Dois dos principais fatores que mantêm uma piada eficaz são a sua longevidade e a sua repetição. What the Golf? é uma piada, uma visão jocosa do golfe, ou melhor, do que um jogo de golfe pode ser. A grande sapiência da Triband é a forma como vai edificando sobre essa piada, dando-lhe diferentes camadas e nuances com o acumular das horas.

Depurando o que temos à nossa frente, a essência da jogabilidade de What the Golf? começa por ser o apontar para onde queremos enviar a bola e determinar a força dessa pancada num medidor. Isto é o início, contudo, não são precisos muitos minutos para o jogador perceber que, afinal, a obra é uma compilação de mecânicas e de situações baseadas na física; não demora muito a começar a esboçar sorrisos, tal é o caricato de alguns níveis.

Avançando pelo cenário principal, um laboratório, deparamo-nos com áreas que para serem desbloqueadas precisam que o jogador realize os desafios a que acedemos acertando com o objecto que controlamos na bandeira. Na prática, estamos perante um cenário que funciona como um hub que contém o acesso aos níveis propriamente ditos.

Cada nível, além do desafio base, apresenta habitualmente desafios adicionais - realizem-nos e obtêm uma coroa dourada. Em determinados momentos, What the Golf? pede um determinado número de coroas para que a área seguinte seja desbloqueada, ainda que as mecânicas dos desafios complementares nunca sejam particularmente diferenciadoras das que lhes servem de base. Além disso, há certos níveis bónus ou secretos que também estão dependentes do número de coroas conquistadas.

É verdade que, ocasionalmente, há secções de What the Golf? com níveis demasiado parecidos entre si, o que pode provocar alguma fadiga se experienciarem a obra em sessões de jogo longas, todavia isso não afeta irreparavelmente o cômputo geral do jogo, que se consegue ir renovando as vezes suficientes para que o jogador tenha sempre curiosidade em descobrir o que estará reservado no nível e na área seguinte.

Há níveis em que é a personagem a ser atirada e não a bola, há outros em que é o medidor a ser atirado até ao buraco. Há também outros em que a bandeira se ri na vossa cara e se desloca pelo cenário. Jogar com uma jarra que se parte em vez da bola tradicional é também possível, tal como fazer um barril explosivo deslocar-se pelo cenário.

São mutações que vão fazendo o jogador compreender que What the Golf? é um jogo de golfe, mas apenas ocasionalmente. Continuem a acumular tempo de jogo e serão brindados com golfe fora do Planeta Terra, onde a gravidade tem um papel fundamental. Mais: golfe na primeira pessoa, que tem tanto de refrescante, como de frustrante graças à perspectiva oferecida.

Na prática, a Triband consegue surpreender e superar as expectativas do jogador inúmeras vezes, mudando as regras do desporto tantas vezes que acabamos por nos questionar sobre que desporto é que estamos mesmo a praticar, se é que algum. Isto porque há vários níveis em que, por exemplo, o golfe fica para trás e temos em mãos partidas de bowling, onde - como provavelmente adivinharam - as regras também são alteradas pela produtora.

Esta mudança dos parâmetros faz-se também notar quando estamos a consumir níveis que foram inspirados noutras obras jogáveis. Nomes como Super Mario, Donkey Kong e Flappy Bird estão entre as inspirações. Contudo, guardando os seus trunfos para além dos momentos iniciais, What the Golf? conta também com níveis inspirados em Portal e Superhot. Importa sublinhar que não, não são apenas piscares de olhos a nomes sonantes, mas sim propostas verdadeiramente consolidadas.

No caso de Portal, por exemplo, há a presença do cubo, da Portal Gun para abrir, bem, portais azuis e laranja. Quando o objetivo é alcançado, What the Golf? tem normalmente um trocadilho para o que acabou de acontecer e os níveis de Portal não são excepção - sim, incluindo o trocadilho “Golf is a Lie”. São pormenores, obviamente, mas que quando somados elevam o estatuto do jogo muito acima de uma piada fácil a um género.

No caso de Superhot temos pela frente alguns dos níveis mais inspirados do jogo. Não só o grafismo muda completamente para estar alinhado com a obra da Superhot Team, como as tacadas estão dependentes da manipulação do tempo, assim como as balas disparadas pelos inimigos e aquelas que disparamos depois de apanharmos um taco. E quando chegamos ao objetivo ouvimos com o tom icónico de Superhot as palavras “Super Putt”.

Obviamente que a profundidade da jogabilidade nunca chega aos jogos dedicados ao desporto, mas essa nunca foi a proposta de What the Golf?, ou seja, inserindo-se muito mais no campo de uma coleção de minijogos, derradeiramente o seu trunfo é, não só as novidades que vai colocando no cesto da jogabilidade, mas também a cadência com que o faz. O jogador sente claramente que a produtora não tem qualquer tipo de obrigação para com um género, o que lhe permite, por exemplo, colocar um nível onde atiramos setas a um alvo, efetivamente surpreendendo o jogador, ou outro em que jogamos como os halteres que têm que ser atirados certeiramente para os braços do culturista.

O jogo está publicado no PC (Epic Games Store) e no Apple Arcade, tendo ainda lançamento planeado para a Switch. Fica apenas uma nota complementar sobre a versão PC, plataforma onde o joguei. Ainda que obviamente suporte o controlo com o rato, fica o conselho que a jogabilidade é consideravelmente mais fluida se ligarem um comando ao computador, pois o analógico facilita a direção dada ao item que estão a atirar.

Tecnicamente, What the Golf? foi desenhado para ser uma operação de charme. Sim, há níveis que quebram a norma, mas de uma forma geral temos pela frente cenários em tons pastel, com personagens, objetos e “criaturas” que sem precisarem de texturas realistas denotam carisma e enquadram-se bem no quadro que a casa dinamarquesa quer pintar.

E no que à sonoplastia diz respeito a história não é muito diferente. A música principal está lá para embalar a estadia, enquanto que os destaques são os efeitos sonoros, que fazem a desilusão sentir-se quando falhamos um desafio ou a chacota quando uma bandeira se ri enquanto se vai movimentando pelo cenário. A palavra que melhor define o aspecto técnico do jogo é “coesão”.

What the Golf? não quer ser o melhor jogo do ano, mas será o melhor jogo de um fim de semana para muitos jogadores. Há dezenas de níveis para serem concluídos, há desafios diários para quem quiser tentar a sua sorte na tabela da liderança. Por muito que possa parecer na teoria, graças a uma equipa sem medo de experimentar algo novo e a uma dose consistente de criatividade, não estamos perante uma piada repetida até à exaustão.