Pedro Martins por - Aug 6, 2019

Wolfenstein: Youngblood – Análise

Quando Wolfenstein 2: The New Colossus chegou ao mercado conquistou uma legião de jogadores. Tal como eu, muitos foram os que elogiaram a tenacidade da sua história e uma antagonista memorável. Agora a novidade da Machine Games é Wolfenstein: Youngblood, título com algumas valências próprias, mas que não entra no panteão da série.

O tema, como não poderia deixa de ser, volta a ser o nazismo. Youngblood transporta os jogadores até ao ínicio da década de oitenta. Hitler morreu graças aos esforços de B.J. Blazkowicz, habitual protagonista da saga e pai das irmãs gémeas Jess e Soph. A obra arranca com o fortalecimento da união familiar entre os Blazkowicz. Ainda que o Texas esteja a gozar de dias de liberdade, a Europa ainda não teve essa sorte – motivo que leva B.J. a tentar resolver o problema novamente com as suas mãos.

Não demora muito até que o decorrer dos eventos se complique. As notícias sobre a deslocação ao velho continente não chegam e o FBI não está interessado em procurar o paradeiro do herói. O jogo compreende que está encontrada a desculpa para mudar o foco do protagonismo para as irmãs Blazkowicz, que partem numa aventura juntamente com Abby, filha de Grace Walker, uma das figuras em destaque em The New Colossus. A motivação é descobrir o que é que o seu pai está, afinal, a fazer.

À sua espera na Europa está Neu Paris, uma versão da capital francesa onde as suásticas ainda abundam orgulhosamente em praticamente todos os edifícios e bandeiras. Por aqui, as mentalidades ainda valorizam a sombra deixada pelo Terceiro Reich. Ainda que seja um argumento que promete bastante nestes momentos, não tem a pujança das entradas anteriores da série, facto que fica evidente com o decorrer dos eventos e no vilão que está presente no final do jogo.

É verdade que as irmãs têm um argumento que lhes dá a irreverência própria da idade e uma visão bastante deturpada dos perigos, ou seja, não têm um segundo pensamento antes de enfrentar tudo e a todos. A história tenta, desesperadamente, encontrar um antagonista, provando que afinal estamos perante uma obra que não consegue viver apenas da busca por um homem – uma obra que, é de destaque, chega com alguma facilidade às quinze horas de longevidade.

A reviravolta que serve para apresentar o vilão numa revelação das identidades verdadeiras de algumas personagens está bem conseguida, mas não só deixa de ser um dos caminhos mais fáceis, como a escrita não tem força para dar profundidade e interesse a um vilão que parece sempre forçado até às várias fases que compõem o confronto final. A teoria apresentada pelo argumento é que o seu planos passam pela criação de um Quarto Reich, continuando desta forma o trabalho de Hitler.

Quem não está para aturar isto são as gémeas Blazkowicz, fazendo tudo o que podem para o evitar num recta final assente então nestes dois focos. Depois de ter terminado a aventura, fica a sensação que não há tanto a urgência de contar uma história que desafie o pensamento sobre a sociedade em que vivemos, mas sim uma desculpa para abrir fogo com o extenso leque bélico que vamos recolhendo durante o caminho percorrido.

Esta divisão de protagonismo estende a passadeira vermelha a uma das melhores mecânicas da obra. No início do título, o jogador escolhe uma das duas irmãs e a segunda passa a ser controlada pela Inteligência Artificial ou por um segundo jogador de carne e osso, caso entendam que querem dividir a experiência na componente multijogador online. As opções podiam ser mais completas, mas ainda assim atacar estas missões na companhia de outro jogador é, derradeiramente, o músculo da diversão que se vai retirando do jogo.

Antes de versar sobre a cooperação propriamente dita, vale a pena destacar que quando a campanha é jogada a solo, a Inteligência Artificial não faz mais do que os mínimos. Apesar de algumas das mecânicas que unem as protagonistas serem executadas atempadamente pela parceira de viagem, não foram poucas as vezes que a mesma ficou parada diretamente na linha do fogo, chegando mesmo a combater a meio metro de inimigos que, particularmente na reta final, precisam de tacto para serem derrotados.

