Pedro Martins por - Oct 15, 2019

Untitled Goose Game – Análise

Na teoria, um jogo em que o protagonista é um ganso pode parecer uma piada fácil para ser partilhada nas redes sociais. Contudo, depois de ter jogado Untitled Goose Game, o que a produtora australiana House House consegue é edificar sobre uma vã piada. Ou seja, não estamos perante a repetição de um meme vezes sem conta até os créditos finais aparecerem no ecrã.

É verdade que sim, de facto vestimos a pele a um ganso durante uma viagem por uma versão de Inglaterra algumas décadas atrás. Mas ser um ganso é, espelhando um pouco as características do animal real, sermos uma personagem detestável, que passa a maioria da obra a irritar quem nunca lhe fez mal; que se torna um tormento para várias pessoas que estavam a viver as suas vidas antes da ameaça com asas e um bico ter entrado nas suas existências.

Na prática, Untitled Goose Game mistura mecânicas de ação furtiva com a resolução de puzzles. Vamos tendo acesso a uma lista de objetivos que temos para cumprir, sendo que a forma como chegam ao procedimento é da vossa responsabilidade. O conceito é que, obviamente, o ganso não seja apanhado enquanto está a tentar realizar estas tarefas, porém, a produtora não penaliza os jogadores, dando-lhes carta verde para continuarem a ser mais e mais irritantes.

A obra funciona como se cada área fosse o nosso recreio, até porque os comandos onde a jogabilidade está assente são bastante simples. Correr, agarrar, bater as asas, baixarmos o bico, enfim, nada de demasiado complexo. E um botão dedicado para soltarmos um grasnido. Novamente, torna-se claro que a House House nos dá as ferramentas para a diversão, mas não se esquecer de edificar alguns problemas (formas como vão alcançar os objetivos da lista) para que a massa cinzenta não adormeça pelo caminho.

Uma boa parte do motivo que torna Untitled Goose Game tão apetecível são os próprios objetivos. Fazer alguém quebrar um vaso “chique” ou fazer com que alguém fique molhado ou ainda fazer com que uma criança coloque os óculos errados na cara, são exemplos de como este ganso e, consequentemente, o jogador tem um papel muito pouco angelical. Quando temos que fazer alguém andar descalço, cuspir o chá ou simplesmente arranjar uma forma de partir uma vassoura, é evidente que, além de ser inconveniente, este protagonista é simplesmente mesquinho.

Se estão a pensar que estes objetivos são demasiado complexos para um ganso com um leque de comandos tão limitado, a verdade é que o grosso de Untitled Goose Game está dependente da nossa manipulação dos cenários. Assim temos que esmiuçar os que nos rodeia até desencadear uma série de acontecimentos que acabam por resultar naquilo que queremos que aconteça – novamente aludindo à metáfora do recreio que cada nível parece.

Enquanto vamos experimentando, as personagens que vão habitando cada um dos segmentos exprimem aquilo que procuram normalmente através de dicas visuais. O jogador terá que estar avaliar estes avanços para permutar a sequência. Ocasionalmente há momentos mais frustrantes em que Untitled Goose Game parece demasiado ambíguo, há alguns breves trechos em que a jogabilidade podia ser mais refinada, mas a House House foi inteligente na forma como nunca deixa estes momentos prolongarem-se em demasia. Por exemplo, não é preciso completar todas as tarefas indicadas para aceder ao nível seguinte.

Uma vez que a lista de afazeres é diferente, também os procedimentos para a conquistar o são. Isto faz muito pela diversão, como já foi dito, mas também pela diversidade instaurada nos comandos base. Todavia, Untitled Goose Game é um produto tão apetecível não apenas pelo humor, mas pela forma como as piadas chegam até ao jogador – além do caricato que é jogarmos na pele de um ganso.

Os tons pastel dos cenários são excelentes quando combinados com o design para entregar áreas onde se está bem, áreas que transpiram uma identidade que se presta a representar os locais verdadeiros sem nunca perder um carisma próprio. Seja nos jardins, nas ruas, num pub ou até numa aldeia em miniatura, Untitled Goose Game prova que é possível entregar uma obra pejada de detalhes sem chegar ao fotorrealismo.

Este cuidado técnico anda de mão dada com o tal lado cómico. O protagonista não precisa de abrir o bico ou de fazer algo para imediatamente ter a atenção e o sorriso de quem joga. As suas animações e a forma como interage com as restantes personagens e itens nos cenários faz o resto. Ver um ganso com uma faca no bico ou ver um ganso junto a uma placa que anuncia a interdição a, bem, gansos, terá sempre piada.

Como disse no início deste texto, a agilidade da House House está em não repetir esta piada durante a totalidade da obra. Cheio de detalhes, como quando o ganso aparece em inúmeros televisores ou quando faz com que o jardineiro martele o próprio dedo, a obra tem um timing interessantíssimo: numa das últimas áreas, por exemplo, há duas mulheres que aplaudem o ganso, celebrando a sua presença e até dando-lhe uma flor se seguirmos as instruções.

Esta forma de criar um caos controlado está perfeitamente acompanhado pela banda sonora. Sim, os grasnidos desmesurados têm o seu encanto, contudo, é com o piano e uma toada jazz que se percebe a atenção que foi colocada para casar os dois aspectos da obra. É empolgante, mas também irónico que um dos instrumentos mais clássicos faça uma companhia perfeita a a ações tão atabalhoadas e, derradeiramente, tão imaturas. É também um bom exemplo de como Untitled Goose Game não é apenas uma graçola sem dimensão.

Com todo este espectro de tarefas e com a diversão/gargalhadas que muitas delas oferecem, é uma pena que a obra não tenha uma longevidade mais conseguida. Com quatro áreas principais, o jogo da House House pode ser concluído em apenas algumas horas. O problema só não é maior porque há duas novas listas depois da aventura primária ser concluída. Curiosamente, é aqui que há tarefas que cruzam itens e personagens entre as diferentes áreas. Esperem, todavia, encontrar tarefas que são versões das que realizaram na campanha principal.

Untitled Goose Game é divertido pela reação imediata ao que está a acontecer no ecrã, mas é-o também pela forma como coloca o jogador na pele de um antagonista chato, mesquinho e que só pensa em complicar a vida dos desconhecidos. É natural que sintam alguma compaixão pelos humanos, porém, graças ao estilo gráfico escolhido e a uma banda sonora sublime, essa compaixão rapidamente dará lugar à curiosidade de descobrir a área seguinte e de voltar a consumir as diferentes formas de arreliar os desconhecidos.

veredito

Untitled Goose Game podia ser apenas uma piada para ser partilhada nas redes sociais, mas é bastante mais do que isso. Misturando ação furtiva com puzzles e muito humor, a obra da House House é uma proposta de fácil recomendação.
8 Tarefas que exercitam a massa cinzenta. Humor inteligente veiculado por personagens charmosas. Graficamente apelativo e sonoramente excelente. Mecânicas mais jogo além destas curtas horas.

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Untitled Goose Game

para Nintendo Switch, PC, PlayStation 4, Xbox One

Lançado originalmente:

01 January 2019