De forma voluntária ou não, a verdade é que desde o seu anúncio que muitos jogadores saudosistas viram em Wargroove o potencial para ser o sucessor moderno de Advance Wars, o clássico jogo lançado originalmente para o Game Boy Advance, pelo qual há muito ansiavam. Se é ou não tudo aquilo que estes pretendiam será difícil determinar até à sua proliferação pelo mercado e chegada às restantes plataformas, mas não há qualquer margem para dúvidas que a obra da Chuklefish é uma experiência de enormíssima qualidade e facílima de recomendar a fãs do género.

Tal como a obra em relação à qual será frequentemente comparada, Wargroove é um título de estratégia militar por turnos que coloca os jogadores ao comando de diferentes unidades de combate em batalhas que têm lugar em mapas com vários elementos que influenciam os confrontos. Embora possua missões com outros objetivos finais, as batalhas terminam habitualmente com a destruição da base inimiga ou a derrota do comandante que lidera as forças oponentes. Contudo, é preciso muita calma, ponderação e tática para alcançar esse desfecho sem sofrer o mesmo destino em primeiro lugar.

Acima de tudo, é a conjugação de todos os fatores que têm de ser tidos em conta durante qualquer batalha que revela a profundidade assinalável das mecânicas do jogo, bem como a excelência do vários elementos do seu design. A campanha, o modo onde se recomenda que iniciem a vossa estadia na obra, faz um excelente trabalho em introduzir de forma gradual as diferentes unidades que podem colocar no combate, bem como as diferentes fases pelas quais passarão durante o processo que, se tudo correr da melhor forma, vos permitirá chegar à vitória.

E faz todo o sentido que Wargroove opte por adicionar lentamente camadas à sua jogabilidade ao invés de despejar desde logo uma quantidade gigantesca de informação em cima do jogador, obrigando-o a passar por um extenso e monótono tutorial ou então pela leitura de várias paredes de texto que apenas atrasam a nossa entrada na ação. Tudo somado, o título da Chucklefish acaba por nos obrigar efetivamente a analisar vários componentes na altura de delinear a estratégia para cada um dos nossos turnos da batalha, mas isso apenas acontece numa fase em que já somos devidamente conhecedores de todos os seus detalhes e eficientes na sua utilização.

Primeiramente é preciso conhecer as várias unidades de combate que começam por ser os guerreiros de espada, guerreiros de lança e os fiéis amigos de quatro patas - que, ao contrário das restantes unidades, não são destruídos quando a sua barra de saúde é esgotada, acabando por fugir da batalha para segurança -, perceber quais as suas resistências e vulnerabilidades em relação a outras unidades de combate, bem como as condições necessárias para que estes desfiram danos críticos. 

Os guerreiros equipados com lanças, por exemplo, causam mais danos quando têm outro guerreiro da mesma classe ao seu lado, enquanto os guerreiros de arco e flecha provocam mais estragos quando não têm que se movimentar para atacar. Para além destas unidades, há ainda a cavalaria que é poderosa e capaz de cobrir maiores distâncias em menos turnos, mas vulnerável aos guerreiros de lança, os magos que são fundamentais para destruir as diferentes unidades áreas como os vampiros, e as imponentes balista e catapulta que provocam enormes danos a inimigos distantes, mas são incapazes de se movimentar e atacar no mesmo turno.

Depois de desbloqueadas as unidades áreas, chegarão ainda as unidades marítimas, pelo que a variedade nunca será escassa, principalmente tendo em conta que as forças inimigas também as vão utilizando à medida que vocês ganham acesso às mesmas. Conhecidas as diferentes unidades de combate é depois preciso perceber como é que aumentam ou preservam as vossas forças no campo de batalha. Para isto é vital a conquista de vilas, fortes de guerra, torres e portos. 

A vilas são fundamentais porque será através delas que vão obter o dinheiro necessário para chamar mais unidades de combate para a ação, podendo também ser trocada a sua solidez para reestabelecer a saúde de um guerreiro. Por sua vez, os fortes de guerra, as torres e os portos serão os locais através dos quais recrutarão unidades de combate de solo, aéreas e marítimas, respetivamente. Da mesma forma que podem ocupar estes locais quando estes estão desocupados e destruí-los quando estão na posse dos inimigos para depois os ocupar, o mesmo pode acontecer com aqueles que tiverem conquistado, pelo que o rumo de uma batalha é frequentemente ditado pela quantidade de vilas que cada comandante tem em sua posse e, por consequência, o dinheiro que tem disponível para recrutar guerreiros.