Caso não tenham a habilidade certa, como poderão ler ao longo deste texto, este comportamento torna-se penoso se a irmã morrer junto destes inimigos. É o jogador que terá que a salvar, ou seja, é complicado chegar ao espaços dos inimigos, reanimar a irmã, e sair de lá com vida suficiente para contar a história. Morrer faz parte do jogo, claro, mas morrer mais do que uma vez graças a comportamentos pouco inteligentes torna-se rapidamente cansativo.

Apesar de a escolha da personagem no início do jogo não ter um grande impacto na jogabilidade, um dos grandes elos entre as duas estrelas é conhecido como Pep Signals. Estamos perante uma funcionalidade que permite a uma das irmãs fazer um gesto e pedir uma ajuda específica à outra. Por exemplo, um polegar para cima indica que precisamos de mais vida, sendo possível comprar vários com o passar da aventura. Podemos por exemplo desbloquear invencibilidade temporária para a dupla, a possibilidade de reanimar a companheira à distância (o que como leram dá bastante jeito), mas também receber mais armadura, entre outros Pep Signals.

A produtora sueca coloca em cima da mesa outros esforços para tentar fazer com que a cooperação seja coesa. Em vez de cada uma ter a sua própria vida, em Youngblood há um conjunto de vidas partilhadas pelas duas. Caso não consigam reanimar a vossa irmã ou serem reanimados atempadamente, perdem uma vida coletiva – quando nenhuma das irmãs consegue permanecer viva. Quando perderem todas as vidas coletivas recomeçam o progresso desde o último checkpoint. Felizmente, podem recuperar algumas destas vidas se as encontrarem nos cenários.

Youngblood tem como base uma árvore de habilidades que vão sendo desbloqueadas mediante o progresso feito. Enquanto matam inimigos, realizam missões, etc, vão acumulando experiência e, eventualmente, subindo de nível. Os pontos obtidos são aplicados no desbloqueio de habilidades que assentam em três campos distintos, nomeadamente, Mind, Muscle e Power. Há um patamar de habilidades que nos obriga a chegar a nível trinta, contudo, não é grande façanha, pois cheguei a esse patamar ainda com horas de jogo pela frente.

É um esquema que já se viu noutras obras e que vai recompensado o jogador pelo seu investimento. As habilidades propriamente ditas contam com melhorias para a barra de saúde e de armadura, permitindo aumentá-las várias vezes. Podemos também fazer com as protagonistas carreguem mais munições, entre outras. Deixa-nos moldar a personagem mediante aquilo que consideramos prioritário e evoluir esses campos com as conseguintes subidas de nível.

Com o acumular das horas, é difícil deixar de sentir, porém, que é novamente uma evolução trabalhosa e algo lenta. Youngblood conta também com um sistema que permite melhorar as inúmeras armas que nos vão ajudando a realizar os objetivos. Isto faz com que sejamos obrigados a explorar os recantos dos vários cenários à procura de moedas de prata para podermos fazer a compra das melhorias.

Esta viagem por Paris tem nas catacumbas o seu porto seguro. Nesta área vamos conversando com outras personagens, verificando os desafios diários e semanais adicionais, mas é também de onde saímos para um esquema de missões que assenta em dois pilares distintos: as três missões principais que têm como objectivo derrubar três torres, assim como vários objetivos secundários que servem sobretudo para nos fazer ganhar experiência e ficar a conhecer a cidade.

As missões principais são conhecidas como Brother e contam também com o desbloqueio de várias armas que têm tanto de imponentes e espectaculares, como de destrutivas – podem mesmo ser usadas para derrubar partes do cenário e desbloquear áreas até então inacessíveis.

