Wolfenstein 2: The New Colossus é uma viagem que não poupa o jogador. São vários os momentos implacáveis, momentos que resultam em conjunto: primeiro subjugam quem vê -  seja pelo que é feito ao protagonista, aos que ama, ou à humanidade em geral - para depois soltar a vingança e a luta pela liberdade e pela igualdade. Essa libertação, contudo, é edificada em muita, muita violência.

O protagonista volta a ser B.J. Blazkowicz e logo no primeiro momento do novo jogo da MachineGames há uma declaração de intenções: atirando a ação para um flashback, o seu pai mostra-se abusivo, racista, homofóbico, violento - para o filho, para a esposa, e para Bessie, a cadela da família. Foi a forma da produtora dar imediatamente um motivo ao jogador para sair da linha de partida com os dentes cerrados e com os dedos nos gatilhos.

Haverá mais flashbacks ao longo da narrativa, mas no presente, The New Colossus continua os eventos de The New Order, com Blazkowicz a começar a sua caminhada em mau estado, ou seja, é um herói que depende dos outros antes que os outros dependam de si. É o Kreisau Circle que o ajuda no início da sua recuperação - não é à toa que começamos esta aventura numa cadeira de rodas e que é o próprio Blazkowicz a mencionar incontáveis vezes durante a campanha que tem os dias contados.

Imagens Analise Wolfenstein 2

Se os minutos iniciais são uma declaração de intenções, o resto do jogo são um pastiche de secções imponentes que servem para ilustrar uma narrativa que sabe perfeitamente quando desafia a lógica e se aproxima do absurdo. E escrevo que o sabe porque estes momentos são sempre contrabalançados com cenas emotivas e com partes dominadas pela injustiça e pelas atrocidades Nazi.

A antagonista de The New Colossus é o perfeito exemplo de uma mesclagem de caricatura e de comportamentos que não devem ser encarados com leviandade. Desde uma decapitação no arranque, à forma como enxovalha a sua filha, gozando da sua obesidade e usando termos homofóbicos. A antagonista é a General Irene Engel e se faz isto à sua própria filha, o que fará a quem não tem o seu sangue nas veias?

A resposta não demora muito a ser dada. Engel, além das ações repugnantes, tem na postura e no discurso o desprezo total pela vida. Claro que não faz a opressão de um povo sozinha, pelo que Blazkowicz terá um mar Nazi pela frente, abatendo hordas de inimigos, cortando-lhes os membros, abrindo buracos na cabeça, deixando um rasto de entranhas por cenários pintados de encarnado.

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Montado o quartel-geral no Evas Hammer, um enorme U-Boat que podemos explorar, visitar a carreira de tiro, falar com os membros que vamos recrutando para a revolução, alimentar Rosa, a porca, com batatas, ir à cantina e jogar Wolfstone 3D - sim, uma “versão” de Wolfenstein 3D - medir a habilidade na Killhouse, participar em missões secundárias, enfim, montando quartel na nossa casa temporária vamos visitando vários cenários à procura de um resto de esperança para os momentos finais.

Alguns destes locais são Manhattan, Roswell, Nova Orleães, entre outros que podem estragar a surpresa. O jogo ganhou uma carga política com os recentes eventos que se têm vivido um pouco por todo o lado, mas especialmente nos Estados Unidos. Todos estarão a par do que aconteceu em Charlottesville. Querendo ou não, são ações no mundo real que deram uma nova carga política a Wolfenstein 2.

É verdade que ocasionalmente, nos momentos mais ridículos, o jogo perde um pouco o contacto com essa mensagem. Contudo, há aqui secções onde a ostracização - e a forma como a MachineGames lida com ela - provam que o jogo tem algo a dizer. Estamos a falar de um videojogo e não de um documentário, mas há aqui provas claras que os videojogos podem usar o meio em que estão inseridos para ter voz.

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The New Colossus consegue um bom equilíbrio: tão depressa somos confrontados com o racismo e a homofobia, como estamos a correr com matéria nuclear às costas; tão depressa estamos montados num enorme cão metálico, como vemos Anya, a mulher que está grávida de gémeos de Blazkowicz, nua da cintura para cima empunhando duas armas enquanto chove sangue.

Esta parte é um grito de revolta e a nudez não está lá de forma gratuita. Este grupo sabe que não tem as melhores hipóteses do seu lado; sabe que depende apenas de si e de quem vai conseguindo recrutar. As forças Nazi conquistaram a América e são donos e senhores de tudo, alterando a realidade na televisão como bem lhes apetece. Cada pequena vitória é um grande triunfo. Esta cena com Anya acontece já perto do final do jogo e é, em cima do Blazkowicz, o tal grito de quem sabe que a sua fação causou dano assinalável do outro lado da barricada, o lado que calca e esmaga o humano por prazer.

Wolfenstein 2: The New Colossus vive muito de grandes momentos, contudo, há um encanto próprio em jogar com calma. Um exemplo disso são as conversas que se podem escutar. A bordo da Hammer, Set Roth, o cientista, e Sigrun, a filha de Irene que insiste em não ser chamada Nazi, têm uma interessantíssima conversa que acaba com Sigrun a cantar a plenos pulmões. Esta calma entre explosões que enchem os olhos merece ser explorada. 

