Tenho um enorme respeito pela guerra, ou melhor, tenho uma enorme admiração por quem a combateu, tantas vezes sem saber onde estava e porque estava. É mais do que um fascínio, muito mais do que uma voraz vontade de conhecer todos os factos: é admiração pelo melhor da humanidade tantas vezes motivado pelo seu pior. Homens, homens e homens, uma sucessão de vidas que lutavam só porque era quarta-feira no calendário.

Lembro-me incontáveis vezes do que deve ter sido o desembarque na Normandia. Bem sei que é um cliché, mas o meu pensamento vai invariavelmente para o que deve ser a sensação de termos a estatística possível contra nós, ou melhor, depois daquela fina parede de metal dos batelões estavam centímetros entre sobreviver mais um palmo de areia ou ficar logo por ali.

A guerra é um fruto apetecível e os videojogos adoram passear-se por esse pomar. Os jogadores parecem não cansarem-se de combater a frente inimiga e, mesmo que muitos acusem o tema de estar saturado, a verdade é que as vendas não enganam. A Ubisoft propõe o mesmo tema em Valiant Hearts, porém, a perspetiva é bastante diferente do tradicional Atirador na Primeira Pessoa.

Estamos na Primeira Guerra Mundial e assistidos na primeira fila ao desenrolar da narrativa de cinco personagens que, por caprichos do destino, não se escusam a tocar em determinados pontos do jogo.

Emile, um agricultor francês que acaba prisioneiro de guerra; Karl, um alemão que acaba por ser deportado para França; Anna, uma enfermeira formada à pressa e no terreno; Freddie, um americano à procura de vingança e, finalmente, um cão que arrebatou corações desde o primeiro vídeo em que apareceu.

Estas histórias ajudam a que a longevidade do jogo não seja demasiado castigada, porém, é impossível avançar sem mencionar uma sexta personagem: o narrador. A vocalização é um dos pontos que mais me tocou durante a minha estadia nestas vidas, especialmente a entoação dada a cada linha de diálogo. Posso esquecer-me de tudo o resto, mas dificilmente deixarei de lembrar o tom exacto com que o nome Emile foi pronunciado.

Aliás, o melhor elogio que posso fazer ao narrador é afirmar que não destoa do tema em questão, o que é muito mais difícil do que pode parecer. Não há uma sede de protagonismo, apenas um fio sonoro que pausadamente adiciona uma nova camada de emoção à obra. O seu nome? Dave Pettitt.

Desde que foi anunciado, sabia-se que Valiant Hearts tinha tudo para ser um olhar bastante interessante sobre a guerra que retrata, especialmente porque a produtora apostou em manter o argumento próximo do verídico baseando os acontecimentos em cartas trocadas durante a guerra. Apesar de o tema ser pesado e de as cartas servirem como um farol de autenticidade num mar de tantos factos torneados à lei do entretenimento, raramente somos apanhados em situações que bajulam os canais lacrimais.

O sentimentalismo está lá todo, contudo, é apresentado ao jogador sem grandes filtros e sem grandes adornos romanescos. Ao longo da viagem são apresentadas fotografias e descrições do que realmente aconteceu, permitindo que os mais pacientes tenham uma oportunidade de terem uma lição de história como complemento ao lúdico.

Pode não parecer até aqui, mas Valiant Hearts é um videojogo. Na sua essência estamos perante uma mescla de puzzles com toques de aventura gráfica e ligeiros salpicos rítmicos. O cenário é um falso 2D, ou seja, apresenta-se geralmente com várias camadas, o que permite à produtora retirar algum partido de ações em várias profundidades, o que permite conjugar as habilidades de várias personagens.

Por norma, temos um trecho do cenário bloqueado à espera que um encadeamento de ações resolvam os problemas propostos pela produtora. Convém desde já ressalvar que, caso entendam, podem recorrer a algumas pistas, todavia, é uma muleta que está lá, ou seja, só as utilizará quem assim desejar e de maneira alguma interfere com o planeamento e recompensa de cada puzzle.

O problema é que é a sua identidade como videojogo o ponto mais fraco. Na sua maioria, os puzzles tendem para o facilitismo, permitindo a qualquer jogador minimamente versado neste género perceber quase imediatamente a linha de raciocínio que tem que seguir. E como o desafio nunca é relevante, raramente sentimos que demos um puxão à massa cinzenta.

Mas os problemas não se ficam por uma linha plana de desafios. Em determinado momento, no meio de todo aquele cinzento, da amargura e do sofrimento, dei por mim a pensar que aquele trecho em particular me fazia lembrar The Secret of Monkey Island. No jogo da LucasArts temos que colocar uma pedra na pastilha elástica para partir o dente e fazer saltar o ouro. Em Valiant Hearts temos que encontrar uma meia, esperar pelo momento certo e lavá-la no tanque usado e acabar o momento secando-a num local pouco verosímil. Há algo de Monty Python numa cena que deveria ser tudo menos nonsense.

Este é apenas um exemplo entre vários elegíveis e que serve para alicerçar a minha opinião sobre a coesão do jogo, ou melhor, sobre a sua ocasional ausência. Tudo isto faz de Valiant Hearts um mau jogo? Não, não faz. Aliás, quando em alguns momentos o puzzle requer alguma ponderação e está em sintonia com o tema, o jogo da Ubisoft proporciona alguns trechos que demonstram que os produtores tinham o talento requisitado para assumir o controlo da obra.

Fechando o círculo, regressamos aos campos técnicos, depois do narrador ter estado nas luzes da ribalta. Falar do seu grafismo e continuar a explanar o campo da sonoplastia é, indiscutivelmente, falar do melhor que Valiant Hearts tem para oferecer. Não há lens flare, não há discussões sobre a quantidade de fotogramas por segundo, há apenas o apreciar de um quadro em movimento. Na PlayStation 4, a tonalidade gráfica é o melhor aliado do argumento, sendo responsável por continuar a transmissão de sentimentos iniciadas pela escrita.

Os detalhes amontoam-se a cada painel de cenário desbravado, o desenho das personagens assenta numa caricatura que - por incrível que pareça - não ridiculariza ninguém, a paleta de cores é rica em tons soturnos, carregados, enfim, a desolação entranha-se na pele e demora algum tempo a dispersar.

Todo este encanto gráfico é alimentado por um motor de jogo que muitos já ouviram falar: UbiArt Framework. Mesmo que não conheçam o nome, certamente reconhecerão alguns dos jogos que o tiveram como base: Rayman Origins, Rayman Legends e, mais recentemente, Child of Light. Tudo isto leva-me a pensar na sua versatilidade. Tive oportunidade de experimentar os jogos todos e os estilos e tons são tão díspares que a produtora gaulesa parece ter à sua disposição uma ferramenta extremamente poderosa e eficaz.

Outro ponto curioso é que a base da comunicação não é um idioma reconhecido e, apesar de ser imperceptível, a mensagem vocalizada passa com alguma facilidade para o lado de cá das colunas. Pessoalmente, penso que os momentos em que este encanto da universalidade comunicativa são os de Anna, a enfermeira, provando que o sofrimento não precisa de voz.

Valiant Hearts é uma oferta interessante. Ainda que com uma jogabilidade amorfa em alguns casos, acredito que vale sobretudo pela mensagem que transmite. Graças à inspiração em cartas reais e à inclusão de fotografias e factos históricos, acaba por ser uma boa maneira de ficar a saber um pouco mais sobre o que aconteceu à nossa existência entre 1914 e 1918.