Quando decidi que iria analisar Wandersong já sabia perfeitamente aquilo que me esperava. De forma sucinta, uma obra de produção independente a esforçar-se para se distanciar dos demais lançamentos, assente numa ideia e mecânica central através da qual pretendia obter a atenção do jogador. No fundo, uma obra com um conceito original, sem medo de correr riscos, de enveredar pelo caricato e peculiar. Agora que o concluí, posso confirmar que o jogo de Greg Lobanov é efetivamente tudo isso. Felizmente, é também muito bom.

Acima de tudo, Wandersong destaca-se pela forma como surpreende e apanha desprevenido o jogador, levando-o a pensar estar perante um determinado estilo de aventura antes de lhe trocar as voltas e o colocar perante algo bastante mais substancial do que inicialmente parecia. Essencialmente, esta é uma obra que vai ganhando cada vez mais força à medida que as horas vão avançando e o seu mundo e personagens se vão revelando.

Tal como o nome indicia, o título coloca-nos no controlo de um bardo, um jovem que tem no canto a sua predileta forma de comunicação, mesmo que muitas vezes o faça em momentos indesejados ou não receba o apreço que talvez merecesse. Após ser presenteado com uma visão do fim do mundo durante um sonho, o protagonista é denominado o herói que terá de o salvar por uma misteriosa criatura espiritual. A sua missão passa por visitar os Overseers - os agentes supervisionam a existência - no mundo dos espíritos e obter os fragmentos da Earthsong, uma canção que entoada por toda a população terá o poder de travar a catástrofe.

Na companhia de uma jovem bruxa que o ajudará a cumprir o seu destino, o protagonista viajará pelo mundo em busca da composição que o salvará, conhecendo locais diversos, personagens caricatas e realizando uma série de atividades com vista a melhorar o mundo um pequeno passo de cada vez. É muito por aqui que Wandersong nos engana. Apesar da gravidade e urgência da situação, a obra inicia-se com uma alegria jovial e um tom pitoresco e cómico que faz com que a aventura pareça bem mais tradicional e simples do que realmente é.

Aquilo que começa por ser uma aventura marcada acima de tudo pelo caricato da situação - um protagonista que resolve uma multiplicidade de problemas cantando - e protagonizado por personagens sem grande profundidade molda-se lentamente numa narrativa memorável e sem medo de puxar os cordelinhos emocionais do jogador e de lhe tirar o tapete debaixo dos pés. O duo composto pelo protagonista e pela jovem bruxa recebem uma caracterização excelente e a exploração da sua relação é feita com enorme qualidade. Até a própria antagonista se transforma numa personagem robusta e com a qual somos capazes de empatizar.

É através da alternância entre o elemento cómico e alegre da aventura e o tom mais sombrio e emocional das personagens e suas relações que Wandersong consegue elevar a sua narrativa para um patamar superior, permitindo-lhe ser mais do que um simples acompanhamento da jogabilidade e a fonte dos seus melhores e mais marcantes momentos. Não é uma história rica em peripécias e reviravoltas, é sim uma história surpreendentemente humana que tem algo a dizer sobre o nosso papel na sociedade e a nossa visão de nós próprios.

Sem surpresas, outro dos alicerces de Wandersong é o seu departamento técnico. A banda sonora complementa de forma ideal os diferentes momentos da campanha, bem como as características únicas de cada um dos locais que visitarão ao longo da mesma. Dito isto, é quando a música assume verdadeiramente o centro das atenções que a sonoplastia mais brilha. Infelizmente, esses momentos acontecem com menos frequência do que seria desejável e talvez até expectável de uma obra que tem na música e no cantar as suas características mais identificadoras.

Embora possamos colocar o nosso protagonista a entoar notas - e até a dançar - enquanto se movimenta pelo mundo de jogo, apenas sentimos que estamos de facto a produzir música, com melodias propriamente ditas, quando o jogo nos guia pela mão e indica que notas tocar em cada momento e em que sequência. Sim, a música, ou melhor, o entoar das notas é a mecânica central da jogabilidade e será através dele que resolverão os quebra-cabeças que a obra colocará no vosso percurso, mas essa resolução raramente envolve peças musicais memoráveis.

Esse é, porventura, o maior fracasso de Wandersong, ou seja, a forma como o jogo não consegue combinar a sua musicalidade com a sua jogabilidade. Por isso mesmo, a sensação de jogar este título não é assim tão diferente de jogar qualquer outro título de puzzles e plataformas. A utilização das notas musicais como mecânica é demasiado simplista para proporcionar sequências de sonoridades de alto quilate. Daí que a banda sonora da obra se destaque sobretudo em momentos importantes da narrativa e não durante a jogabilidade, ainda que a vossa ação seja sempre necessária para produzir esses momentos.

Ainda assim, o facto da jogabilidade não complicar acaba por ser um aspeto positivo, uma vez que evita que a atenção seja desviada daquilo que a obra faz melhor e, em última instância, que a frustração afete a experiência. Wandersong compreende claramente que é nos seus momentos mais calmos, em que a atenção é focada unicamente na interação entre as personagens ou no momento musical desencadeado pela narrativa, que este apresenta maior competência.

No departamento visual, a obra de Greg Lobanov joga com os diferentes momentos da aventura para alternar entre cores vivas e alegres e as cores escuras, tristes e melancólicas. Servindo-se de um estilo de visual que se assemelha a recortes de papel, o título faz um bom trabalho ao nível das suas subtis animações para conseguir representar a emoção nas personagens e dar ainda mais personalidade e um charme muito próprio à experiência.

Wandersong é uma experiência facilmente recomendável para aqueles que procuram uma experiência de puzzles e plataformas mais serena e repleta de charme. A utilização da música não é tão frequente e eficaz como deveria ser, mas a surpreendente qualidade da narrativa e da caracterização das personagens acaba por contrabalançar esse defeito. No final de contas, Wandersong é uma agradável surpresa e uma obra que me ofereceu bem mais do que aquilo que esperava.