Numa altura em que o mundo se encontra a encetar esforços no combate à pandemia causada pelo novo coronavírus, o COVID-19, os videojogos apresentam-se como uma forte ferramenta para combater o aborrecimento gerado pelo recomendado isolamento social e o cancelamento de praticamente todos os eventos culturais e desportivos previstos para as próximas semanas. Felizmente, não falta entretenimento jogável de qualidade para tornar a passagem do tempo mais agradável.

Two Point Hospital, obra da Two Point Studios e sucessor espiritual do aclamado Theme Hospital, pode não ser, tendo em conta o panorama atual, a experiência mais indicada para desviar as atenções das notícias que vão enchendo jornais e ocupando tempo de antena nas televisões, mas é, sem sombra de dúvidas, uma excelente opção para perder horas a fio durante este período. A sua qualidade já está há muito em evidência no PC e agora é a vez das consolas receberem a mesma receita.

Com o seu jogo simulação e gestão hospitalar, o estúdio britânico utiliza o humor como a principal arma, como o ingrediente necessário para transformar o que poderia facilmente ser uma experiência desinteressante e mundana, em algo capaz de entreter o jogador e de o desafiar a atingir a máxima eficiência num ambiente de trabalho pouco associado à diversão. Os hospitais não são locais em que qualquer um de nós pretenda estar mais do que o tempo estritamente preciso, pelo que ao abraçar por completo o ridículo e o insano, a produtora consegue desprover os seus postos de saúde de qualquer associação negativa aos espaços no mundo real.

Como é óbvio, não é só graças ao humor que este conceito resulta, contudo, é um elemento fundamental para nos manter ligados à experiência e, sobretudo, para se manter fresca através de novas surpresas à medida que as horas se vão acumulando. Pode não provocar gargalhadas, mas mantém o sorriso na cara do jogador sempre que peculiares novas doenças são descobertas, ou quando algo corre mal e o caos toma controlo das operações. Ao não se levar demasiado a sério, o título preserva uma sensação de leviandade que assegura que a frustração não chega a ser um fator a ter em conta.

Dito isto, mais do que ser uma obra bem disposta, Two Point Hospital precisava de ser um jogo de gestão e simulação competente para encontrar sucesso no mercado. Como já se percebeu entretanto, a construção do hospital, a gestão das finanças, a contratação de staff, a abertura de novas salas de tratamento, a aquisição de edifícios adicionais, a formação dos empregados e a própria decoração do espaço, todas estas componentes são conjugadas de forma ideal para que o título consiga premiar devidamente não só o nosso desempenho, como a nossa dedicação.

A produtora é também inteligente na forma como gere a introdução dos vários elementos de gestão ao jogador. Ao dividir o seu modo carreira em múltiplos hospitais, a obra utiliza cada um deles para apresentar novas mecânicas a ter em conta, seja a possibilidade de melhorar equipamento médico, novas alas médicas como psiquiatria ou uma clínica específica para palhaços - a profissão, não a característica humana -, a expansão para novos edifícios ou o treino do staff para a aquisição de novas habilidades. Desta maneira, garante-se que nunca nos sentimos bombardeados por nova informação e que a aprendizagem e a mestria seguem de mão dadas ao longo da carreira.

O processo de recomeçar a construção de um hospital, após serem concluídos todos os objetivos associados ao mesmo e atingido a classificação máxima de três estrelas, pode em algumas circunstâncias ser algo desmotivador, sobretudo depois de terem várias horas colocadas na melhoria do centro hospitalar anterior, ainda assim, ultrapassado esse soluço inicial, a oferta de novos processos a ter em conta na gestão das operações ajuda a que não se caia numa rotina demasiado rápido. 

Com 18 hospitais em oferta, incluindo os que chegaram via DLC e que estão desde já disponíveis nas consolas, em regiões distintas e com diferentes desafios para testar a capacidade organizacional do jogador em busca da eficiência máxima e do menor caos possível, Two Point Hospital tem material para muitas dezenas de horas de entretenimento, uma vez que gastarão várias horas em cada um deles, dependendo de quanto quiserem aprimorar o seu funcionamento antes de passarem para o seguinte.

Graças a uma enorme variedade de mecânicas de gestão, o título da Two Point Studios obriga o jogador a considerar vários fatores antes da tomada decisão, seja o espaço no edifício que quer dedicar a determinada sala, o momento de contratar mais trabalhadores para fazer face ao aumento de pacientes, as características de cada um deles e a sua capacidade para executar determinadas funções. Enfim, há muito a ter em conta, mas nem por isso a obra pode ser descrita como exigente.

Através da possibilidade para parar o avanço do tempo no hospital, não existe grande pressão na tomada de decisões e mesmo a gestão financeira poucas vezes entra em ação. No fundo, Two Point Hospital oferece uma abordagem tranquila e mais casual a obras de gestão, o que poderá desiludir aqueles à procura de um maior desafio. Para além disso, há também alguns elementos cuja influência no desenrolar dos eventos é difícil de perceber. É complicado quantificar o efeito prático que ter um enfermeiro que não lava as mãos ou causa muito lixo tem no funcionamento normal do hospital. O mesmo se aplica a um médico aborrecido ou que deixe os pacientes apaixonados por si.

Como não poderia deixar de ser, um dos aspetos mais importantes na transição do jogo para as consolas seria a adaptação do esquema de controlos para o comando, ao invés da tradicional combinação de teclado e rato no PC. Ainda que seja necessário algum período de adaptação, a verdade é que a navegação pelos vários menus, sobretudo os que utilizarão com mais frequência, torna-se intuitiva. Todas as ações mais importantes são executadas com o premir de poucos botões e a já mencionada possibilidade de parar o avanço do tempo permite que tudo seja feito sem sobressaltos, ou seja, jogar a obra com comando não coloca entraves à jogabilidade.

Em termos técnicos, o estilo visual, que assemelha os hospitais, os pacientes e funcionários a conjuntos de brinquedos de plástico, adequa-se bastante bem ao tom humorístico da experiência e permite que a sua performance, quando jogado numa PlayStation 4 original, não acuse de sobremaneira o acumular de intervenientes à medida que os cenários se vão tornando mais caóticos. A banda sonora acompanha de forma agradável a ação, ainda que nunca se destaque verdadeiramente, o que se percebe tendo em conta a importância dos efeitos sonoros no momento de acompanhar o que se vai passando no hospital. 

Assim, Two Point Hospital nas consolas é uma boa adaptação de uma experiência que já tinha provado a sua valia noutras paragens. Com conteúdo para muitas horas de jogo e mecânicas profundas, esta obra de gestão hospitalar é uma excelente porta de entrada para o género, ao oferecer uma experiência acessível e que nunca complica em demasia. Controlar as operações com um comando funciona de forma adequada, pelo que esta é uma proposta a ter em conta num género com pouca representação nas consolas.