Ikaruga: depois deste jogo nunca mais voltei a encarar os shoot 'em up na vertical da mesma maneira. Não tive oportunidade de jogar a versão DreamCast, contudo, fui a tempo de retificar a falha com a chegada da versão GameCube à Europa, longe de saber que o jogo iria atingir um estatuto de culto, influenciando o preço do jogo em segunda mão. Mais tarde tive a oportunidade de experimentar a versão Xbox LIVE Arcade de Radiant Silvergun e, apesar de ser uma boa entrada no género, não conseguiu destronar Ikaruga. Ainda assim, convém mencionar que os dois jogos foram produzidos pela mesma produtora, a Treasure.

Passaram-se anos até que um novo "shmup" me arrebatasse o coração. Até agora. A primeira vez que ouvi falar de Velocity foi quando o jogo foi lançado como um PlayStation Mini. O burburinho provocado pelo jogo, considerados por muitos como o melhor PlayStation Mini de sempre, foi ensurdecedor. Portanto, quando a FuturLab anunciou que o ia refazer para ser lançado na PlayStation Vita, sabia que o tinha que o jogar e analisar. Com um grafismo em Alta Definição, inúmeras melhorias e atualizações, Velocity passou a chamar-se Velocity Ultra e esta é a sua análise.

O arco narrativo do jogo desenrola-se no ano 2212 e oferece aos jogadores uma "space opera" interessante. Depois de um buraco negro ter engolido a estrela Vilio, o jogador, aos comandos da nave Quarp é a réstia de esperança de uma salvação. A história do jogo torna-se apelativa porque a produtora não se limitou a obrigar os jogadores a irem do ponto A até ao ponto B destruindo tudo o que lhe aparece pelo caminho sem grande justificação. Aliás, é apresentado um rosto do inimigo: a raça Zetachron. Porém, é de lamentar que a variedade de inimigos não tenha sido mais expandida pela FuturLab.

A base do jogo é idêntica aos outros shoot 'em up: começam com um modo de disparo normal e conforme forem completando as missões vão tendo acesso a armas mais interessantes. Nada de revolucionário. Ironicamente, o ponto menos conseguido do jogo é precisamente a mecânica dos disparos. Portanto: a parte "shoot" deste "shoot 'em up" não é nada de empolgante e os inimigos são pouco variados. Motivos suficientes para descartarem completamente o jogo e esperarem por outro entrada no género, certo? Não, não podiam estar mais enganados. É extremamente fácil recomendar Velocity Ultra e já vão saber porquê.

Não é preciso esperar muito para que o jogo vos explique a utilidade do botão quadrado da vossa PlayStation Vita e isso transforma completamente o jogo e adiciona algo novo ao género. Quando pressionam o botão mencionado aparece uma reticula que controlam com o analógico esquerdo, quando soltarem o botão a vossa nave é teletransportada o ponto do cenário onde está a retícula e isso, além de ser extremamente divertido, abre uma caixa de Pandora com oportunidades a explorar. Imediatamente após a introdução desta nova mecânica, são-vos mostrados alguns exemplos onde a mesma tem que ser utilizada para progredirem no cenário.

O que começa com uma forma engraçada de ultrapassar barreiras, não demora muito a ser a chave para a resolução de vários tipos de puzzles. Convém mencionar que o ecrã não para de deslizar na vertical e que podem usar o gatilho direito da vossa portátil para acelerarem a sua deslocação, sendo que o gatilho esquerdo está reservado a uma vista do mapa. Além disso, podem atirar bombas pressionando o círculo e definir a sua direção com o analógico. Felizmente, a produtora percebeu a qualidade desta mecânica e não a isolou, ou seja, obriga os jogadores a inseri-la em vários processos. Obrigar parece um verbo austero, mas neste caso esta obrigação provoca vício, pensamento rápido e exige que a vossa massa cinzenta aja em tempo recorde.

Por diversas vezes vão ser obrigados a destruir certos objetos por ordem crescente, o que só por si já introduz alguma estratégia, mas agora imaginem que o cenário se bifurca e os objetos número 1 e número 2 estão separados? Ou imaginem que a sua ordem no cenário é 1, 3, 2. Não precisam de imaginar mais, pois é precisamente isso que acontece no jogo. Quando isso acontece, têm que lançar para o cenário de jogo um ponto de controlo (Telepod) para onde se podem teletransportar mais tarde. Seguem um caminho, destroem o objetivo, abrem o mapa e regressam ao ponto que salvaram e optam pela segunda opção oferecida pelo cenário.

Como se não bastasse, não existe apenas uma ordem a seguir, ou seja, existe uma ordem para os objetos de cor verde, outra para os de cor amarela, etc. Confesso que isto pode parecer confuso, até demasiado confuso, todavia, tudo se conjuga naturalmente desde que prestem atenção ao que estão a fazer e acompanhem o esforço que o jogo faz para vos entreter com algum raciocínio. Além disso, o mapa do nível mostra onde estão e o que têm a abater com as respetivas cores, portanto, nunca chegam a estar verdadeiramente perdidos.

Além da pressão do varrimento vertical do cenário, importa mencionar que os níveis - o jogo é composto por 50 missões - têm que ser completados antes do relógio chegar ao fim, o que não é um problema quando começamos um nível com dez minutos, porém, existem alguns níveis menos generosos e às vezes somos "brindados" com, por exemplo um minuto e dez. Porém, apesar da pressão que isto causa, nunca senti que o jogo estivesse a ser injusto comigo, ou pelo menos demasiado injusto. Se forem competitivos não vão querer apenas completar o nível, vão querer fazê-lo com direito a receberem uma medalha de ouro, resgatando todos os sobreviventes espalhados em cada cenário e sempre a pensar na tabela de liderança online.

Apesar do grafismo ser agora em alta definição, Velocity Ultra é mais bonito quando não estão a jogar, ou seja, na arte que apresenta entre missões para explicar o desenvolvimento da história. Não é um jogo feio, contudo, podia retirar partido do poderio da Vita e, sobretudo, do seu ecrã OLED. Impera ainda mencionar que o jogo não recorre muito a explosões de encher o ecrã ou ao uso e abuso de cores garridas, por isso acaba por nunca chegar a encher os olhos dos jogadores com pirotecnia digital. A banda sonora é outro ponto recomendável, pois encaixa muito bem com a jogabilidade e com a ilustração de um mundo no ano de 2212. Experimentei o jogo com as colunas da Vita e ligando um par de auscultadores e esta última opção torna a experiência muito mais envolvente.

Tal como já disse, apesar das secções de disparo não oferecem nada de novo, o resto das mecânicas que assentam nessa base fazem de Velocity Ultra um excelente jogo. Não me admirava nada que muitos lançamentos futuros dentro do género venham aqui beber inspiração. Se o fizerem, estão a transformar os seus jogos em algo melhor. O grafismo algo discreto é compensado por uma banda sonora arrebatadora. As cinquenta missões garantem que a diversão se prolongue por largas horas.