Com Unheard, a NEXT Studios tenta algo diferente. Quem aceder a esta proposta terá pela frente uma série de casos resolvidos com processos que assentam na audição. Uma vez que é uma obra liderada pela narrativa, os jogadores têm a sua capacidade de atenção e de escuta testada consecutivamente. Remover a capacidade de tomar decisões baseadas no que lemos ou na nossa habilidade podia correr bastante mal. Não corre.

A longevidade está consagrada em cerca de quatro horas, o tempo que me levou para encontrar as soluções certas para os cinco casos incluídos no título. O primeiro serve sobretudo para explicar os processos básicos, seguindo-se um quarteto de situações mirabolantes em que colocamos em prática aquilo que aprendemos. São testes e os casos são gravações que são justificadas por um arranque narrativo que roça o cómico.

Diz o jogo que “como sabem, a tecnologia está a mudar a forma como conduzimos as investigações, pelo que estamos à procura de ‘candidatos excepcionais’ para testar um novo sistema de interface humano-computador”. Tudo bem, Unheard, conta-me mais sobre esta nova tecnologia de ponta. “Por esta altura, já deves ter percebido que estás a analisar uma espécie de gravação de vigilância”.

“Toda esta informação está contida e é processada por aquilo que chamamos o… ‘Sistema Acústico de Detectives’”. Como podem facilmente perceber não é um arranque com olho colocado no Nobel e se calhar o Pulitzer fica para outra altura. Tudo isto para mencionar que estão a tentar criar um novo departamento de investigação que vai depender desta invenção para resolver casos que se pensavam esquecidos e outros novos que possam surgir.

Estes sistema revolucionário é-nos apresentado num tablet e exibe mapas ilustrados como se fossem plantas dos locais das gravações que estamos a investigar. Podemos movimentar a nossa personagem pelas diferentes divisões, mas não podemos interagir diretamente com quem está a falar. Na parte inferior do interface temos controlos para manipular o decorrer do áudio através da linha temporal. Pensem num qualquer leitor de música e estarão muito perto de compreender os controlos.

Nesse espaço de tempo, o que ouvimos numa determinada divisão em que marcamos presença não é o mesmo que está a decorrer nas restantes divisões do mapa onde outras personagens têm linhas de diálogo autónomas. Na prática isto faz com que estejamos sempre com algum receio de estarmos a perder algo importante, com o intuito da obra a ser trabalhar a linha temporal até que consigamos ouvir todos os pedaços de informação importantes para a investigação.

Começamos cada caso sem saber quem é quem. Temos personagens ilustradas no mapa como círculos que vibram quando é emitido um som e uma lista com nomes no canto superior direito. Assim, o primeiro objetivo de cada gravação acaba sempre por ser o de descobrir que nome pertence a cada voz, o que obviamente é indispensável para a descoberta da verdade no final de cada caso. Consequentemente, isto obriga-nos a explorar praticamente todos os recantos, ouvindo as conversas e acompanhando as personagens para testemunhar as suas interjeições seguintes.

Sem grande surpresa, os casos vão aumentando de dificuldade. No primeiro temos apenas que fazer corresponder quatro nomes, por exemplo, mas no final estamos a trabalhar com mais de uma dezena de nomes. Isto detém a nossa atenção, até porque a verdade que procuramos é expressada na maneira como respondemos corretamente a várias perguntas sobre o que aprendemos - ou não - durante a nossa análise a cada gravação.

Voltando ao primeiro caso, somos questionados quem é escondeu as drogas num caso que envolve dois irmão gémeos. Porém, não demorou muito até que alguém tenha levado uma bomba para uma esquadra. Neste caso temos que responder às perguntas quem é levou essa bomba e quem é que, afinal, a detonou. O caso que me causou mais dificuldades foi o último, uma vez que à pergunta “quem são os verdadeiros pacientes?” de um hospital psiquiátrico, temos que responder com cinco nomes. Isto leva a nossa capacidade de estudo de personalidades ao extremos. Ainda por cima estamos envolvidos numa situação com catorze personagens a movimentarem-se pelas diversas divisões.

