Filipe Urriça por - Mar 22, 2022

Triangle Strategy – Análise

Por muito que seja natural um Role Playing Game demorar a mostrar o seu grande valor mecânico, para nos agarrar com as suas peculiaridades dos seus combates por turnos, não há necessidade de se arrastar por tanto tempo como em Triangle Strategy. Por isso, várias horas depois de ter iniciado o novo jogo da Square Enix, tive de ser resiliente para não cair no aborrecimento. Triangle Strategy, lançado na Nintendo Switch, infelizmente, exige paciência aos jogadores durante as primeiras horas do jogo. Apesar de termos de fazer este esforço, é bom que se possa afirmar que vale a pena ver tanta exposição narrativa para chegar à parte boa do jogo: tomar as decisões que têm influência na narrativa e as batalhas por turnos com as clássicas nuances de outros jogos do género.

A aventura propõe-se a apresentar, calmamente, a sua narrativa, com um generoso elenco com personagens numa fantasia medieval (claramente inspirada nas obras literárias de George R. R. Martin), políticas que envolvem o comércio de sal e ferro, assim como traições inesperadas e revelações surpreendentes. Obviamente, um dos motivos pelo qual se falou muito deste jogo da Square Enix nas redes sociais foi pelo seu fantástico aspeto gráfico, um estilo que a produtora japonesa já cunhou de HD-2D, que tem Octopath Traveler como a primeira obra a utilizar esta nova técnica. Narrativa e grafismo não são os elementos mais importantes de um videojogo (embora se possa debater muito este tema com bons argumentos a afirmar o contrário), mas visto que estamos a falar de um Role Playing Game com combates por turnos, a produtora fez muito bem em não menosprezar estes elementos em Triangle Strategy.

Este novo videojogo, da casa liderada por Yosuke Matsuda, leva o seu tempo a apresentar-se a quem joga, para que se possa ganhar uma certa intimidade com as suas personagens e conhecer as suas motivações e personalidades. Imaginem que descobriram As Crónicas de Gelo e Fogo depois de vos contarem que acontecem eventos fenomenais como as desgraças sofridas pela família Stark, mas só ocorrem a partir do terceiro livro, A Tormenta de Espadas. Como é óbvio, antes de chegar a estas boas partes, convém saber o que se passou previamente. Ou seja, é a mesma lógica em Triangle Strategy, que começa muito lentamente porque há uma necessidade de conhecer as personagens (ainda são muitas), assim como o mundo onde estão. E quando há uma traição também temos de perceber os dois lados da questão: o traidor (para saber a sua motivação para trair) e o traído (para conhecermos as razões que alguém possa encontrar para traí-lo).

Serenoa Wollfort é a personagem principal, herdeiro da casa Wollfort que se tornou, recentemente, líder do seu clã. Como o jogador controla esta personagem, é nele que vão caber as decisões políticas importantes que vão ter de ser tomadas por via democrática. As sete pessoas mais próximas de Serenoa vão votar em decisões que vão afetar o rumo da narrativa, colocando moedas numa balança que, no fim, revelará qual o prato que tem mais peso, logo qual é a decisão a seguir pelo prato mais pesado. Como há uma grande ênfase na narrativa, podem sempre influenciar as pessoas para tomarem a decisão que vocês querem. Assim, antes das moedas serem colocadas num dos pratos da balança podem e devem falar com as personagens que vão optar por uma decisão diferente da vossa. Contudo, isto não quer dizer que uma conversa garanta uma mudança de opinião, nem que Serenoa seja suficientemente persuasivo. Quanto mais convicções fortes tiverem, mais há a probabilidade de conseguirem fazer a mudança que querem que aconteça. Para fortalecer essas mesmas convicções terão de falar e muito.

Para alguém ter vantagem política tem de ter o máximo de informação possível do seu lado e esse é, precisamente, o papel de Serenoa como senhor da casa Wollfort (e como personagem principal do jogo), que serve o rei de Glenbrook, uma parte da grande região de Norzelia. Assim, para reunir todo o conhecimento de causa, informações vitais e segredos bem escondidos será necessário falar com todas as personagens existentes do jogo, em momentos que o jogo apelida de Exploration. O conhecimento adquirido nestas fases deste jogo RPG servem, sobretudo, para solidificar as vossas convicções políticas, tanto a nível social como económico. Enquanto mecânica de jogo, vocês vão poder dar respostas de acordo com as informações recolhidas. Percebe-se como é que o jogo reage com as respostas que podemos dar, se formos jogadores atentos a querer saber a história que nos está a ser contada, então vamos conseguindo moldar a narrativa como queremos, caso contrário, é deixarmo-nos levar pelas decisões do jogo e saltar estas partes até às batalhas.

Incrivelmente, a narrativa e todas as dinâmicas que a sustentam são o conteúdo nuclear deste RPG com combates por turnos. É incrível pelo facto de ser um jogo japonês que não se rege pelos tradicionalismos deste género, dado que o normal é darem mais importância ao jogo em si, ou seja, aos combates, onde há uma interação mais ativa por parte do jogador. Em meia dúzia de horas não fiz mais do que três combates, para um jogo nipónico é muito pouco para o habitual. Em Final Fantasy Tactics, um clássico deste género publicado na PlayStation Portable, deixar a narrativa brilhar em detrimento da jogabilidade seria impensável. Este ano, a mesma produtora entrega-nos um jogo com uma visão substancialmente diferente, onde é a dramatização que ocupa o maior espaço do palco do jogo.