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É possível terminar o jogo em muito menos tempo, mas demorou-me quase vinte horas a ver os créditos - e além deles. O jogo é grande e não termina aqui, sendo possível continuar a jogar. Até ao final, porém, há incontáveis formas de matar Nazis. Na sua essência é um Atirador na Primeira Pessoa, claro, mas os mapas são generosos e permitem várias abordagens, recompensando inclusivé quem apostar no aspecto furtivo, pois soam menos alarmes.

Mas mesmo atacando os inimigos sem dó nem piedade, o leque de armas é longo e há ainda as Contraptions, melhorias ao corpo de Blazkowicz que têm tanto de útil como de cómico. Inicialmente é apenas possível instalar uma, mas explorem os Districts e é possível encontrar as restantes duas. Ram Shackles permite derrubar parte dos cenários e inimigos quando se está a correr; Battle Walker são andas metálicas que permitem a Blazkowicz elevar-se, chegando a partes mais altas dos cenários e atacando os inimigos de um ponto superior; e Constrictor Harness que comprime o torso do protagonista, permitindo-lhe despistar os inimigos enquanto se esgueira por partes apertadas dos cenários.

No campo bélico, desde pistolas a caçadeiras, passando por metralhadoras e armas pesadas, que necessitam de energia e de combustível em vez de balas, podem ir variando o estilo de jogo, adaptando-o a cada horda de inimigos. Praticamente todas as armas são satisfatórias na hora de puxar o gatilho, mas a Dieselgewehr é aquela que mais me satisfez. Importa ainda mencionar que é possível recolher colecionáveis que permitem melhorar a maioria das armas em três pontos distintos.

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E como se não bastasse, há ainda três tipos de Perks: Furtivo, Táctico e Caos. Cada um tem vários campos e cada campo é composto por vários níveis de Mastery. Sempre que fizerem um determinado número de tiros na cabeça, por exemplo, sobem um nível de Mastery e recebem um Perk. Depois de mais de 100 tiros certeiros na cabeça, no meu caso a recompensa de passar para Mastery 5 será um aumento no dano infligido quando é usada a mira. Cada um dos três tipos contém 6 campos diferentes, ou seja, há muito para dominar.

Wolfenstein 2: The New Colossus é um jogo que instiga e recompensa quem explorar todos os seus recantos. Não só tem incontáveis colecionáveis (Starcards, brinquedos do Max, arte conceptual, discos, Gold), como contém ainda Deathcards. E isto é um daqueles processos que prolonga consideravelmente a longevidade da obra de uma forma muito satisfatória.

Quando matam Comandantes nos vários níveis enfraquecem a força dessa secção e evitam que sejam chamados mais reforços. Contudo, quando os matam, junto do seu corpo fica uma Enigma Card. E as Enigma Cards podem ser usadas na Enigma Machine para decifrar a posição dos Übercommanders nos já mencionados Districts.

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Acedendo à Enigma Machine na Evas Hammer participam num minijogo em que têm que fazer coincidir os símbolos. Quando o fizerem, o seu local é decifrado e podem visitar um District num cenário já visitado. Contudo, como estes locais precisam de Enigma Cards, é um excelente incentivo para abaterem todos os Comandantes, participando de forma mais activa e cuidada nos combates. Um enorme Killing Board mostra quem já foi abatido, o que é particularmente recompensador.

Esta jogabilidade propícia à diversão é alicerçada por um excelente design de níveis. Seja percorrendo uma Manhattan transformada num labirinto de escombros, seja nos túneis de metro que fazem fazem lembrar, bem, Metro - o jogo -, seja em Nova Orleães, ou em direção à Area 52, enfim, a complexidade dos cenários permite uma exploração que nunca se torna se cansativa.

Não quero dizer que ocasionalmente não se sinta que estamos a lutar de horda em horda de inimigos, mas esses momentos são raros, pois não só os inimigos são diferentes e apresentam uma modelagem sólida, como o jogo faz questão de não se repetir em demasia. Ainda que a segunda parte seja ainda mais intensa, não é um jogo que começa propriamente de forma morna.

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Jogado numa PlayStation 4 Pro ligada a uma televisão 4K, tecnicamente a MachineGames fez um excelente trabalho. Tendo regressado a Old Blood recentemente para preparar o lançamento de The New Colossus, nota-se claramente um salto na fidelidade gráfica, com as vistas a serem quase sempre impressionantes. Desde o quadro geral ao pormenor, algo em clara evidência na Evas Hammer.

E na sonoplastia o caso não muda de figura, especialmente pelo excelente trabalho de vocalização. Brian Bloom faz um bom trabalho como Blazkowicz, tal como Alicja Bachleda com a voz de Anya. Contudo, o destaque é Nina Franoszek como Irene Engel. Muito da edificação da personagem deve-se ao argumento, contudo, a forma como Franoszek entrega as linhas de diálogo elevam e muito o trabalho de escrita. É uma vilã que se odeia profundamente desde o primeiro momento que aparece no ecrã, ódio que só aumenta até ao final do jogo.

Tecnicamente bem conseguido, com uma campanha grande que não se arrasta, Wolfenstein 2: The New Colossus é um jogo frenético que equilibra bem os vários aspectos do ser humano. Tem tempo para nos fazer rir, para nos fazer emocionar e para nos irritar e repugnar profundamente. Não é um sermão sobranceiro nem se esconde na hora de lidar com os Nazis em 2017. É verdade que não tem multijogador, mas não é um requisito obrigatório em todos os videojogos, certamente não o é neste.