Se vos pedir para pensarem rapidamente no que é para vocês a melhor série de jogos exclusivos da PlayStation 3, tenho a certeza que uma boa parte pensará imediatamente em Uncharted. Não, ainda não consigo ler-vos o pensamento, este palpite é baseado apenas na qualidade e a popularidade das obras da Naughty Dog. Esses mesmos atributos fazem com que a trilogia sirva de fonte de inspiração a muitas outras obras, umas mais descaradas que outras. A Semaphore, produtora da Arábia Saudita, inspirou-se de tal maneira nesses jogos, que resolveu chamar ao seu primeiro jogo Unearthed: Trail of Ibn Battuta. Sim, leram bem: Unearthed e Uncharted.

Além do nome, também a história tem pontos bastante idênticos. Faris Jawad segue as pegadas de Ibn Battuta, um grande explorador muçulmano. Como não poderia deixar de ser, Jawad tem a companhia de Dania, uma jovem aventureira que o guia pelos momentos mais complicados. Toda a narrativa tem menos densidade que uma folha de papel reciclado, ou seja, não demora muito até perceberem que o jogo usa o argumento como algo vago e sem conexão nenhuma entre os vários capítulos que o compõe. Não faz nada pelo jogador, deixando-o praticamente com o mesmo conhecimento que tinha sobre o jogo antes do mesmo começar.

Não é preciso muito para começarem a perceber que chegar até ao final do jogo vai ser uma viagem atribulada. Ainda assim, continuei na esperança que algo melhorasse. Não melhorou. Aliás, essa travessia foi pautada com algumas das piores secções que já vi em videojogos. Mas vamos por partes. A jogabilidade de Unearthed faz com que o jogo se enquadre no género da ação na terceira pessoa, porém, não cumpre um único ponto desse género: a exploração é limitada e desinteressante, os adversários têm a inteligência artificial de duas linhas de código e como se não bastasse tudo isto, a produtora resolveu salpicar a jogabilidade com secções em que jogamos como se fosse um jogo de luta. Até aceitamos que isto tenha sido colocado no jogo para variar as suas mecânicas, contudo, é ainda mais penoso que o resto.

Cada botão nos ombros do DualShock controla um membro da nossa personagem, ou seja, o L1 e o L2 controlam o pontapé e o soco com os membros esquerdos, enquanto o R1 e o R2 controlam os mesmos movimentos com os membros direitos, o que se revela uma tragédia. Como se ainda não bastasse, é ainda possível bloquear - ou tentar - os golpes dos adversários, o que só vem adicionar ainda mais confusão às mecânicas que nunca estiveram perto de funcionar corretamente. Confesso que perante tanta mediocridade me ri ao início, apenas para passados uns minutos perceber que teria que ultrapassar estas secções para chegar ao final do jogo.

Já perto do final do jogo deparei-me com uma situação que julgo ilustrar bem as más decisões que foram tomadas antes e durante a produção do jogo. Existe uma cena em que a nossa personagem acompanha outra enquanto ela tenta contextualizar historicamente o que se está a passar. Contudo, o que parecia uma cena corriqueira e já vista noutros jogos começa a demorar-se um pouco mais. Três, cinco, sete, onze minutos. Tive que deambular atrás de outra personagem durante aproximadamente dez minutos. A melhor parte é que isto foi um capítulo inteiro do jogo. Desbloquear troféu, caminhar durante dez minutos a passo de caracol, desbloquear troféu.

Tecnicamente, o tormento continua. A framerate tem problemas graves, os tempos de carregamento são enormes, os efeitos de água e fogo são risíveis, uma vez que nem as texturas mais simples são interessantes. O grafismo é atroz e o jogo encravou a PlayStation 3 de tal maneira que tive que a desligar na tomada. A sonoplastia segue o mesmo caminho: a vocalização parece ter sido feita apressadamente, não há sentimento nem expressão nas linhas de diálogo vocalizado e os lábios raramente condizem com o que está a ser dito e a banda sonora parece ter vontade própria, desaparecendo a meio das cenas que deveria dar ambiente.

O único ponto positivo do jogo é a localização em português. A legendagem e a tradução dos menus estão feitos com algum conhecimento de causa e não assassinam a nossa estimada língua.

Unearthed: Trail of Ibn Battuta não oferece um único motivo para que o jogador o tente completar e, ainda assim, quando o fizerem desbloqueiam um modo de sobrevivência. O jogo demora um pouco mais de duas horas a ser concluído, o que não deixa de ser curto, mesmo se tivermos em conta que este é apenas o primeiro episódio de uma série. Depois do que foi mostrado, duvido que a equipa consiga apresentar um segundo episódio que seja divertido, nem é preciso ser uma obra-prima, basta ser divertido.