Focando-se em quatro personagens diferentes, a história de Wide Ocean Big Jacket quer remeter os jogadores para diferentes momentos das suas vidas. Terminei a proposta da Turnfollow em duas sessões de jogo, mas ficou comigo a persistente sensação de ter testemunhado personalidades que ficaram bem entregues a si próprias depois dos créditos finais terem aparecido no ecrã.

Tudo começa quando as quatro personagens estão prestes a embarcar num fim de semana de campismo. Mord é uma pré-adolescente que parece ter resposta para tudo, nem que para isso solte uma piada ou mais uma tirada que não faz grande sentido numa primeira leitura. A fazer-lhe companhia está Ben, um amigo especial que ainda tem uma existência patrocinada pela inocência.

A tomar conta das duas personagens mais novas estão Brad e Cloanne, descritos como “tio” e “tia”, um casal que representa o lado adulto no videojogo. Cada um dos quatro consegue emprestar a sua personalidade para que a dinâmica seja fluida e para que o jogador continue investido no crescimento coletivo. Wide Ocean Big Jacket não só é exímio a criar esses laços, como dá espaço para que cada um retire algo deste campismo.

Os processos de jogabilidade assentam sobretudo na condução das personagens pelos cenários. Interagir com um objeto, mas sobretudo com as outras personagens, faz com que apareça no ecrã um fundo negro onde podemos ler os diálogos. Como qualquer outra obra que dependa tanto do texto, Wide Ocean Big Jacket usa a sua escrita como um trunfo, tanto nos trechos mais humorados, como nos momentos em que as conversas são sérias.

Para compreenderem melhor o alcance da obra precisam de ter sempre presente que um dos seus maior propósitos é relatar dois grupos de pessoas que estão, em última análise, a descobrir as suas relações. Mord e Ben começam a despertar o seu lado amoroso, parando as vidas para trocar o primeiro beijo. Mord, durante uma longa noite, questiona Cloanne sobre o despertar para as relações sexuais - o momento certo, a pessoa certa, a abordagem.

Cloanne e Brad também lidam com os seus próprios problemas. Ainda que há superfície sejam um casal na flor da relação, a presença de crianças na sua viagem conduz a uma conversa sobre eles mesmos terem filhos. E isto leva a que o jogador fique a saber que este assunto é antigo no seio do casal, uma vez que a mãe de Brad começou a fazer pressão sobre os filhos do jovem casal no dia do seu casamento. Uma pressão tão acutilante que levou Brad a ceder e a fazer a vontade à sua mãe com um pouco definitivo “talvez”.

Durante estes vinte capítulos, Wide Ocean Big Jacket mostra que tem coração e um ritmo impressionante na escrita. Além dos diálogos, a Turnfollow consegue dotar o seu curto jogo com cenas memoráveis. Ben e Mord sentados na praia perto do acampamento a olhar o oceano, prometendo regressar mesmo que sejam velhos e se odeiem; mesmo se Mord estiver demasiado ocupada e for famosa e porreira. A contextualização da cena demonstra a inocência das promessas feitas na pré-adolescência e a predisposição para se adivinhar o futuro de olhos e braços abertos.

Noutro momento, Ben, sempre agradecido pela oportunidade de participar nesta aventura, diz que está a viver “uma pequena vida” este fim de semana, como se a grande vida dele continuasse lá fora à sua espera e esta existência fosse uma versão “condensada”. É preciso talento para dar a uma personagem desta idade tiradas que não sejam fora do seu carácter, mas que deixem qualquer um a pensar. Ben que, importa acrescentar, conta uma história com ratos num lava-louça que é simplesmente aterrorizadora.

Vinhetas como esta ajudam a que as personagens cresçam aos olhos de quem joga, tornam-as humanas, capazes de nos transportar para as nossas noites de verão em que debatemos pela noite dentro o resto das nossas vidas. O final fecha este fim de semana com a certeza de que foram dias de evolução, verbalizando aquilo que para cada um foi o acampamento ou, mais concretamente, o que foi o acampamento graças a determinada pessoa.

Este crescimento acontece em tons pastel. O local principal onde está colocada a tenda é ladeado por árvores e algumas rochas. É acolhedor para quem joga e, imagino, para quem está lá a conhecer-se. Há caminhos circundantes, sobretudo vários tons de verde, o amarelo da areia na praia e no caminho onde caminham Ben e Mord acompanhados por um ribeiro. Não é uma obra complexa tecnicamente, aliás, a deslocação e a animação das personagens são facilmente identificáveis como rombas.

Há uma cena que ainda tenho gravada na memória da Switch. O sol está a pôr-se, os quatro estão sentados à lareira, Glowbones (um esqueleto que brilha no escuro para indicar onde fica a tenda) está num canto. O céu ilustrado num degradê que vai de roxo a laranja; o fogo forma um círculo iluminado onde cabe o quarteto a conversar. Quero acreditar que está ameno, tanto o clima como as personalidades.

Wide Ocean Big Jacket é curto e não oferece desafio; é também rombo na forma como faz as personagens deslocarem-se. Contudo, os dois membros da Turnfollow entregam também uma obra honesta na história que quer contar e sincera na forma como o faz. O tempo com Mord, Ben, Brad e Cloanne é suficiente para que seja edificado um espelho, quase levando o jogador para aquela viagem de campismo. Sai de cena cedo, mas sem pressa; sai de cena para deixar saudades.