Sobre a "velhice anormal e excessiva dos solteiros", Proust escreveu que de todos aqueles para quem parece que o grande dia sem amanhã é mais longo que para os outros, porque para eles é vazio. O grande amanhã retratado no presente de Watch Dogs tem tudo isso e levanta uma questão: ilusionismo e fogo-de-artifício tecnológico excluído, que parte da sua espinha poderá ser uma história futuramente verídica? A cena do hacking não é uma novidade introduzida pelos Millennials, pois quem esteve minimamente atento sabe que foi a invasão binária a dar a Kevin Mitnick estatuto de estrela rock e que imortalizou uma expressão sobejamente popular: O único sistema verdadeiramente seguro é aquele que está desligado, fechado num cofre de titânio, enterrado num bunker de cimento, rodeado por gás venenoso e por guardas armados. Mesmo assim, não lhe confiaria a vida, creditada a Gene Spafford.

Se eu perguntar o que têm no vosso telemóvel, provavelmente responderão que têm algumas aplicações que facilitam o quotidiano, mensagens trocadas com amigos a combinar as próximas saídas ou a comentar o último episódio da vossa série preferida. Talvez uma notícia partilhada sobre os iminentes festivais de Verão. Agora, se eu não fizer essa pergunta e aceder abusivamente ao vosso companheiro digital, talvez vá encontrar algo muito diferente. Jogar Watch Dogs é constatar que a frieza das máquinas domina a o apelo humano: a privacidade é um conceito etéreo e "1984", um dos livros e citados de George Orwell, passa a ser manual prático e não obra de ficção.

Com os desenvolvimentos sobre a NSA e a noção que cada humano está cada vez mais ligado à rede, Watch Dogs não é uma utopia. Somos Aiden Pearce, um hacker disponível para ser contratado que os argumentistas da Ubisoft não perdem tempo a envolver numa história de perda, traição, poder e conquista. Numa trama rodeada de bits e bytes, foi com algum agrado que testemunhei que o seu fio condutor é, sobretudo, humano. Logo nos minutos iniciais ficamos a saber que existem segredos virtuais que grandes entidades querem proteger a todo o custo. Pearce está no hotel errado à hora errada, o que faz com que as suas atividades cibernéticas ganhem contornos reais rapidamente: Lena, a sobrinha do protagonista, morre à lei de um aviso: podemos estar no Faroeste digital, mas as consequências continuam a atingir onde dói mais: no amor incondicional à família.

Com o avançar pelos cinco capítulos que compõe o arco principal, a história de Pearce vai ficando cada vez mais complexa, contudo, a noção familiar está quase sempre presente, servindo como uma âncora sentimental. O filme "A Teoria da Conspiração" pode ser paupérrimo, mas serviu para levar ao grande ecrã um simulacro de como a suspeição pode andar de mão dada com a loucura. O argumento de Watch Dogs é substancialmente melhor do que o guião que alimentou o protagonismo de Mel Gibson, porém, a espiral é idêntica, com a nossa personagem a aprofundar progressivamente o que não parece ter fim e, sobretudo, a constatar que quem protege esse final está disposto a praticamente tudo quando começamos a chegar ao apuro conclusivo da verdade.

O argumento de Watch Dogs coloca-nos no centro de Chicago, contudo, importa mencionar que a versão digital da cidade americana está ligada pela ctOS, uma rede online que traça o perfil do cenário de jogo 24 horas por dia, 7 dias por semana. Como porta de entrada na grelha digital, Pearce tem ao seu dispor o Profiler, um smartphone idêntico aos milhões que são comprados diariamente no globo, mas com uma reviravolta: permite ver detalhes pessoais dos transeuntes, hackear os seus dispositivos móveis, interagir com os sistemas básicos da cidade, aceder a câmaras, basicamente, permite aceder a quase tudo que está ligado à ctOS.

No fundo, o Profiler é o coração do jogo, afetando praticamente tudo que fazem durante a vossa estadia na Chicago de Watch Dogs. A lista é extensa, portanto vamos por partes: Basta pressionar um botão - neste caso do DualShock 4, pois o jogo foi analisado na PlayStation 4 - e somos voyeurs com varanda virada para a privacidade de tudo e de todos. Exemplos não faltam. Apontem o vosso telemóvel-canivete suíço a alguém e terão acesso em tempo real ao seu perfil: Brant Granding. Defensor da pena de morte. Idade: 54. Ocupação: Gestor de Caso. Rendimentos: $62,800. Ficamos ainda a saber que, Brant não só tem cadastro, como o mesmo foi atribuído por violência doméstica e por invasão de privacidade.

