

A tudo isto juntam-se algumas funcionalidades secundárias, como três desafios adicionais por cada pista. Apesar de não serem obrigados a cumprirem, é algo que espevitará a vontade dos mais veteranos, levando-os mais além. Trials Fusion é uma obra sólida e mais abrangente. Faz-me lembrar alguém que conhecemos na adolescência e que agora reencontramos como jovens adultos. Como já tive oportunidade de explanar, apesar da maioridade, o maior encanto e aquilo que me fez regressar repetidamente é aquele primeiro encanto de meninice que, no caso de Fusion, são as mecânicas da sua jogabilidade. É verdade que tem momentos frustrantes, contudo, não é com menos veracidade que posso afirmar ser muito mais recompensador.