Controlar um simples ganso num videojogo consegue fazer com que a nossa imaturidade pueril se revele. Untitled Goose Game, um jogo da australiana House House, no seu título diz mais do que o que parece sobre a sua temática. O título Untitled é também um contra-senso, mas também diz-nos que não há nada artificial no jogo: há um ganso que controlamos para fazer asneiras e provocar o caos aos humanos com os quais se cruza. É uma premissa tão simples que nos faz rir naturalmente, sem qualquer tipo de esforço.

Há quem considere os gansos ainda mais capazes do que os cães como animal de guarda. Não é uma afirmação de todo errada, até porque são animais muito territoriais e têm os seus próprios meios para se defender. Adaptar um animal destes a videojogo é bastante curioso, até porque não é o animal doméstico mais comum, nem tem uma aplicação prática em videojogo. Contudo, com Untitled Goose Game já começo a achar que se deviam fazer mais jogos com animais que assumam a sua verdadeira forma e características naturais, sem que este sejam antropomórficos.

Na obra da House House somos introduzidos ao jogo com o ganso preparado para pertubar a pacata vida de pessoas de uma aldeia. Porém, como em qualquer jogo, surge a dúvida inicial: “O que é que posso fazer no jogo?”. Controlam a movimentação do ganso com o analógico esquerdo e podem fazer algumas ações para criar distúrbios. Podem gracitar com um botão para assustar ou afugentar pessoas e também podem usar o bico do ganso para apanhar, empurrar ou puxar diversos objetos. É o suficiente que precisam de saber para começar o jogo.

No entanto, não é por se conhecer os controlos que se sabe, automaticamente, o que é preciso fazer para transformar a vida calma das pessoas num inferno. De certa forma, Untitled Goose Game é um laboratório de experiências, onde as cobaias são os humanos que estão no nosso espaço de divertimento. E à medida que se atormenta os habitantes da pequena aldeia, apresenta-se uma espécie de lista de tarefas que é riscada conforme se completam os objetivos lá anotados.

É um bocado estranho aparecer um bloco de notas do nada durante as nossas experiências a arreliar a vida pacata das pessoas, que só querem estar em paz. O completar destas tarefas é o coração do jogo, é isto que faz com que queiramos continuar a rir com as trapalhadas que provocamos. É graças a boas personagens, com boas animações, que fazem desta obra uma salutar comédia slapstick. Aliás, se fossem empregados os mesmos efeitos sonoros que são usados nas comédias slapstick encaixavam na perfeição em Untitled Goose Game.

Depois de um rápido vislumbre dos objetivos, soube que tinha de preparar previamente algumas situações antes destas poderem acontecer. Tenho, por exemplo, fazer com que um miúdo troque os seus óculos por uns que não são os seus. Por isso, temos de roubar um par de óculos que está exposto numa banca de um pequeno mercado, gracitar efusivamente em frente ao miúdo para que ele se assuste e caia como consequência do susto que acabou de apanhar e, por fim,  trocar os óculos que caíram no chão. Enfim, as animações das expressões das personagens estão tão bem feitas que é hilariante assistir ao resultado final das nossas ações; o nosso ganso é uma verdadeira ave maquiavélica.

Não foi há muito tempo que a House House lançou uma atualização para Untitled Goose Game, que permite que joguemos num modo cooperativo para semear o terror com as asneiras que fazemos. Assim, caso queiram adquirir o jogo na eShop, que foi disponibilizado originalmente há sensivelmente um ano, ou comprar a versão física do jogo que foi lançada no início deste mês, vão poder contar com o modo cooperativo incluído.

Sinceramente, é uma boa adição, apesar de retirar o tempo que dedicavamos a montar armadilhas ou a ver o padrão de comportamento dos humanos que queriamos provocar. A dois torna-se, assim, tudo mais fácil. Porém, o pior é que a longevidade ainda fica mais limitada, até porque jogado a sós já não conta com muito mais do que quatro horas a completar.

Visualmente, esta obra australiana não é muito rica em texturas complexas, mas esta simplicidade artística favorece o jogo na medida em que parece estarmos a viver as aventuras de um ganso num desenho animado ou nas páginas de uma banda desenhada. Também o departamento da sonoplastia é notável, ironicamente não por ter sempre música, mas por tê-la em momentos-chave do jogo. Quando fazem asneiras e têm de fugir das vossas vítimas enfurecidas pelas ações que tomaram, há uma música que nos coloca numa situação em que parece estarmos numa sitcom britânica, tal como o clássico Benny Hill.

Este jogo é perfeito para aquelas sessões em que precisamos de nos rir. E se queremos levar um amigo a fazer asneiras na pele de um ganso malvado, agora já o podemos fazer. Infelizmente é um jogo muito curto, mas tal como uma boa sitcom, aparece, exercita o sorriso e termina. Caso estejam com saudades de um jogo que vos faça rir, Untitled Goose Game é uma boa opção.