Undertale é diferente. Undertale é especial. Aliás, Undertale é tão mais especial quanto maior for o vosso desconhecimento sobre a obra no momento em que iniciarem esta aventura. Desta forma, começo este texto afirmando categoricamente que o título produzido por Toby Fox é uma experiência que qualquer fã desta indústria de entretenimento deve desfrutar, tornando-se assim um jogo altamente recomendável. Se pretenderem, ainda assim, uma descrição mais detalhada da experiência que é Undertale antes de o jogarem, então apenas têm que continuar a ler esta análise.

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Como certamente saberão, Undertale é um curto RPG independente - cerca de seis a oito horas de duração - atualmente disponível apenas no Steam. Apesar de superficialmente aparentar ser uma experiência bastante suave e sem grande profundidade, esta obra distancia-se de outras entradas do género pela maneira brilhante como utiliza o humor para subverter as nossas expectativas e também enviar uma mensagem clara ao jogador relativamente ao verdadeiro significado das mecânicas que compõe o cerne da jogabilidade destes títulos, mais concretamente, o combate e o sistema de progressão.

Em Undertale, o mundo foi durante vários anos habitado em simultâneo por monstros e humanos, sendo que após inúmeras batalhas os monstros foram derrotados e selados nas profundezas do Underworld graças a um feitiço mágico. No entanto, muitos foram já os humanos que após treparem ao topo de uma montanha acabaram por cair num abismo que os levou até ao local habitado exclusivamente por monstros. Assumindo o controlo de um jovem humano e a mais recente vítima deste abismo, o nosso objetivo passa por sobreviver a este perigoso lugar e conseguir aquilo que nenhum humano antes conseguiu, ou seja, abandonar o Underworld.

Sim, é verdade que o arco narrativo da obra está longe de poder ser considerado inovador ou original, mas como em todas as aventuras memoráveis, mais importante que o objetivo final é o percurso que nos leva até ele. São as personagens com quem interagimos que transformam esta experiência em algo que ficará preso na mente do jogador muito depois de os créditos terem rolado. Explorando o mundo dos monstros de uma ponta à outra, o protagonista terá oportunidade de compreender melhor a motivação daqueles que, por definição, deveriam ser seus inimigos, formar alianças improváveis e também amizades com aqueles que o estão a tentar destruir.

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Como qualquer Role Playing Game que se preze, Undertale coloca um enorme enfâse na exploração do mundo de jogo e na interação com os monstros que o habitam. É inclusivamente possível avançar na aventura sem nunca conhecer vastas áreas do mapa de jogo, isto porque para além de não existir qualquer mapa a indicar o caminho correto a seguir, o título pode ser terminado de várias maneiras distintas. Claro que existe um caminho pré-definido que terão obrigatoriamente de percorrer para concluir a aventura, mas a forma como o percorrem ditará não só a maneira como as restantes personagens interagem com vocês, mas também como a experiência será concluída. Significa isto que Undertale conta nas suas fileiras com vários finais distintos, todos eles dependentes da maneira como o decidiram jogar nas horas que antecederam o confronto final.

Provavelmente já perceberam que estou a evitar ao máximo entrar em grandes detalhes sobre a narrativa e isso está intimamente relacionado com a satisfação que a descoberta que as minhas ações estavam de facto a ter impacto no desenrolar dos acontecimentos provocou em mim. Ao contrário de outros títulos, as decisões nesta obra não são óbvias e é bastante provável que cheguem ao final da experiência e apenas aí se apercebam da forma como afetaram a narrativa até então. Acima de tudo, o final da obra dá um maior impacto a toda a aventura e consegue fazer aquilo que a maioria dos videojogos de ação tenta evitar a todo o custo, isto é, fazer-nos compreender o verdadeiro impacto das nossas ações no mundo de jogo.

No que diz respeito à jogabilidade, Undertale conta com resolução de puzzles, na sua maioria simples e que servem mais a narrativa do que a jogabilidade, e com um combate por turnos ao estilo dos clássicos deste género. No entanto, o combate oferece mais opções de interação com os inimigos do que apenas os danos físicos. Para além dos ataques, o protagonista pode tentar conversar, elogiar, insultar, seduzir, mostrar os músculos e até mesmo mostrar misericórdia se sentir que o monstro não quer combater.

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Como é óbvio, a maioria destas opções é incluída para efeitos de comédia, mas algumas têm efeitos no inimigo, como diminuir os danos provocados no ataque seguinte. Ainda assim, isto levanta alguns problemas, pois o jogo nunca explica verdadeiramente a vantagem que estas ações nos oferecem durante o combate e contra inimigos mais poderosos poderão perfeitamente acabar destruídos antes de conseguiram decifrar o impacto de insultar ou elogiar um inimigo.

Para além do combate, o humor está presente em praticamente todos os momentos da experiência criada por Toby Fox e não é possível avaliar Undertale sem classificar a qualidade e o timing perfeito da sua comédia. Não se limitando a fazer sorrir o jogador, a obra serve-se desta componente para fazer comentários à sociedade e também às mecânicas habituais em videojogos que pouco ou nenhum sentido fazem. Isto fica logo evidente nos primeiros minutos de jogo em que uma simpática flor nos explica o funcionamento do combate ao jeito de um tutorial até inevitavelmente nos atacar sem piedade, afirmando que neste mundo tudo nos vai tentar matar e que seria estúpido esperar ajuda de completos desconhecidos.

Outros momentos que retratam a qualidade do humor no título são a batalha com um fantasma deprimido que, após derrotado, admite ter estado a baixar a sua saúde a cada ataque para não ser rude, uma vez que enquanto fantasma não pode ser atingido por ataques nem morrer, e também um número musical que tem tanto de inesperado e ridículo como de brilhante. O sentido de humor que o criador colocou nesta obra é o elemento que eleva a experiência a patamares superiores de qualidade, mesmo quando se serve de um mero esqueleto para comic relief. É também possível receber algumas respostas tortas se tentarem vender as vossas tralhas aos comerciantes no jogo.

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Graficamente, Undertale segue o estilo visual retro e pixelizado que tem sido utilizado com diferentes graus de sucesso pelos produtores independentes nos últimos anos. Aqui, os cenários são suficientemente diversificados e trabalhados para fazer com que grafismo sirva na perfeição a aventura e nos transmita um sentimento nostálgico relativamente aos clássicos do passado. Já a banda sonora confere um tom pitoresco à experiência, fazendo o jogador sentir que está numa demanda épica que o levará a enfrentar as forças do mal e a superar obstáculos imensuráveis.

Em suma, a obra de Toby Fox é uma experiência simples e curta, mas igualmente memorável e incrivelmente satisfatória. Undertale é um RPG diferente do habitual, um RPG em que é possível ganhar batalhas com simpatia e em que os inimigos são mais do que um mero obstáculo à progressão do jogador. Algumas mecânicas do combate nunca são verdadeiramente explicadas, mas a maneira como o título responde as ações do jogador ao longo da aventura deixa a entender que existe nas suas mecânicas muito mais do que aquilo que é visível à superfície. É provável que muitos venham a recordar a obra pelo seu humor, mas os seus inúmeros finais vão certamente motivar os mais dedicados a tentar compreender aquilo que poderiam ter feito de diferente.