Perdemos a inocência facilmente em WipEout. Minutos dão lugar a horas e sente-se a ignição do sistema nervoso. Era bastante mais novo quando experimentei a série pela primeira vez, mas ficaram impressos dois pontos na minha memória: a velocidade e os picos de uma ira apaixonada. Agora estamos em 2017. Mudou a consola, mas essas características estão presentes em WipEout Omega Collection como uma impressão digital.

Para os mais distraídos, Omega Collection chegou em junho à PlayStation 4 e é composto por três jogos da série, nomeadamente, WipEout 2048, WipEout HD Fury, e WipEout HD. Depois de lhe ter dedicado tempo nas últimas semanas, importa desde já salientar que é uma coleção que prima pelo conteúdo que coloca num único disco ou download. São mais de 20 pistas e mais de 40 naves no que pode ser descrito como uma carta de amor a uma série que há muito não tinha nada para dizer à sua legião de fãs.

Imagens Analise WipEout Omega Collection

Escrevo o cliché “carta de amor” porque além do extenso conteúdo, há também o tratamento técnico, que leva o grafismo até uma resolução 4K e suporte HDR se tiverem comprado uma PlayStation 4 Pro e tiverem um ecrã compatível, além de melhores texturas e, por exemplo, efeitos de iluminação, o que na prática resulta numa experiência cuidada, capaz de não quebrar a imersão com componentes técnicas datadas.

Não, nunca me pareceu que estava perante um trio de obras criadas de raiz para a consola caseira da Sony, contudo, importa não esquecer que, além da PlayStation 3 com HD e Fury, a matéria-prima desta coleção chegou também da PlayStation Vita, pois convém não esquecer que 2048 foi publicado em exclusivo na portátil da Sony.

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Dada a índole futurista de WipEout e o seu grafismo polido, é possível que se pense que estamos perante uma coleção de demonstrações tecnológicas, o que é completamente errado. Sim, o cerne da série são as corridas em pistas antigravidade a altas velocidades e sim, o grafismo é vocacionado para destacar esse futurismo, mas são jogos com muito coração.

A jogabilidade foi e é um dos pontos positivos. São corridas de estilo arcada com várias nuances entre os títulos, algo que é fácil de testar agora que temos três títulos lado a lado. É como se todos os jogos pertencessem à mesma espécie, mas com DNA diferente. Isto faz com que o aborrecimento se instale de forma espalhada pelos três jogos, ou seja, não é como se estivéssemos perante um longo WipEout contínuo.

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Há power-ups espalhados pelas pistas, há zonas que nos dão armas que podem ser usadas com o timing perfeito para nos dar a vitória, como por exemplo a Plasma, que pode também ser reciclada para nosso bem imediato, entenda-se dá-nos energia para atrasar - ou evitar - a destruição da nossa nave. São os meandros desta estratégia que torna a jogabilidade sobre a habilidade de cada um, claro, mas que não esquece a inteligência associada à estratégia.

WipEout Omega Collection funciona bem porque a conjugação dos títulos incluídos complementa-se sem se anular. Por exemplo, há modos que foram lançados progressivamente ao longo da série e que aqui estão disponíveis com os restantes, modos como Zone e Detonator, assim como Elimination. São incontáveis provas em incontáveis modos distintos, ou seja, não é uma coleção que se termine em dias, especialmente se quiserem obter todas as medalhas.

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Estes modos têm um impacto na jogabilidade, obviamente, obrigam o jogador a estar sempre desperto. A melhor palavra que encontro para descrever a jogabilidade é “astuta”. Misturando os power-ups com a velocidade e o design das pistas têm-se um desafio praticamente constante. O meu problema com estes processos está relacionado com a agressividade da Inteligência Artificial dos adversários e com algum efeito rubber band

Com o avançar do tempo e consequente desbloqueio de eventos, torna-se frustrante perder uma liderança construída a pulso. É óbvio que chegar a líder não é sinónimo de ganhar uma corrida, porém em alguns casos é escusada a agressividade demasiado aguerrida, assim como a forma como um ou dois toques no cenário equivalem a uma recuperação milagrosa dos adversários. Em diversos momentos perdem-se corridas por falta de habilidade, mas noutros sente-se algum prejuízo exagerado.

