Criada como parte da saga Final Fantasy, a série Mana é encarada como um pedaço importante do legado da Squaresoft, entretanto transformada em Square Enix. Não é, por isso, surpreendente que muitos recordem com afeto as obras originais e que a editora nipónica tenha recentemente optado por dar um novo fôlego à série, publicando os títulos nas plataformas atuais e estreando Trials of Mana, a sua terceira entrada, no ocidente mais de 20 anos depois do lançamento no Japão.

Ao contrário do remake com elevados valores de produção que a casa japonesa colocou no mercado este ano com Final Fantasy VII Remake, este aprimorar técnico de Trials of Mana para as atuais plataformas é uma proposta menos extravagante e mais sóbrio do que poderia ser a obra original se lançado originalmente em 2020. Não significa isso, contudo, que tenha sido merecedora de menor atenção ou desleixo por parte da equipa responsável pela renovação, mas sim que estamos perante uma experiência mais presa às amarras do passado, algo que se nota ao longo da aventura.

Com recurso ao Unreal Engine, a principal alteração face ao original é mesmo a opção por um grafismo 3D e o abandono da perspetiva aérea característica da era em que Trials of Mana foi produzido. Não é, de todo, um estilo visual que vá deixar os jogadores de queixo caído ou que seja capaz sequer de proporcionar vistas que captem a sua atenção, mas dá à experiência um colorido interessante e um aspeto que combina com o tom geral da campanha.

Um pouco como o título no seu cômputo geral, estamos perante um departamento técnico que é acima de tudo competente. Não deslumbra, mas também não se esforça muito para se diferenciar. A banda sonora, bem ao estilo de um clássico Role Playing Game nipónico, utiliza o som de orquestra para elevar a ação e os momentos mais importantes da sua narrativa, com o jogo a oferecer a possibilidade de jogar com os temas retrabalhados ou com os temas na sua versão original. 

O que não está claramente à altura do acontecimento é a vocalização em inglês da obra. Independentemente da capacidade - ou falta dela - da história e da escrita para criar um arco narrativo capaz de reter o nosso interesse ou personagens pelas quais nos consigamos investir na aventura, o trabalho de voz é absolutamente atroz. Não só a entrega das linhas de diálogo é má, como o próprio tom com que são entregues parece indicar uma total desfasamento face ao peso emocional de cada cena.

Dito isto, não há como disfarçar que não, a história e as personagens de Trials of Mana não são brilhantes. Trata-se de uma história bastante básica, com poucas reviravoltas - ou reviravoltas sem qualquer impacto - e personagens vazias de conteúdo. É certo que há seis protagonistas para escolher, com dois deles a acompanharem a nossa escolha inicial, mas a história é tão desenxabida que qualquer motivação que pudesse haver para experienciar os capítulos em que a história se altera com base na vossa escolha de personagens acaba por desaparecer antes de lá chegarem.

Relativamente ao sistema de combate, a ação na terceira pessoa aqui em oferta é sólida, mesmo que o desafio apenas esteja presente em alguns momentos. Com um botão para ataques normais, outro para ataques fortes e outro para esquivar, a diferença surge sobretudo através das diferentes características de cada personagem. Há personagens mais fortes no combate corpo-a-corpo, enquanto outros são mais úteis à distância com recurso a magia.

A progressão pela história e a subida gradual de nível traz consigo novas habilidades, ataques especiais, classes e pontos de experiência para gastar em diferentes atributos das personagens - Força, Espírito, Sorte, Intelecto e Resistência -, o que permite adaptar melhor as personagens ao nosso estilo de combate. A qualquer momento podemos trocar a personagem que estamos a controlar com o premir de um único botão, com as outra duas a ficarem entregues a um competente Inteligência Artificial.

Infelizmente, apesar de todos estes elementos, a obra não consegue evitar que os confrontos caiam rapidamente na monotonia, com o jogador a pressionar desenfreadamente o botão de ataque durante 90% do tempo. É por isso que as batalhas com os Bosses são o ponto alto da experiência. Não só porque a exigência é maior, mas sobretudo porque requerem ações mais estratégicas e deliberadas, tal é a diversidade do arsenal destes inimigos. A reutilização de alguns deles nos momentos finais da campanha era desnecessária, contudo.

Trials of Mana é assim um remake fiel ao original, mas pouco mais que isso. Incapaz de se transcender, a obra nunca eleva a fasquia para chegar ao memorável, deixando-se ficar como um experiência agradável para se ir colocando algumas horas em curtas sessões de jogo, mas que se torna monótona e cansativa quando experienciado durante períodos mais alongados. A história e personagens desinteressantes e a vocalização atroz também não lhe fazem grandes favores.