Where the Water Tastes Like Wine cativará ou perderá os jogadores imediatamente após apresentar o seu conceito de jogo. Uma obra sobre contar histórias, sobre a forma como elas são uma maneira de traduzir em palavras conjugadas o nosso estado de espírito, a nossa vida e, porventura, até quem somos. Um título fascinado pela capacidade dessas mesmas histórias ganharem vida própria e se irem mutando, adaptando ou ganhando novos significados à medida que vão sendo partilhadas e propagadas muito depois da narrativa original ter chegado aos ouvidos da primeira pessoa.

Water Like Wine Imagens Analise

Seguindo a máxima de que “quem conta um conto acrescenta um ponto”, a experiência criada pela Dim Bulb Games está no seu melhor quando se foca nessas mesmas histórias, na maneira como nos faz assumir o papel principal, secundário ou de mero observador nas mesmas, na forma como nos mostra, após a sua partilha original, essas histórias a crescer para proporções épicas e não raras vezes inacreditáveis, chegando aos mais variados cantos do mundo e seguindo a lei da multiplicação.

Assumindo o controlo de um vagabundo, um estranho encontro com um lobo durante uma partida de Poker de desfecho desagradável para os nossos lados incumbe-nos com a tarefa de percorrer os Estados Unidos, recolhendo e partilhando histórias, aprendendo com elas e retirando as respetivas ilações pertinentes. As histórias são muitas - 219, para ser exato - e encontrá-las a todas envolverá uma longa viagem pelos mais diversos Estados do território americano em plena era de depressão económica.

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Descobrir estas histórias é aquilo que de melhor o título tem para oferecer, histórias demasiado reais, histórias macabras, histórias bastante romantizadas, histórias mirabolantes, histórias de terror clássicas, histórias surpreendentemente simples, histórias surreais, enfim, há um pouco de tudo nestas mais de duas centenas de histórias contadas através de vinhetas narradas na perfeição por um narrador que nos cativa com a entrega deliberada de todas as linhas de texto.

Apesar de, no que ao design da obra diz respeito, estas histórias serem secundárias às que vão obter através das 16 personagens com quem vão interagir ao longo da aventura, argumentaria que são elas o fio condutor de toda a experiência e a principal razão pela qual os problemas da obra não são tão notórios. Se tivéssemos de definir um objetivo final à aventura de Where the Water Tastes Like Wine, esse seria o completar das histórias desses 16 indivíduos, todos com algo diferente para nos oferecer, escritos por autores distintos e com visões e experiências de vida muito pessoais.

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Contudo, esse objetivo final é a origem do ponto mais fraco do jogo, isto é, a forma como utiliza as histórias recolhidas para fazer progredir as interações com as personagens de maior relevo. Mesmo com uma escrita excelente e uma vocalização de qualidade, o sistema de progressão da obra, embora interessante, acaba por reduzir histórias espectaculares e recheadas de nuances a uma frase que tem depois de ser utilizada como peça para resolver um puzzle.

Durante estas conversas, as personagens pedirão ao jogador para lhes contar um tipo específico de história - esperança, assustadora, triste ou engraçada, por exemplo -  e é aqui que os problemas de execução do título começam a surgir. Primeiro, porque em muitos casos a ambiguidade é tal que se torna difícil encaixar uma história específica numa única categoria. Depois, há o problema das novas versões da história que, não raras vezes, mudam por completo o tipo de história em questão, embora o jogo nunca o reconheça, ou seja, uma história que começou por ser engraçada, continuará a ser engraçada independentemente das transformações que sofra no futuro.

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As histórias estão divididas através do seu tema representado por cartas de tarot, sendo que cada tema tem contos de vários tipos. Isto é importante, pois o tema da história que escolherem contar despoletará uma resposta diferente da personagem em questão e dar-vos-á informação distinta sobre a vida da mesma. Infelizmente, à medida que as horas vão avançando, damos por nós a usar sempre as mesmas histórias para progredir mais rapidamente a interação com as personagens, o que não só significa que nunca ouviremos as restantes histórias crescer e propagar-se e que as conversas vão girar sempre à volta dos mesmos temas, ainda que, obviamente, com perspetivas distintas.

Ainda assim, a principal falha de Where the Water Tastes Like Wine prende-se com o facto de não conseguir criar uma real sensação de conversa. Ao reduzir as histórias a uma única frase e ao entregar-nos reações que se repetem e não se adaptam ao conto em questão, estas interações transformam-se mais em monólogos do que outra coisa. A transição pouco suave entre a entrega de informação nova por parte de determinada personagem para o próximo pedido de história, que também ele é repetido em demasia, é outro aspecto que quebra um pouco a imersão e o objetivo da obra.

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Tendo necessitado de mais de 20 horas para encontrar 216 das 219 histórias espalhadas pelo mundo e para completar as interações com as 16 personagens, parece-me claro que o título da Dim Bulb Games sofre devido ao muito conteúdo que tenta entregar. Esse muito conteúdo faz com que as algumas personagens não tenham praticamente tempo para se destacar e, como já referi, com que a experiência pareça em várias ocasiões demasiado mecânica, relembrando-nos que, afinal de contas, estamos mesmo a jogar um videojogo. Pior ainda, um videojogo com sistemas bastante fáceis de identificar e abusar. 

Por exemplo, uma história que alguém poderá achar engraçada outros poderão achar uma estupidez pegada, mas isso não acontece aqui. Todas as personagens encaram a mesma história da mesma forma, o que aliado ao que já disse em relação aos diferentes tipos de contos, faz com que o processo seja demasiado previsível. Evitar esse problema provavelmente iria obrigar a uma redução significativa na dimensão do título, mas não sei se isso não teria sido uma estratégia melhor para que a visão original tivesse uma execução mais apropriada.

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Juntamente com a excelente escrita e a vocalização de qualidade por parte de nomes bem conhecidos da indústria, esta obra tem também no seu departamento visual um dos seus maiores trunfos. Apresentando as suas vinhetas e personagens através de visuais pintados à mão, que combinam rabiscos pouco precisos com pinceladas soltas, esta é uma obra esteticamente apelativa e que consegue adotar um estilo visual perfeito para a sua temática. Por sua vez, a navegação é feita em 3D num mundo pouco detalhado e poligonal que tem o condão de retratar a solidão de percorrer sozinho um país inteiro. A banda sonora folclórica também encaixa na perfeição no título, embora após as várias horas de jogo, acabe por cair em repetição.

Where the Water Tastes Like Wine não é uma tentativa completamente falhada daquilo que tentou oferecer porque a qualidade da escrita e a variedade de histórias está bem presente durante as suas várias horas de duração, contudo, a execução falha em alguns elementos chave que impedem o jogo de concretizar verdadeiramente o seu objetivo. Dito isto, os fãs de aventuras narrativas encontrarão aqui muito para apreciar, nomeadamente uma escrita de excelência que é suportada por visuais, narração e vocalização igualmente impecáveis.