Quando há combates a acontecer, estes são magníficos, cheios de nuances que temos de ter em conta para sairmos destas batalhas estratégicas. O terreno onde se desenrola o combate transforma-se numa grelha que temos de usar a nosso favor, até porque o posicionamento dos nossos soldados, por exemplo, é extremamente importante. Se conseguirem encurralar um inimigo pela esquerda e direita, ou pela frente e por trás, ao atacarmos um adversário uma vez este recebe mais um ataque de um companheiro nosso que está do lado oposto. Se for possível, quando movimentarem uma personagem que ataca corpo-a-corpo, coloquem-se sempre atrás de quem querem atacar, porque um golpe pelas costas dá sempre dano adicional. Ou seja, quanto menos tempo estiver um inimigo na grelha, menos hipóteses terá para vos azucrinar ou, por algum infortúnio, de aniquilar um membro da vossa equipa.

Em níveis mais elevados, será necessário ter em conta os efeitos que os elementos mágicos causam no terreno. A título de exemplo, se começarem a atacar com uma magia de gelo, além de provocar dano ao inimigo visado, congelam também o terreno no raio de ação da magia lançada. Continuando, quem passar pelas quadrículas congeladas ficará com a sua vez de atuar adiada para mais tarde, mas se usarem uma magia de fogo nos espaços com gelo, este derrete formando poças de água. Obviamente que a água que se concentrou em pequenas poças terá efeitos específicos em quem a pisar, mas o melhor é utilizar essas poças de água para lançarem um feitiço de origem elétrica e causarem dano consideravelmente maior. São todas estes pequenos mecanismos de jogabilidade que contribuem para transformar Triangle Strategy numa experiência fenomenal, embora longe de ser inovadora. Não basta atacar cegamente; é preciso ser-se inteligente e usar todas estas mecânicas a nosso favor.

Portanto, Triangle Strategy não é para o mero jogador casual. Caso não estejam habituados a jogos RPG estratégicos com tantos detalhes a nível da jogabilidade, o melhor é baixarem a dificuldade. Assim, um esquecimento ou uma falta de atenção esporádica para utilizar uma mecânica do combate a vosso favor não dita a vossa derrota. Quem não estiver familiarizado com jogos recheados de detalhes vai sofrer bastante até conseguir assimilar todas as regras do jogo. Desta forma, se baixarem a dificuldade, o jogo perdoa-vos um posicionamento errado das vossas unidades bélicas. O título também não vos pedirá sempre o mesmo objetivo, ocasionalmente, em vez de terem de aniquilar os inimigos todos do campo de batalha, só têm de levar um dos vossos guerreiros de uma ponta à outra do mapa. Nestas ocasiões, os inimigos vão aparecendo pontualmente, o que vos obriga a refletir numa outra estratégia para saírem bem sucedidos.

Esta obra da Square Enix é um autêntico deleite mecânico, com controlos igualmente bem adequados ao exercício cerebral que teremos de fazer – não há nada a falhar aqui, tudo funciona perfeitamente bem como uma máquina bem oleada a trabalhar para o nosso divertimento. Outro pormenor bem pensado, é o jogo estar estruturado por fases e capítulos, dado que a Nintendo Switch (uma consola que pode ser híbrida entre o doméstico e portátil), pode ser totalmente utilizada como uma consola portátil é bom podermos fazer pausas pontuais para gravarmos o nosso progresso e voltar mais tarde. Se são um tipo de jogador com tempo limitado, então este jogo é para vocês, porque tem nos seus menus resumos dos acontecimentos para que não percam nada do que aconteceu, caso tenham de fazer uma paragem mais prolongada entre sessões de jogo.

 

Octopath Traveler começou com um estilo artístico que a casa de Final Fantasy denominou de HD-2D e Triangle Strategy teve o mesmo tratamento. Embora o estilo seja muito similar, Triangle Strategy tem diferenças notáveis. Enquanto que em Octopath notamos claramente cada um dos pixeis dos sprites das personagens ou monstros que temos para atacar, no novo título da Square temos modelos mais nítidos e cenários modelados de uma forma mais detalhada. É quase como se Octopath Traveler fosse um jogo da NES e Triangle Strategy um título da SNES. São ambos bonitos à sua maneira, mas com diferenças bem vincadas. Sinceramente, depois da confirmação de Dragon Quest III para ter uma nova edição em HD-2D, só espero que continuem a usar esta técnica em novas obras ou para nos trazer clássicos de uma geração passada. Também seria interessante que a Square Enix licenciasse o conjunto de ferramentas necessárias para criar este estilo gráfico para ver o que pequenas produtoras independentes conseguiriam fazer, nem que fosse apenas para o programa Square Enix Collective.

Concluindo, Triangle Strategy é um jogo que deve ser jogado por quem gosta de boas batalhas táticas mas, sobretudo, por quem adora histórias de fantasia medieval europeia. No entanto, o jogo demora a arrancar, a prender-nos com as suas mecânicas de combates por turnos, além disso o jogo torna-nos mais passivos do que ativos o que pode facilmente aborrecer quem não estiver disposto a dar uma oportunidade à aventura. Quando ganhamos finalmente voz no jogo, estamos perante um muito bom RPG embora não tenha nada de realmente inovador ou algo que o faça ser único entre os seus pares.

veredito

Fantasia medieval com conspirações, traições e combates por turnos muito bem afinados. Esta obra só peca por não agarra de imediato o jogador.
7 Grafismo soberbo. Narrativa bem estruturada. Personagens secundárias bem escritas. Nada de inovador ou único.

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Triangle Strategy

para Nintendo Switch
Triangle Strategy

Comandem um grupo de guerreiros numa narrativa onde as vossas decisões fazem…

Lançado originalmente:

4 de março, 2022