Quando uma produtora que não está ligada à Nintendo faz jogos excepcionais para as consolas da casa de Quioto, sabemos que estamos perante um conjunto de indíviduos com muito talento. Falo mais neste caso da Wayforward, uma casa californiana que criou as séries Shantae e Mighty Switch Force, assim como Ducktales Remastered. Com Vitamin Connection, a sua nova proposta, a WayForward consegue capturar a essência do divertimento peculiar que um título Nintendo proporciona de acordo com a consola para a qual foi desenvolvido.

Vitamin Connection é um título, para ser jogado sozinho ou a dois, que vos coloca no papel duplo de Vita-Boy e Mina-Girl, as duas partes complementares de um comprimido que viaja pelo corpo humano ou animal. Ao longo de vários dias, a família Sable fica doente, um membro do agregado familiar de cada vez. Apesar da presença de glóbulos brancos, uma das nossas defesas contra vários tipos de bactérias e vírus que provocam doenças ou infeções, não é uma má ideia recorrer à medicina moderna para acelerar o processo de cura. Vocês vão viajar pelo interior dos corpos da família Sable no vosso comprimido, que na prática é um Joy-Con onde viaja a dupla de personagens.

Vitamin Connection pode ser jogado sozinho, mas só o façam se não tiverem mesmo mais ninguém com quem partilhar este título. De uma certa forma, o jogo da WayForward fez-me recordar Snipperclips, porque é possível jogar Vitamin Connection a solo, mas assim não temos acesso a todo o seu potencial. Enquanto um jogador pilota a nave-comprimido e aponta o raio laser Vitamin Beam, o outro jogador tem de acionar o disparo do raio laser, tal como assumir a rotação da nave que passará por espaços exíguos.

Os vasos sanguíneos não são uma estrutura tubular em linha reta, há muitas curvas e contracurvas, assim como várias dimensões de grossura, sem não nos esquecermos de tudo o que estiver a bloquear o vaso sanguíneo em questão. Por isso, disparar contra inimigos, ter atenção ao espaço por onde temos de passar rodando a nave e colocando-a no sítio certo para não embater em nada, não é uma tarefa fácil para uma só pessoa. Ou são bons no multitasking, ou será complicado e frustrante ultrapassar os níveis da campanha.

Ainda é preciso ter o giroscópio bem calibrado para poderem utilizar uma garra sem problema. Esta garra é uma mecânica que vos permite limpar o caminho de objetos ou inimigos imunes aos vossos ataques para poderem passar sem irem contra as paredes de vasos capilares. É esta mecânica que vai complicar ainda mais a vossa estadia pelo corpo humano, caso resolvam jogar sozinhos.

A WayForward sabia muito bem o que estava a fazer durante a produção de Vitamin Connection e isso vê-se claramente na diversão proporcionada pelo jogo. Primeiro, a apresentação encaixa bem no conceito de jogo que quer entregar. Parece um daqueles desenhos animados dos anos noventa produzido pela dupla Hanna-Barbera, algo similar à serie The Jetsons. Esta direção artística não tornou o interior do corpo humano em algo grotesco ou macabro, visto que as cores são bastante fortes, com tonalidades quase fluorescentes, o que dá um tom jovial ao jogo.

O jogo não é fácil, é preciso estar minimamente atento ao perigo que nos rodeia, mesmo jogando a dois. Imaginem que estão a jogar um misto de Lovers in a Dangerous Spacetime e Snipperclips dado o tipo de desafio que vos espera. O jogador que fica responsável por disparar o Vitamin Beam tem de ter em atenção que não pode fazê-lo de forma contínua, tem de ter cuidado para não esgotar a barra de energia da arma na sua totalidade. É uma situação que vos deixará relativamente vulneráveis se estiverem distraídos. Demorem muito a desviar os óbstáculos para a vossa passagem e morrem, assim como se embaterem nas paredes dos vasos sanguíneos ou em inimigos. Esta viagem atribulada tem de ser feita até chegarem a um dos órgãos vitais, como o cérebro, o coração ou os pulmões.

Quando chegam a um destes órgãos vitais, começa um minijogo. E é nestas secções que jogar sozinho se torna ainda mais frustrante, pois o jogo foi desenhado para ser jogado a dois. Um dos jogos pede-vos para passarem por um arame sem tocar nele, num outro minijogo são convidados a seguirem passos de dança e ainda há outro que é nitidamente inspirado em Frogger, só para citar alguns exemplos mais relevantes. O que é importante a reter, é que estas secções são um ótimo divertimento para dois jogadores.

Vitamin Connection é um jogo que deixa transparecer toda a sua originalidade. E, se todos os jogadores que têm uma Nintendo Switch original tiverem em conta que a sua consola tem a possibilidade de poderem jogar qualquer título que tenha multijogador sempre que quiserem, a partilha da obra torna-se ainda mais recomendada. Caso não gostem de jogar em modo multijogador, este título não é recomendado para vocês: a experiência é demasiado frustrante quando não partilhamos o Joy-Con com alguém.