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A sensação de velocidade é impressionante durante os vários modos, mas permitam-me algumas palavras sobre o Modo Zone. Nesta variante a velocidade vai subindo gradualmente consoante a vossa prestação: aguentem mais tempo na pista e a velocidade aumenta. Parece - e é - simples, se não tivermos em consideração o quão difícil são as velocidades mais rápidas. Quando chegarem à velocidade Phantom, as pistas que conhecem e que aqui são reutilizadas passam a ser um festim de reflexos e de gráficos distorcidos. Novamente: isto atesta o quão diferentes são os moldes da jogabilidade e repudia a ideia de que é tudo igual em WipEout.

Mas por entre arrufos e a vertigem da velocidade somos enaltecidos a melhorar aquilo que somos capazes de dar ao jogo, com este quase sempre a retribuir-nos a paciência e o empenho. É um daqueles videojogos que não nos trata - nunca nos tratou - com palmadinhas nas costas e numa recompensação artificial, leia-se, uma recompensação apenas por termos tentado, apenas por termos empregue o nosso dinheiro na sua compra.

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Mesmo nos momentos em que as pistas se tornam abismos e em que os pilotos nas outras naves desenvolvem-se génios aos seus controlos, mesmo aí, é sempre dada a ponta da corda para o jogador se agarrar à esperança do ouro, à esperança que não vamos ficar para sempre na segunda metade da tabela. No momento podemos proferir palavras menos agradáveis, mas sabemos lá no fundo que muito pouco neste conjunto de jogos é impossível.

E quando nos cansarmos de levar uma tareia a solo podemos optar por levar uma tareia no multijogador. Há as badges que recompensam as nossas conquistas e nos vão elevando o rank, mas o sumo está obviamente nos confrontos com outros jogadores de carne e osso. Felizmente é possível escolher o tipo de prova, o que é óbvio, mas é também possível escolher a classe, ou seja, não necessitam de competir com jogadores mais ou menos habituados a estas andanças.

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É um bom complemento que nunca me deu grandes dores de cabeça na componente técnica, ou seja, mesmo a voar baixinho, a latência nunca me prejudicou. É possível, tal como a solo, ligar a assistência de pilotagem, caso ainda estejam a habituar-se às mecânicas e, caso sejam mais pacifistas, podem jogar sem armas - ideal para não terem mais uma desculpa face à eventual derrota.

Em termos estéticos, é impressionante como estas obras são revigoradas, especialmente Fury. Além do néon e dos efeitos da deslocação das naves, a forma como as texturas foram melhoradas para enquadrar tudo isto deixa os jogadores que cresceram com estas obras com novas memórias em alta definição. Aqueles que chegam ao mundo de WipEout pela primeira vez com Omega Collection também não sentirão que estão a jogar numa consola da geração anterior. E isto também é válido para a modelagem usada nas próprias naves, o que enaltece o design original.

Imagens Analise WipEout Omega Collection

A fluidez dos sessenta fotogramas por segundo deixa estas metrópoles passarem a voar enquanto nos ouvidos ecoam as batidas da banda sonora ideal para este tipo de jogo. Com nomes de onde se destacam Prodigy e Chemical Brothers, está longe de ser o meu género de música de eleição, mas sente-se que encaixa como uma luva nesta febre futurista. Nem que seja por uma vez, é obrigatório que experimentem WipEout com auscultadores, que experimentem a batida até à ponta dos dedos que trabalham horas extraordinárias para aprenderem todas as curvas e contracurvas das pistas, enquanto desviam a nave bruscamente para tentar mandar o adversário contra o cenário.

WipEout Omega Collection é uma recomendação facilima. Dada a qualidade geral das obras que repesca para a PlayStation 4, seria preciso muito para não ser uma bolha de oxigénio para os fãs que esperam - e desesperam - pela chegada de um novo jogo feito de raiz para a atual consola caseira da Sony. Quantidade não quer dizer qualidade, mas neste caso estamos perante a junção das duas. Os veteranos podem reviver memórias e criar novas; os que agora chegam à série não terão a nostalgia, mas terão finalmente uma excelente oportunidade para perceberem o amor que tantos têm por estas naves, por este extenso lote de naves onde no fim a Piranha continua a ser a preferida de muitos.