Acabou. Derrotei o último boss à terceira tentativa e estacionei o olhar fixamente nos créditos finais enquanto o pensamento deambulava por aquilo que tinha experienciado nas últimas seis horas. Esta contemplação sublinha a opinião que tinha sido formada ao longo da estadia que aqui terminava: Yaiba: Ninja Gaiden Z é uma obra que tenta sobreviver à custa do nome, mas que pouco ou nada tem a ver com o legado que começou nas arcadas japonesas no final da década de oitenta e foi revitalizado com mestria por Tomonobu Itagaki. E mesmo se removermos da equação a saga em que está inserido, o seu resultado continua a ser um paupérrimo jogo de ação.

O icónico Ryu Hayabusa foi removido da qualidade de protagonista, posição agora entregue a Yaiba, que é apresentado aos jogadores com a sua morte, revelando que a finitude da condição humana é apenas um contratempo para o agora ciborgue. De forma pouco surpreendente, do outro lado da espada está Hayabusa. Os dados estão lançados e Yaiba arrasta o jogador pela sua vendetta pessoal durante as já mencionadas seis horas de jogabilidade.

Não se esperava que a narrativa fosse ganhar prémios pela sua complexidade nem que a sua escrita rivalizasse com aquilo que Nic Pizzolatto ofereceu aos atores de True Detective ou com a pena poética de Ray McKinnon em Rectify, mas o que é oferecido ao jogador é um amontoar de clichés, uma miríade de linhas de diálogo banais onde está encerrado um humor que tem tanto de desenxabido como de básico e não se escusa a alimentar algumas cenas ofensivas e vulgares.

Longe de ser tragicómico, a jogabilidade, viga mestra transversal a Yaiba, apresenta inúmeras debilidades que acabam por minar irreparavelmente a experiência que a obra oferece, transparecendo um retrocesso enorme face ao pináculo da série. Outrora uma lâmina afinada por Masamune, esta abordagem é romba, incapaz de satisfazer os jogadores que experimentaram o passado da série e de captar um novo público para o seu futuro.

Yaiba não consegue saltar, o que condiciona severamente o leque de opções que temos durantes os combates. É verdade que nos podemos esgueirar das investidas inimigas, contudo, não é com menor veracidade que podemos afirmar que o balanço entre o protagonista e o inimigo foi perdido. Ninja Gaiden rapidamente ganhou fama de ser difícil, porém, essa dificuldade era justa: quem começava a sua aventura já sabia - ou facilmente aprendia - que estas lutas eram um compromisso que compensava quem estivesse atento ao que se passava no ecrã. Estudávamos os movimentos dos adversários, aprendíamos as suas rotinas e atacávamos como se fossemos líderes de uma produção de Olga Roriz, tal era o sentido de bailado impregnado na sua jogabilidade.

Havia precisão e perseverança. Quem fosse mestre de Ninja Gaiden sabia que tinha alcançado esse estatuto com o trabalho da sua habilidade. Depois de terminar Ninja Gaiden Z é inequívoco que muito pouco dessa herança está presente. Apesar de sermos parte integrante do que se está a passar no ecrã, nunca nos sentimos totalmente investidos nos seus desígnios, o que mina aquilo que conquistou tantos fãs ao longo dos anos.

Parte desta exclusão é explicada pela maneira como podemos executar os inimigos: depois de investirem tempo suficiente para que a sua energia seja pulverizada, aparece no ecrã a opção para os executar. Como o jogo foi analisado na PlayStation 3, a ativação deste estado estava reservada ao L2. Infelizmente, não temos muito a fazer senão massacrar o botão eleito até a ameaça ser eliminada e vos seja possível recuperar um pouco da vossa barra de energia. Importa ainda salientar que alguns inimigos despedem-se deste mundo com uma oferenda que pode ser apanhada por Yaiba e utilizada durante algum tempo, como por exemplo um lança-mísseis temporário.

A corroborar o argumento feito por esta análise estão os trechos de plataformas, algo que coloca o jogador novamente em piloto automático. Bebendo inspiração aos Quick Time Events, apenas temos que pressionar atempadamente o respetivo botão, seja com saltos, usando a Flail ou aproveitando-se de seres posicionados no local certo à hora certa. A verdade é que estas secções funcionam como um interlúdio às hordas incontáveis de zombies que habitam o pretérito e o futuro da vossa estadia em Ninja Gaiden Z.

