A série Uncharted é uma âncora no catálogo da PlayStation, portanto não é grande surpresa que as consolas da marca nipónica enalteçam a saga da Naughty Dog. Nathan Drake tem sido o aventureiro a quem os jogadores vestem a pele, contudo, tal não é o caso em Uncharted: O Legado Perdido, com as protagonistas a serem Chloe Frazer e Nadine Ross.

Sente-se logo uma declaração de intenções com esta escolha, com a dupla de protagonistas a fazerem mais do que serem meras cópias de Drake no feminino. Não é a primeira vez que jogamos com uma personagem feminina num título da Naughty Dog, mas substituir o protagonista é claramente um ponto fracturante na saga, uma forma de encerrar um capítulo e, possivelmente, abrir uma nova era.

E é simplesmente isso: jogar com uma personagem diferente. Mais concretamente, em O Legado Perdido jogamos com Chloe e vamos contracenando com Nadine. Sim, são personagens femininas, mas isso não deve resvalar para uma discussão sobre o seu sexo. Depois de terminado o jogo, nesta aventura as duas protagonistas arranjam problemas, tal como Nathan, e resolvem os seus problemas, tal como - adivinharam - Nathan.

Imagens Analise Uncharted Legado Perdido

Onde esta dupla resultaria ou falharia é na edificação das suas personalidades - de cada uma e na química entre as duas. E há o dinamismo que caracterizam as obras da produtora, ou seja, apesar de serem bastante diferentes, o arco narrativo resulta porque nos faz querer saber das personagens, dos seus motivos e, não menos importante, das suas ambições em conjunto.

Chloe chegou a Uncharted no segundo capítulo numerado e Nadine, se ainda se lembram, esteve em destaque em Uncharted 4, graças às suas ligações à Shoreline. Ainda que não estejam aqui pelo mesmo motivo pessoal, o objetivo final é o mesmo: recuperar a Presa de Ganesh, artefacto que está no centro das atenções e que, sem grande surpresa, é o combustível que nos faz passar de secção em secção.

E é até claramente o deixar de o ser, ou melhor, é um argumento escrito pela Naughty Dog, pelo que há a desconstrução da busca desta relíquia em patamares muito mais pessoais. São as relações pessoais, que vão desde o laço de amizade que vai sendo colocado à prova, ao edificar da confiança e da traição, passando pelos verdadeiros motivos que nos envolvem no videojogo e por questões familiares.

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Na prática, temos algo que, mesmo sem ter a elevação do que testemunhamos em The Last of Us, é suficientemente bom para nos prender ao ecrã, para despertar em nós a curiosidade que só será sanada depois da excelente secção final. A Presa de Ganesh traz consigo um antagonista, ainda que não me tenha consigo incomodar o suficiente ao ponto da sua derrota ser tão saborosa como outrora. Antes, contudo, são minutos de sangue a ferver e de tomarmos banho de adrenalina.

Portanto, se Nathan Drake tiver passado à reforma, Uncharted pode bem continuar sem ele - seja com Chloe ou com outra personagem, masculina ou feminina. A Naughty Dog está bem a esquivar-se a clichés sobre a eterna “donzela em apuros”, mas há um ponto que era escusado: sobretudo na segunda metade do jogo, é um trio de personagens e não uma dupla. A terceira personagem está ali para pouco mais do que enaltecer essa independência, acabando por transformar o que deveria subtil num ocasional grito - demasiado estridente, esfregando esta independência na nossa cara. 

Como é habitual, podemos apanhar tesouros e descobrir locais para tirar fotografias, colecionáveis pensados para nos fazer vasculhar o cenário. Num desses pontos, uma protagonista empurra a outra para a água. O que a Naughty Dog consegue com este momento que passará despercebido é precisamente isso: capturar as subtilezas e a naturalidade do comportamento humano. 

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Chloe e Nadine resultam pela soma destes pormenores. Momentos fugazes, expressões, detalhes que funcionam pela sua soma: personalidades naturais, que não se estão a armar em personagens de entretenimento, mas sim a espelhar o humano no meio da insanidade que é, em análise derradeira, esta aventura. Por um lado temos saltos impossíveis e incontáveis cenas de ação, mas por outro, somos brindados com um lado puro, com o qual, de uma forma ou de outra, todos acabamos por nos relacionar.

E por falar nesses saltos e nesses trechos de ação, a jogabilidade não apanhará ninguém desprevenido. Além da exploração, que nos leva a procurar saliências nos cenários e a usar cordas para realizar saltos que desafiam qualquer réstia de lógica, há as hordas de inimigos que podem enfrentar de frente ou procurar uma abordagem mais estratégica e furtiva. É um jogo de ação na terceira pessoa, tal como fomos habituados há muito.

Mas sobre a exploração, importa mencionar que sobretudo na primeira parte da obra somos contemplados com um ligeiro ajuste na modelagem dos cenários. Há uma abertura que nos permite um pouco mais de aventura-faça-você-mesmo. Não, não temos um mundo aberto, nem sequer há grandes possibilidades de se perderem - até porque têm um mapa sempre disponível - mas neste trecho os objetivos podem ser realizados segundo a ordem que quiserem, havendo também tarefas adicionais que ajustam a longevidade do jogo.