Ao lado, temos Cristopher Chester, entusiasta de pastelaria. Fiz hack</em> ao seu telefone e ouvimos uma conversa privada cheia de insultos e ameaças. Além disso, o dinheiro foi transferido para a nossa posse automaticamente. Não se preocupem, é prática comum em Watch Dogs. Para o transferirem para a vossa conta digital terão que fazer hack a uma caixa multibanco, porém, se forem como eu vão deixar o dinheiro roubado acumular e resgatar uma maquia avultada de uma só vez.

Estamos a ver Chicago pelo buraco da fechadura. Há algo de estranhamente viciante em saber os segredos de quem está ao nosso lado. Pessoas endividadas com várias lojas de empréstimos, cristãos fundamentalistas, escritores de romances online, "trolls" em fóruns online, defensores da marijuana legislada, stalkers em redes sociais, pessoas que compram hentai, enfim, a variedade de perfis trabalhados pela Ubisoft Montreal é genuinamente avassaladora. E além destas consultas rápidas, podemos ainda ser testemunhas de conversas telefónicas em que, por exemplo ouvimos alguém declarar o seu amor por outrem; e ler trocas de SMS. Aposto que não sabiam que a Laura Fitzroy, 26 anos, estava a ser medicada por fraco apetite sexual.

Porém, não é apenas para terem um Reality Show no vosso PC ou consola e/ou rechear a vossa conta bancária que o Profiler serve. Esta Chicago tem várias insuficiências, contudo, é inegável que é bastante interactiva. Seja em perseguições, fugas à polícia, situações em que estão rodeados de inimigos, é possível fazer com o cenário trabalhe para vocês. Aceder aos semáforos e baralhar o trânsito, subir pontes, estourar com tubos de vapor, controlar os comboios, abrir portões, levantar barreiras de proteção e espigões na estrada, enfim, os meandros do mundo aberto do jogo são acedíveis e moldáveis às vossas necessidades.

Como mencionei, isto ajuda a remediar as situações em que estão rodeados de inimigos, porém, o maior encanto desta versatilidade cenográfica está patente nas perseguições: em determinados momentos, podem conjugar alguns dos pontos mencionados e massajar o ego: deixar os carros da polícia empaleados contra as barreiras que emergiram do pavimento é satisfatório, assim como, por exemplo, aceder a um portão de uma garagem e esconder o veículo. Existem dois pontos que precisam de saber sobre estas mecânicas: o primeiro é que a bateria do vosso telefone não é infinita. O segundo é que uma boa fatia destas funcionalidades tem que ser desbloqueada e melhorada com pontos de habilidade que vão sendo adquiridos com a vossa prestação no jogo, subindo até ao nível cinquenta.

A Ubisoft dotou Watch Dogs com uma árvore de habilidades bastante intuitiva. Dividida em várias categorias, saberão quantos pontos de habilidade necessitam para a habilidade que querem desbloquear e, graças a um breve sumário, o que ela faz exatamente. Podem personalizar o vosso Aiden a vosso bel-prazer, ou seja, com uma progressão equilibrada ou apostando naquilo que acham mais útil, como o hacking, o combate ou a condução. Não esperem a reinvenção da roda, provavelmente já conviveram de perto com um sistema de progressão idêntico noutros videojogos. E já que estão centrados naquilo que podem melhorar, impera mencionar que neste jogo podem criar os vossos próprios itens. Recolhendo as peças necessárias podem aventurar-se em dar um toque caseiro ao vosso inventário, como por exemplo o Engodo, um dispositivo que emite sons e distrai a força adversária. Granadas, Engenhos Explosivos Improvisados ou Apagões, tudo pode ser desbloqueado e, posteriormente, criado pelo MacGyver de serviço.