E falar em zombies é mencionar uma repetição desmesurável. A sua inclusão é de fácil perceção: aniquilam alguns inimigos básicos, defrontam um boss. Mais à frente, esse boss aparece misturado com inimigos básicos. Prossigam e verão dois zombies que serviram de boss aparecem em simultâneo no ecrã. Continuem e terão essa dupla de bosses misturada com zombies básicos. Posteriormente vão lutar contra novos bosses que, posteriormente, serão reutilizados. O processo é simples e assenta numa reciclagem de criaturas, sabotando o factor novidade antes da progressão pelo título da Spark Unlimited chegar a meio.

Importa mencionar que o design de alguns inimigos é interessante, seja pela sua aparência ou pelo que conseguem fazer enquanto estão em cena, contudo, a sua reutilização constante acaba por transformá-los em algo pouco especial e corriqueiro. Ironicamente, a personagem com mais impacto é Ryu Hayabusa. Os melhores ataques pertencem-lhe e, obviamente, a sua aparição contida permite ao jogador desfrutar sempre que o seu destino se cruza com Yaiba.

No meio de tantas ideias mal concebidas e/ou executadas, o farol dá pelo nome de Bloodlust. Depois de encherem a barra no topo do ecrã podem pressionar em simultâneo o L3 e o R3, transformando Yaiba numa máquina de destruição temporária. Mais rápido, frenético e dinâmico, são escassos segundos que divertem, permitindo ao jogador condensar neste breve trecho de período tudo o que foi aprendendo até então. É uma habilidade especial extremamente letal e que permanece com esse estatuto porque vão demorar algum tempo até que a barra se encha novamente.

A duração do estado Bloodlust e inúmeras combinações que podem ser executadas durante esse período podem ser melhoradas num sistema de progressão que premeia cada subida de nível com a possibilidade de comprarem novas habilidades, como por exemplo, a exigência de menos movimentos quando Yaiba está a ser consumido pelo fogo, recuperação mais rápida quando atingido pela eletricidade. Seja como for, é provável que quando terminarem o jogo tenham desbloqueado a sua totalidade. É ainda possível irem melhorando separadamente outros pontos da vossa personagem, como o aumento da barra de energia, a resistência aos ataques de fogo, bílis e elétricos, algo exigido se quiserem terminar o jogo na dificuldade mais elevada.

Quando não estiverem absortos pelas escolhas mencionadas no parágrafo anterior, estarão de regresso ao cerne de Ninja Gaiden Z: a jogabilidade. E sobre isso, falta mencionar algo extremamente importante: a câmara de jogo. Como não a controlam, é responsabilidade da Spark em oferecer o melhor panorama possível sobre a ação. Nem é preciso mencionar a cinematografia do jogo, basta quedar-nos pelo mais básico: dar ao jogador o lugar na primeira fila para o ecrã onde está a tentar chegar a algum lado. Infelizmente, isso nem sempre é conseguido, com a câmara a ter vontade própria e a focar-se no supérfluo, o que na prática acrescenta uma nova camada de frustração.

Tecnicamente, Ninja Gaiden Z tem poucos laivos dignos de nota. O estilo Cel Shading não consegue ser congruente durante a campanha toda, oferecendo alguns momentos inspirados no meio de um grafismo que está longe de capitalizar esta especificidade. Não basta ter texturas coloridas e estilizadas, é preciso também ter uma direção artística capaz de oferecer algo inspirado, um pouco como a pedrada no charco que foi XIII em 2003.

Yaiba: Ninja Gaiden Z não é o que os fãs da série estavam à espera e, certamente, não é o que mereciam. Não fosse o título e a breve aparição de Hayabusa e poderíamos estar a falar de um título sem qualquer legado. O sistema de combate é desinspirado, a câmara de jogo parece conspirar contra o jogador, o estilo gráfico não está à altura das exigências do Cel Shading e o novo protagonista não tem carisma, lacuna que pode apresentar queixa à escrita debilitada. Os fãs do estilo Streets of Rage são capazes de espremer alguns minutos de diversão à opção Ninja Gaiden Z desbloqueada com o términus da campanha principal, uma oferenda retro fugaz.