Há jogos com conceitos simplesmente geniais de contemplar. Não que sejam títulos absolutamente bons, mas conseguem cativar pela exploração dos seus pormenores e ver como esses funcionam. É por isso que adorei jogar os vários títulos da série Guild da Level-5. Mas ideias tão rebuscadas são um risco enorme para quem as coloca à venda e é isto que causa serem pouco desenvolvidas ou experiências muito curtas. Unholy Heights transmite essa mesma sensação de estarmos perante um caso desta natureza.

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O título da Mebius apresenta uma ideia muito invulgar: sejam o senhorio de um prédio e aluguem os diversos apartamentos a monstros que estejam à procura de uma residência. No entanto, não é tudo. O senhorio é o próprio Demónio, que tem como objetivo criar um exército de monstros e dominar o mundo como vingança aos heróis que não o deixam viver em paz. Primeiro, há que alugar os vários espaços a monstros, melhorar as condições do apartamento para que vivam felizes e aniquilar toda a presença humana que procura glória ao dizimar os vossos inquilinos.

No início do jogo têm apenas o rés-do-chão disponível com quatro apartamentos por ocupar. À medida que aparecem novos interessados, aceitam-nos ou não conforme vários fatores, mas no arranque do jogo não podem ser muito rigorosos na escolha, pois há que amealhar dinheiro nas rendas. O objetivo, como é óbvio, é atrair monstros cada vez mais fortes para afastar todos os heróis que queiram livrar-se da força maléfica que gere o prédio.

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Para isso se concretizar terão de satisfazer os caprichos dos vossos residentes e equipar as suas casas conforme pedem, apesar de muitas vezes não o exprimirem com muita clareza. Há quem queira um bom sistema sonoro, outros um ar condicionado para afastar o calor, enquanto que outros se contentam com algo simples. Ao progredirem devem ajustar o valor da renda, sempre com atenção à possibilidade que têm para a pagar. Alguns são desempregados, outros simplesmente acham que estão a ser injustos e não conseguem pagá-la. Cabe a vocês decidirem o futuro desse inquilino que tem a renda em atraso, mandá-lo para o olho da rua ou baixar o valor da renda.

As demandas são ativadas no quadro exposto no exterior da casa. No total não são em grande quantidade, mas certas missões tem um salto de dificuldade bastante elevado. Em muitos outros jogos isto seria muito inconveniente, porém, este cenário indica ao jogador que é tempo de renovar o prédio e talvez atrair novos inquilinos e expulsar quem já não faz cá falta e só está a ocupar espaço. Os combates desenrolam-se como o jogo todo, em duas dimensões.

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Assim, uma das táticas mais eficazes, consiste em encurralar os vossos inimigos entre dois monstros e aniquilá-los um a um. Vejam também que monstros emparelham bem entre si e terão uma partida mais eficaz, sem que percam muitos dos vossos residentes. Caso percam, não é o fim do mundo, os inimigos dirigem-se aos vossos cofres e roubam-vos uma quantia significativa das vossas poupanças. Podem sempre recomeçar um grinding para recuperar o que foi perdido, até que se sintam capazes de retomar a quest que vos levou à ruína.

Há vários tipos de monstros, uns com ataques de longo alcance e outros de proximidade, sejam com recurso a magia ou a elementos naturais. O melhor é testar a compatibilidade entre cada um deles. Por exemplo, semi-humanos e demónios não se dão bem entre si, serão por isso menos eficazes na hora de defender o prédio. Uma outra estratégia que uso muito é a de deslocar a vizinhança conforme me der mais jeito. A título de exemplo, em quatro apartamentos seguidos ponho um monstro de ataque de longo alcance, um que luta corpo-a-corpo, outro igual e um último semelhante ao primeiro.

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Assim, quando um inimigo passa pelas minhas residências e estiver mesmo no meio, solto os dois que lutam com as próprias mãos e os restantes arqueiros. Deste modo tenho uma luta rápida, eficaz e que não inflige demasiado dano nos meus inquilinos. Numa batalha de várias rondas, é algo particularmente útil. Principalmente, porque o último inimigo costuma ser o mais forte. Enfrentá-lo com um grupo de vizinhos abatidos resultará em fracasso.

Unholy Heights não tem muito mais para oferecer. Todavia, é particularmente interessante ver todos os seus detalhes envolvidos num contexto humorístico. Ver o quotidiano das vidas dos vossos monstros é um hábito voyeur que dá para esboçar uns sorrisos. As atividades que levam na sua rotina diária são muito semelhantes à nossa, contudo existem alguns casos curiosos. Como um centauro que é um ávido leitor de literatura erótica, o seu vizinho só se mete em atividades elícitas que envolvem assaltos a todo o tipo de locais e outro passa o dia todo em casa fechado a ver televisão. É este tipo de conteúdo que dá mais personalidade ao título, que dá alento ao jogador de continuar, em vez de deixar o jogo de lado.

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Tecnicamente, Unholy Heights é muito semelhante à versão PC lançada em 2013. Agora na 3DS, este mantém a sua tonalidade de visual de banda desenhada. Não é um título propriamente espantoso, mas com o estilo artístico escolhido é coerente do princípio ao fim. O mesmo se pode dizer da sonoridade jovial que pauta os momentos de combate e os descansos na rotina dos vossos residentes.

Este título é curto, mas por cinco euros oferece o suficiente para explorar os seus detalhes únicos que ninguém se lembraria de existir em formato de videojogo. Tal como muitos títulos da série Guild, este é um caso peculiar da cena indie japonesa. É refrescante podermos assistir à presença mais afirmada de autores nipónicos mais desconhecidos aqui no ocidente. Um bom jogo para pautar entre grandes produções, que estão certamente no vosso catálogo e que se jogam na maioria das vezes, da mesma forma como muitas tantas que não se atrevem a arriscar a redesenhar controlos ou convenções de jogabilidade.