A Arkane Studios colaborou com a Machine Games na criação de Wolfenstein: Youngblood e os frutos desse trabalho estão visíveis sobretudo na disposição dos mapas. Como estarão recordados, a Arkane assina séries como Prey e Dishonored, ambas excelentes palcos onde as áreas de jogo são ricas em detalhes e com uma linguagem de design que acaba por contribuir imperiosamente para a ilusão de estarmos lá. Neste jogo, os mapas são ricos em conteúdo, tendo também uma estética irrepreensível. Infelizmente, graças ao esquema das missões, ao fim de algumas horas começa-se a sentir a repetição e o cansaço de voltar a algumas áreas partilhadas por várias missões.

Tanto as ruas como os interiores dos edifícios são marcados pela destruição e pelos resquícios das vidas que por lá foram acontecendo antes do controlo nazi. Em Youngblood tudo é industrial, tudo é apresentado em tons cinzentos, alguns apontamentos encarnados espalhados por aquilo que os olhos alcançam. Somos confrontados com uma opressão que está bem patente na forma como os quarteirões estão divididos por enormes muros. É um design que permite aos jogadores várias abordagens, ainda mais se tiverem a habilidade, o talento e a sorte para serem furtivos. Quando forem avistados pelos inúmeros guardas, há o soar desmoralizador do alarme e as hordas de vários tipos de inimigos, desde super soldados a cães, passando por colossos, generais, cientistas e drones mais irritantes do que perigosos.

Quando a nossa viagem nos leva a visitar os interiores dos edifícios, a credibilidade continua em destaque, sendo revelado, várias vezes, uma combinação de tecnologia com os restos de quotidianos. Infelizmente, com o passar do tempo, o factor novidade esgota-se. Além disso, graças à exploração tanto vertical como horizontal das áreas, há algumas secções que, mesmo com um marcador do objetivo no mapa, se tornam algo confusas, levando a várias tentativas até ao caminho certo. A sonoplastia merece igualmente menção, especialmente a vocalização de Jess e Soph, mas também as vozes que nos proporcionam diálogos parcialmente em francês e alemão em nome da autenticidade.

Para terminar há alguns apontamentos sobre a jogabilidade. Youngblood é um Atirador na Primeira Pessoa, sendo também uma obra que justifica plenamente a classificação para maiores de dezoito anos. Os confrontos são extremamente violentos e detalhados. O feedback enquanto estamos a tornar o jogo violento é bom, tal como a variedade das armas: desde pistolas a lasers, passando por metralhadoras, facas e até machados, entre outras. Tudo isto, como já foi mencionado, vai sendo melhorado durante a vossa estadia no jogo.

A Machine Games, para tornar o seu jogo mais exigente, resolveu dotar algumas secções, especialmente na reta final, com tantos inimigos que o chão fica praticamente todo coberto com os seus corpos caídos. Além disso, o Boss final é derrotado depois de participarem numa luta longa em várias fases. É escusadamente longo, tornando-se particularmente cansativo se estiverem a jogar a solo, pois têm que estar constantemente atentos à vossa prestação sem perder a outra irmã de vista.

Em última análise, Wolfenstein: Youngblood não consegue atingir o mesmo nível que as duas obras da série que o antecederam. Isto tornar-se-á ainda mais amargo para os jogadores que não compreenderem que estamos perante um spin-off e não Wolfenstein 3. Fica na retina a colaboração entre jogadores e a recriação de Paris. Precisava de mais história e de menos repetição para o seu cômputo geral perdurar também na memória.

veredito

Estamos perante uma obra que beneficia quando é partilhada com outro jogador. Com Youngblood, a Machine Games consegue insuflar a entreajuda, contudo, fica aquém no seu arco narrativo pouco profundo e na repetição que se instala na segunda metade.
7 Cooperação durante a aventura. O design e os detalhes dos cenários. Arco narrativo ligeiro e vilão que não convence. Repetição que se vai sentido.

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Wolfenstein: Youngblood

para PC, PlayStation 4, Xbox One

Lançado originalmente:

01 January 2019