Uma boa parte desta experiência advém das missões que vão completando para fazerem a narrativa avançar, pontos amarelos no mapa que é acedível com um toque no Touchpad do DualShock 4. Como noutros jogos em mundo aberto, também em Watch Dogs é aconselhável que conquistem as Torres ctOS para desbloquearem várias atividades secundárias nesse distrito do mapa. Quando começarem a investir o vosso tempo em Watch Dogs começarão a sentir um padrão: em muitos casos, o jogo coloca no vosso caminho uma área pejada de inimigos. Podem armar-se em Rambo e aniquilar tudo o que mexa, menos alguns alvos humanos precisam de capturar com o coração a bater e o sangue quente. Ou então, podem usar retirar partido das câmaras. Habitando num circuito fechado, depois de acederem à primeira, podem viajar digitalmente para a segunda e assim sucessivamente. Importa salientar que enquanto assumem o controlo das câmaras podem fazer hack na mesma, detectar quem tem o cartão preciso para avançar até à próxima fase desse trecho e continua a investir até que o objetivo seja concluído.

Lembram-se do dinheiro que foram roubando aos transeuntes? Dá jeito para comprarem armas e munições, caso optem pela via da força bruta. Como o procedimento à lá câmara rapidamente estagna, pessoalmente preferi combinar as duas vias. O sistema de combate é satisfatório, seja crivando os inimigos com balas ou recorrendo a lutas corpo-a-corpo que resultam, por exemplo, em Aiden dar uma carga de tareia recorrendo ao seu fiel bastão ou em execuções à queima-roupa que ajudam a perceber a classificação para maiores de dezoito anos que Watch Dogs ostenta na sua capa.

Algumas missões de Watch Dogs são genuinamente divertidas. Entrar numa prisão, escapar da cela, dominar tudo e todos, e fazer com que o nosso alvo escape com vida porque era esse interesse fez-me lembrar as missões mais inspiradas de The Getaway. Porém, a produtora também não se escusou a levar o seu jogo até ao ponto oposto, ou seja, até patamares em que nos questionamos como é que alguém pensou que aquilo não seria frustrante. Seja numa missão em que temos que aceder a três pontos no cenário para chegar a um ponto demasiado importante para eu desvendar aqui. Ou então, um jogo de câmaras levado à exaustão na missão "Bulldog da Avó". E porque não uma ação furtiva em que temos que seguir o nosso alvo pelos meandros do campo inimigo na missão "Não é trabalho para o Tyrone". O sistema de checkpoints de Watch Dogs é de um modo geral justo, mas nesta última missão mencionada temos que nos manter a uma certa distância de quem estamos a perseguir e passar discretamente por uma dezena de pares de olhos atentos.

Mas as missões principais são apenas um trecho bastante contido de tudo o que Watch Dogs coloca na mesa e, em muitos casos, nem sequer são o seu trunfo. As missões secundárias são tantas que é cansativo responder a tudo e a todos. Contratos de Mercenário onde temos que perseguir o condutor e fazer hack aos seus dados em movimento são dos géneros mais divertidos, até porque não estão restritas a perseguições automóveis, mas existem jogos de Realidade Aumentada, Apostas, Esconderijos de Gang, onde temos que intimidar os inimigos sem lhes deixar os miolos espalhados pelo cimento.

Uma destas secções secundárias dá pelo nome de Trips Digitais e é, indubitavelmente, o lado mais bizarro de Watch Dogs. Por exemplo, acedam a Madness e são colocados num jogo idêntico a Carmageddon em que têm que colher almas que, neste caso, são indivíduos de cabeças flamejantes que fazem lembrar Ghostrider. Ou então a Psychadelic, onde Pierce anda a saltar de flor em flor, apanhando anéis pelo caminho, num cenário que parece o cruzamento de um videoclip de Beatles com Nights.

E se tudo isto não bastasse, estamos constantemente a ser bombardeados com crimes detetados, aos quais podemos ou não responder. Apelando ao vosso lado de Justiceiro, são avisos que nunca param de chegar ao vosso HUD. É possível baixar a dificuldade de Watch Dogs para fácil, isolarmo-nos da atividade da cidade que nos rodeia, e dedicar os nossos esforços a chegar apenas ao final da história, todavia, isso será passar ao lado de uma boa porção do jogo, além de não conseguirmos reunir pontos de habilidade suficientes para melhorarmos Aiden condignamente.

