Uma das memórias que tenho da PlayStation original está associada a V-Rally. Não é a melhor, nem sequer é a melhor memória associada a jogos de condução - bem, para ser completamente sincero, nem sequer é a melhor memória associada a um jogo de rally - mas ainda assim lembro-me de ter experimentado a obra na consola cinzenta. Agora chegou ao mercado V-Rally 4 e, novamente numa consola da marca nipónica, volta a não ser uma das melhores memórias que associarei à PlayStation 4.

Desenvolvido pela Kylotonn, V-Rally 4 é um jogo de condução que fascina pelo quão estranho é. Essa estranheza advém da mistura de processos modernos com alguns termos que são facilmente identificáveis como pertença de tempos idos. Não é um jogo terrível, mas tem demasiadas falhas para ser facilmente recomendável, chegando por diversas a oferecer frustração suficiente para nos fazer morder a língua.

As boas notícias é que V-Rally 4 oferece várias categorias distintas, com a jogabilidade a ser consideravelmente diferente em cada uma delas. As más notícias é que essa jogabilidade é consistentemente aquém. Além de proporcionar partidas rápidas, com a sua nova obra, a produtora gaulesa dá aos jogadores também a oportunidade de terem um modo carreira, aqui conhecido como V-Rally Mode.

É uma amálgama de provas que vão aparecendo num mapa-múndi, levando-nos por provas de rally, obviamente, mas também de Rallycross (V-Rally Cross), Buggies, Gymkhana (Extreme-Khana) e ainda Hillclimbs. Sobre este modo, importa ainda destacar que, além de pilotos, vestimos também a pele de gestores, contratando um staff que nos vai ajudando.

Quanto melhor forem os engenheiros, mecânicos e agentes que forem contratando, maior é o valor dos salários a pagar. Sem grande surpresa, para irem engordando a conta bancária que permite fazer esses pagamentos, mas também comprar e melhorar novos veículos, há que participar e ganhar corridas. Não é nada de propriamente revolucionário - nem nada que exija muito esforço estratégico - mas sempre serve para diversificar o que se faz no jogo.

Ainda que não se sinta uma verdadeira coesão na forma como progredimos pela carreira, o maior problema de V-Rally 4 está com aquilo que se passa quando temos um volante à frente. É muito complicado retirar algum prazer destes processos de condução, especialmente porque se revelam bastante inconsistentes consoante a forma como as provas se vão desenrolando.

Há parâmetros que podem ser ajustados para aproximar a jogabilidade ao vosso estilo - e até ajustes para tornarem as provas mais fáceis, desde que estejam dispostos a ganhar menos dinheiro. Mas no fundo, independentemente da categoria em que a prova está inserida, a jogabilidade é inconsistente, fazendo com que o jogador perca a confiança que tem na evolução das suas habilidades.

Por incontáveis vezes, fazer a mesma curva com o mesmo carro e aplicando a mesma técnica não produz os mesmos resultados. Se são maus num jogo e perdem de forma justa, há o sentimento que podem evoluir e conquistar a curva de dificuldade. O problema de V-Rally 4 é que nos faz heróis e vilões sem que nos dê as ferramentas para perceber o que fizemos bem ou mal. Sem grande surpresa, o resultado é uma obra de condução que não demora muito até se tornar frustrante.

Ocasionalmente, sente-se as forças da gravidade a exercitar a física e a desafiar o negociar da curva, porém, isso perde o impacto quando na volta seguinte perdemos simplesmente a traseira do carro e acabamos penalizamos porque saímos de pista, quebrando por completo a sensação de melhoria e realização enquanto jogador. Este desequilibro e acaso gera, além da frustração, insegurança, pois nunca sabemos o que o jogo vai fazer.

Por muito que aprecie traçados desafiantes, vale a pena mencionar que V-Rally 4 tem o hábito de colocar “armadilhas” escondidas nos traçados, especialmente na categoria de rally. Evitam que se corte em demasia as curvas, sim, mas algumas estão predestinadas a serem sobretudo irritantes, pois são pedras ou outros obstáculos estrategicamente posicionados para nos fazer capotar ou perder o controlo do carro. Tudo isto é engenhoso até ao momento que é simplesmente injusto - até porque alguns traçados usam e abusam de efeitos para tornar a visibilidade o mais diminuta possível.

As pistas, ainda que não sejam licenciadas, levam-nos a alguns locais de renome e, ocasionalmente, oferecem cadências de curvas e de saltos e até de vistas interessantes, contudo, é óbvio que uma boa parte deste design é obliterado pela já mencionada sensação de frustração e de incapacidade em colocar em termos práticos aquilo que fomos aprendendo e treinando. E este design é alicerçado por um departamento técnico que, mesmo sem ser brilhante, não desilude completamente.

Já mencionei que o modo carreira está explanado num mapa-mundi, ou seja, viajando entre Continentes, com provas na China e nos Estados Unidos, mas também na Roménia e no Quénia, e ainda na tundra gelada a norte, na Sibéria, há a diversidade e as boas intenções na teoria. A diversidade dos cenários tem na execução a falha de velhos hábitos que parecem colocados aqui para relembrar que V-Rally tem história na cena dos videojogos.

No campo na sonoplastia não há nada verdadeiramente assinalável, com o rugido dos motores a não ser propriamente nada de hipotónico e os efeitos sonoros a serem o mínimo para criarem o ambiente. Aliás, o maior destaque acaba por ser o efeito sonoro dos travões, que se torna particularmente irritante após algumas provas, especialmente se estiverem a jogar com auscultadores. 

Há também uma componente multijogador. Ora, se importa destacar a inclusão do modo em ecrã dividido local, o que garante alguma diversão - quanto mais não seja a gozar com o adversário de ocasião; importa também destacar que no online encontrei vários problemas para encontrar salas com competições disponíveis, o que não dá muita confiança sobre o sucesso e consequente comunidade online da obra médio e longo prazo.

Então V-Rally 4 não é o regresso de uma série que estava ausente há muito para ser um dos jogos do ano. Uma obra deste género, por muito que nos faça viajar muito pelo mundo, por muito que desenhe traçados interessantes, terá sempre que ter uma jogabilidade condizente com isso. V-Rally 4 não tem, conduzido-nos incontáveis vezes até um estado em que a vontade de continuar a jogar é pouca, muito pouca.

E além da frustração destes processos, há a frustração adicional de percebermos que a matéria-prima para algo melhor estava aqui, se ao menos a Kylotonn tivesse tido a visão para refinar a curva de aprendizagem e, sobretudo, entregue uma obra com uma execução mais condizente com a teoria. Assim, os fãs da série, à espera desde 2002, continuarão a ter que matar saudades noutras Propriedades Intelectuais de outras produtoras. Uma sugestão? DIRT. E sejamos francos, há muito que já sabiam que as saudades seriam mortas pela Codemasters.