Sem surpresas, diferentes unidades de combate têm um custo adequado à sua utilidade, embora seja sempre importante ter em conta o tipo de unidades que o inimigo lançou para a batalha no sentido de explorar as suas vulnerabilidades e minimizar os custos para mais tarde apostar nas unidades mais poderosas e, claro está, mais caras. Finalmente importa também perceber como os diferentes elementos do mapa alteram os confrontos diretos entre unidades, perceber que as montanhas e florestas oferecem maior resistência aos ataques, embora limitem a movimentação, enquanto ambientes aquáticos vos tornam mais indefesos, e ainda como diferentes unidades podem ajudar na exploração. Por exemplo, os cães são excelentes para dissipar áreas cobertas por nevoeiro e revelar inimigos escondidos.

Como se tudo isto não fosse suficiente para assinalar a complexidade e a profundidade do conjunto de sistemas interligados que compõem a jogabilidade de Wargroove, há ainda que ter em conta as habilidades especiais dos comandantes que podem ser ativadas quando estes atingem o seu “Groove” - habilidades essas que podem passar pelo restaurar de saúde de todas as unidades em redor do comandante ou a colocação de um artefacto que aumenta a defesa das vossas unidades em redor do mesmo - bem como o facto de que, caso os vossos ataques não resultem na eliminação imediata dos inimigos, estarão sempre expostos a um contra-ataque, sendo também de mencionar que o poderio dos vossos ataques diminui quanto mais vazia estiver a vossa barra de saúde.

Serve tudo isto para concluir que a jogabilidade tem tanto de recompensadora, como de viciante e desafiante. Ainda assim, é preciso mencionar que, apesar de uma variedade considerável no tipo de missões que vai colocando à disposição do jogador, o jogo sofre de alguns picos de dificuldade exagerados e também de uma tendência para arrastar as suas missões durante mais tempo do que seria recomendável, o que se torna especialmente frustrante quando vêem o vosso esforço de quase uma hora redundar em fracasso. Não são problemas gritantes que afetam o cômputo geral da experiência, mas infelizmente significam que a frustração poderá surgir em alguns momentos.

Mesmo tendo na jogabilidade a sua viga-mestra, Wargroove destaca-se igualmente pela enorme quantidade de conteúdo que oferece e pelo charme e personalidade que coloca na sua narrativa e personagens. Não esperem, obviamente, uma narrativa muito complexa ou pejada de reviravoltas inesperadas. Não, o segredo da campanha de Wargroove está nas suas caricatas personagens, tanto no lado dos heróis como no dos vilões, e nas interações que antecedem e têm lugar após as missões.

Para além da campanha, onde através de missões secundárias terão uma primeira oportunidade de assumirem outros comandantes para além da Princesa Mercia, uma jovem guerreira que foi forçada a tomar controlo do reino após o assassinato do seu pai, os vários comandantes desbloqueados ficam depois disponíveis no modo Arcada onde terão de enfrentar outros comandantes de forma sucessiva para obterem um tesouro desejado. Uma vez que são vários os comandantes que podem controlar neste modo, as interações adicionais dão-nos mais oportunidades para conhecer as diferentes personagens e as suas motivações. Para além disso, existe também o modo Puzzle que vos coloca em desafiantes cenários de batalha que têm de ser concluídos num só turno. 

Mas ainda há mais. Podem desafiar outros jogadores através do multijogador local e online, bem como criar e partilhar as vossas próprias missões e campanhas através do editor de jogo. Adicione-se a tudo isto, o facto da vossa prestação nas missões ser classificada numa escala de três estrelas e têm aí mais uma motivação para tentarem concluir batalhas já ultrapassadas de forma mais rápida e eficiente. Wargroove está recheado de conteúdo e a diversidade permite evitar que a sua fórmula fique estagnada.

No departamento técnico, Wargroove serve-se de um estilo visual que se destaca pelo colorido dos seus cenários, assim como pela excelente animação 16-bit que transporta claramente os jogadores para uma era passada dos videojogos e, como não poderia deixar de ser, reveste-o de uma sempre importante camada de nostalgia que alude desde logo à obra à qual foi beber inspiração. A banda sonora assume sobretudo um papel de acompanhamento da ação e faz um trabalho competente nessa função, mas quando estiverem completamente focados numa batalha que já vai longa, a última coisa em que vão reparar será nas sonoridades que a acompanham.

Desta forma, a obra da Chucklefish é claramente bem sucedida em praticamente tudo aquilo que se propunha a oferecer ao jogador. Mesmo com ocasionais picos de dificuldade que levam a uma sensação de injustiça e batalhas que se arrastam durante mais tempo do que o recomendável, a profundidade da sua jogabilidade alicerçada num estilo visual nostálgico e charmoso e numa enorme e diversificada quantidade de conteúdo disponível faz com que este jogo de estratégia militar por turnos tenha os argumentos necessários para fazer os jogadores regressar com frequência e recompensá-los devidamente pelo tempo investido.