Tudo isto é alimentado por uma jogabilidade interessante. Como já foi mencionado, os sistemas de hacking funcionam sem grande esforço do jogador, mesmo nos minijogos que nos colocam frente-a-frente com puzzles vocacionados para o uso da massa cinzenta, não há uma dificuldade assinalável. O sistema de combate é sólido e o uso das diferentes armas não transparece os automatismos associados, ou seja, é preciso algum talento, mesmo que melhorem a habilidade de abrandar o tempo. No âmbito do seu lado mais violento, podem pressionar o R3, fazer com que tudo se desenrole mais devagar e aproveitar essa manipulação para conseguirem três, quatro ou cinco tiros certeiros na cabeça, o que é ainda mais satisfatório se estiverem munidos de uma sniper.

Outro processo de jogabilidade preponderante na jogabilidade de Watch Dogs é a maneira como controlam os diferentes veículos que conduzem. Desde camiões lentos a carros desportivos velozes e frágeis, passando por barcos, motos e veículos genéricos, dominar o seu comportamento requer algum esforço e adaptação, mas deixou-me com a sensação que todos têm um determinado peso, ou seja, negociar cada curva requer alguma habilidade, puxar o travão de mão não é sinónimo de espetacularidade. De ressalvar que podem mudar a câmara para uma perspetiva interior de cada veículo, apesar de preferir a panorâmica tradicional.

Para complementar o conteúdo local, a Ubisoft dotou Watch Dogs de vários modos de jogo online. A mais popular e dinâmica são as invasões feitas por outros jogadores de carne e osso ao vosso mundo. Escondido num determinado ponto do cenário, uma circunferência no nosso mapa delimita a zona onde está o invasor, mas temos que ser nós a encontrá-lo enquanto vemos uma impiedosa barra de progressão avançar no nosso HUD. Ser invadido e invadir é interessante, mas não é a única vertente do multijogador em rede. Participei em várias corridas online que comportavam até oito jogadores em simultâneo e, mesmo com a sobrecarga nos servidores provocada por estarmos tão perto do seu lançamento, foi fácil lidar com a latência. Podemos ainda participar em perseguições de um contra um, exploração livre e em desafios ctOS Mobile. De ressalvar que descarreguei a aplicação iOS e a sobrecarga da rede era patente através dos erros uPlay. Porém, ainda assim foi-me possível controlar o helicóptero com o sniper e com um toque enviar carros da polícia para tentar por cobro às investidas do meu adversário de ocasião. Apesar de funcionar relativamente bem, acredito que é um complemento, nunca chegando a fazer afronta aos modos multijogador online principais.

Tecnicamente, consegui ver laivos do que outrora acreditou-se ser o grafismo do jogo. Não é. Neste ponto parece que temos dois jogos diferentes. Ocasionalmente, Watch Dogs relembra-nos que estamos a jogar numa consola que tem apenas alguns meses no mercado, especialmente de noite e quando chove em Chicago. O asfalto molhado, as poças de água acumuladas na berma da estrada e a roupa encharcada do protagonista são toques bem conseguidos, apesar de não serem capazes de fazer caírem muitos queixos.

Em condições normais, ora temos pormenores de luxo, como o efeito das explosões e, sobretudo, o fumo quando estouramos com um tubo de vapor; ora temos texturas retrogradas e caducas. A animação das personagens é interessante, a iluminação está bem conseguida e o balançar do casaco de Aiden quando está aos comandos de uma moto é fluído, mas no cômputo geral, não esperem encontrar aqui um encontro gráfico revolucionário.

O mesmo é aplicável à sonoplastia. À semelhança de outros jogos do género, podemos ouvir músicas nas estações de rádio, todavia, a sua variedade deixa algo a desejar, dando extrema importância ao botão para calar o que nos chega das colunas. O trabalho vocal das personagens é sólido, coerente e, sobretudo, credível. Kid Cudi, Weezer, Smashing Pumpkins, Alice Cooper e Vampire Weekend são alguns dos nomes mais sonantes que têm temas na banda sonora do jogo.

Watch Dogs não cumpre tudo aquilo que prometeu, mas ainda assim, a Ubisoft consegue entregar uma obra sólida e lançar os alicerces para o que deverá ser outra saga no seu catálogo. Inconsistências técnicas, uma mescla de missões com resultados variados e uma banda sonora aquém do que era esperado não são motivo para o ignorarem. Como nota de rodapé impera mencionar dois pontos: durante a minha estadia em Chicago, por três vezes um erro fez com que Aiden desaparecesse do cenário. A outra nota é para o excelente trabalho da Ubisoft em localizar a totalidade do texto para português, o que não deve ter sido tarefa fácil face a todos os perfis mencionados previamente na análise.