Quando chegarem a este ponto de Unheard terão deixado para trás um caso em que numa exposição aparece misteriosamente uma moldura vazia. A investigação passa por descobrir quem é que roubou o quadro verdadeiro primeiro e ainda quem é que ficou com o valioso objeto no final da gravação. Outra misteriosa gravação decorre num teatro. Não se ouvem as pancadas de Molière, mas voltamos a ter nas mãos o apurar dos factos sobre mais um homícidio. É claramente um jogo cheio de fumo e de espelhos, sendo também um videojogo que não se ensaia nada para colocar algumas rasteiras no caminho de quem está a tentar perceber o que é que realmente aconteceu, testando quem é que está mesmo atento.

Importa ainda destacar que algumas gravações demoram apenas cinco minutos, tempo que não é obviamente o total para a sua conclusão, pois terão sempre que somar sempre o período que gastam a andar com o áudio para trás e para a frente à procura das várias pistas. Todavia, há outros casos que passam a marca dos dez minutos, pelo que na prática podem estar mais de uma hora a tentar perceber quais são as respostas às perguntas colocadas. Nestas propostas mais longas, perder o fio à meada faz a frustração chegar com mais facilidade à tona das emoções.

Pessoalmente, a melhor forma que encontrei para fazer o meu papel de detective foi acompanhar determinada personagem pelas diferentes divisões, percebendo as trocas de nomes e começando a ter as vigas mestras da investigação. Imaginem um guarda-chuva. Estes primeiros passos são as varetas, o que se segue é o pano que unirá os detalhes até que a investigação comece a fazer sentido, até que na nossa mente acenda finalmente uma lâmpada.

A obra coloca ainda outra uma ferramenta à disposição de quem joga que nos permite escrever os nossos comentários durante as gravações. Imaginem que precisam de se lembrar de um pormenor qualquer numa determinada marca. Escrevem o comentário - que na verdade funciona mais como uma nota - e quando chegarem a essa marca temporal, independentemente da divisão onde estiverem, são relembrados desse ponto importante que anotaram numa das passagens anteriores graças ao texto que aparece a deslizar horizontalmente pelo monitor.

Isto vai resultando porque a produtora compreendeu desde bastante cedo que teria obrigatoriamente que ter um grupo de atores que fosse capaz de entregar personalidades diferentes às diferentes personagens apenas através das suas vozes. A imaginação dos jogadores faz o resto, ou seja, graças a uma boa dicção e a diferentes registos vocais fabricamos aparências para quem está nas salas connosco. Infelizmente, ocasionalmente a escrita apresenta o que é sentido com um certo desleixo.

Ainda que o arranque seja o que já foi descrito antes, o cômputo geral do argumento não é mau, com praticamente todos os casos a contarem com reviravoltas interessantes e minimamente sustentadas pelo desenrolar dos eventos. O problema, ou melhor, onde se sente mais aquela sensação de fazer os mínimos é em certos diálogos, que nem sempre são naturais e se desenrolam ocasionalmente com tiradas forçadas para cumprir calendário.

Mesmo no final do jogo, já depois de termos solucionado todos os casos propostos, há uma última pergunta feita à nossa personagem sobre a nossa personagem. É um final algo atabalhoado que conta com várias escolhas e, consequentemente, vários finais possíveis. Depois de os ter jogado todos fiquei com a clara ideia que Unheard podia ter terminado sem a necessidade destes artifícios.

O grafismo tem pouca relevância numa obra que vive de e para a sonoplastia, mas ainda assim fica a nota que as plantas os edifícios contam com alguns pormenores para criar atmosfera. Unheard parece esforçar-se para provocar um efeito semelhante ao que sentimos quando lemos um livro ou ouvimos um podcast: a criação de personagens baseadas nas vozes e dos cenários por onde se vão movimentando.

Como provavelmente já tiveram oportunidade de perceber, Unheard regista algumas falhas na execução. Todavia, é uma obra arrojada na forma eleita para transmitir o seu arco narrativa. Foi uma escolha que podia ter corrido terrivelmente mal, especialmente se o interesse do jogador não fosse captado. Sim, tem alguns aspetos a pender para o lado amador do processo de produção, mas tudo feito e arrumado não deixa de ser uma proposta interessante, capaz de algumas reviravoltas cativantes e do espicaçar da nossa imaginação e capacidades dedutivas. Se o jogarem não se esqueçam dos auscultadores.