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Não é o suficiente para ser uma revolução do processo que conduz a exploração habitual dos jogos da série, mas é uma oportunidade prolongada para os jogadores que gostam de conhecer o cenário como a palma da sua mão para se demorarem um pouco mais. A segunda metade da obra acaba por assentar em moldes ainda mais tradicionais, fazendo-nos passar por alguns puzzles e pelas já mencionadas cenas de ação.

Ninguém ficará detido a olhar para um destes puzzles durante muito tempo. Servem, sobretudo, para ajudar a diversificar a jogabilidade da obra. Uncharted vive mais da exploração, da sensação de estarmos a participar em algo muito maior do que nós. Os puzzles propriamente ditos recorrem novamente aos ambientes onde estão inseridos, fazendo-nos parar para os estudar e prosseguir para um processo elementar de dedução lógica.

Isto não quer dizer que sejam apenas uma tarefa. Podia-se esperar mais complexidade, sistema de resolução mais profundos, contudo, a essência de Uncharted nunca foi essa, nunca foi apostar muito nestas secções para depois recompensar o jogador com a solução. Pessoalmente, nunca comecei a jogar uma aventura da série à espera de ficar maravilhado com a complexidade dos seus enigmas. 

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Uncharted: O Legado Perdido funciona pela combinação dos seus elementos. Mais: resulta pela cadência com que são apresentados. Se retirarmos um dos seus componentes ficamos com algo inferior. Por exemplo, as secções de escalada, por si só, são divertidas durante alguns segundos ou minutos de cada vez. A Naughty Dog compreende perfeitamente isso e vai misturando tudo para criar uma execução que vai tocando vários instrumentos, nunca os tornando maçadores para quem tem o comando nas mãos.

Além do que podemos fazer a solo, Uncharted: O Legado Perdido não esquece a falange de jogadores que gosta de participar em batalhas online. Os modos multijogador online de Uncharted 4 estão presentes, assim como o Modo Cooperativo de Sobrevivência e ainda um novo Modo Arena, que ficará disponível nos servidores públicos aquando do lançamento do jogo dia 23 de agosto. 

Importa também mencionar que o vilão de serviço estará também disponível como personagem jogável e que foram adicionadas skins de Chloe e Nadine, entre outras surpresas. Pessoalmente, encaro a componente multijogador da obra como um complemento, mas se estão no lote mencionado e se gostaram do que jogaram em Uncharted 4, a Naughty Dog volta a dar-vos algo que certamente prolongará a vida útil do jogo.

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Tudo o que foi mencionado sobre a campanha a solo, a relação entre as protagonistas e os processos de jogabilidade são emulsionados por uma componente técnica que não fica a dever nada às obras pretéritas da produtora. Desde o momento inicial no mercado à secção final cheia de adrenalina, o grafismo é simplesmente sublime. Não há outra forma de o colocar: é impossível não arregalar os olhos perante o talento e os valores de produção que a Naughty Dog detém neste momento.

Reparem: a modelagem das personagens denota o comportamento natural, aproximando o elenco a uma representação que não nos relembra que estamos perante um videojogo. As texturas e os efeitos são combinados com uma atenção ao detalhe incrível, o que cria a ilusão de que aqueles cenários estão mais próximos de quem joga. As florestas cheias de cor, as ruínas sombrias que nos fazem questionar o próximo passo, as enormes vistas sobre aquilo que acabamos de escalar, enfim, é uma complexa mesclagem do melhor que a PlayStation 4 tem para oferecer.

E depois há um ritmo frenético quando assim tem que ser, um ritmo que a Naughty Dog foi aperfeiçoando ao longo dos tempos. As perseguições, por exemplo, são cronometradas para nos fazer acreditar que a vida daquelas personagens depende da nossa habilidade. O mesmo pode ser escrito sobre várias cenas em que estamos em perigo e escapamos no último segundo - aqui não pensamos que podemos recarregar um checkpoint, apenas em não falharmos e trairmos estas pessoas com a nossa incompetência momentânea.

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Tive oportunidade de jogar Uncharted: O Legado Perdido numa PlayStation 4 Pro ligada a uma televisão 4K com HDR, e o resultado foram momentos verdadeiramente assombrosos, levando-me por diversas vezes a parar a aventura para simplesmente apreciar aquilo que me rodeava. O grafismo não faz um videojogo, mas aqui é usado para criar uma envolvência cinematográfica que só não deixa ninguém ainda mais estupefacto porque vimos o símbolo da produtora antes do início do jogo.

A sonoplastia também não desilude, voltando a demonstrar os enormes valores de produção da casa californiana. A banda sonora é competente e ajuda ao drama quando assim é pedido. Contudo, a excelência chega com o trabalho de vocalização. Sem grandes exageros, Claudia Black (Chloe) e Laura Bailey (Nadine) encontram uma harmonia nas suas representações digitais, ajudando à naturalidade já mencionada. De destacar também que é um videojogo totalmente localizado em português, pelo que podem contar com o talento de Ana Cloe e Rita Ruaz, que interpretam Chloe e Nadine, respectivamente.

Não será surpresa então que Uncharted: O Legado Perdido possa parecer familiar a quem esgotou Uncharted 4. Não é um capítulo numerado, com várias ligações ao capítulo anterior. Quem não gosta da série, certamente não é aqui que vai mudar de opinião. Quem gosta e já tinha saudades da conjugação destas mecânicas segundo a visão da Naughty Dog, tem aqui umas boas horas que não desiludem. Os pilares estão todos aqui, tão sólidos como sempre, tão carismáticos como sempre.