Na sua essência, Yonder: The Cloud Catcher Chronicles está muito próximo de ser o equivalente a umas férias digitais. Local idílico para descomprimir do quotidiano por entre vistas que nos fazem parar e apreciar, estar apenas porque se está bem num retiro longe do que nos rodeia. É, portanto, um relaxar sem grandes complicações que eventualmente fariam estalar a acalmia.

Se pertencem ao lote de jogadores que espera sempre encontrar um desafio nos videojogos, um santuário onde podem provar o quão bons são, então Yonder: The Cloud Catcher Chronicles - chamemos-lhe apenas Yonder - não é definitivamente o jogo para vocês. Não é preciso muito tempo para compreender a inspiração em títulos como Zelda e Harvest Moon, mas é tudo apresentado ao jogador com uma toada mais ligeira, fazendo lembrar uma introdução ao género.

Imagens Analise Yonder

Isto não quer dizer, contudo, que seja um jogo fraco apenas porque não alimenta o lado competitivo. Nos últimos anos temos vindo a assistir ao aumento de popularidade de obras que apostam a sua exigência noutras valências. Recorrendo ao velho exemplo de sempre, What Remains of Edith Finch não tem qualquer desafio e é um excelente videojogo. Em Yonder há tarefas para serem feitas, há missões abundantemente, o que não há é combate, bosses, nem o medo de nos perdermos irredutivelmente.

Logo no início da obra podemos personalizar a nossa personagem: masculino ou feminino, o tom da pele, a cor do cabelo e dos olhos, assim como a forma e o tamanho do corpo. E pronto, estão prontos a começar a vossa aventura. O resto da personalização é feito com itens que vão sendo apanhados durante a jornada propriamente dita.

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E essa aventura decorrerá na ilha de Gemea, onde foram parar depois do vosso barco ter naufragado. A única parecença que há com uma “ameaça” dá pelo nome de Murk, condicionando e aterrorizando - mas pouco - os residentes da ilha. Em vez de terem uma espada e um escudo, em vez de terem feitiços e Mana, o combate contra o Murk é feito recolhendo Sprites. 

Mais do que propriamente uma ameaça, o Murk funciona como um controlo do nosso progresso, pois a sua remoção está presente em várias missões que, obviamente, precisam de ser realizadas para continuarmos a aventura. Sem grande surpresa, não necessitam sempre do mesmo número de Sprites para remover o Murk. Há outras tarefas que dispensam completamente esta mecânica, levando-nos, por exemplo, a recolher um determinado número de itens, animais ou de materiais.

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Durante a minha estadia por terras de Gemea nunca estive verdadeiramente perdido, particularmente porque desde o arranque da aventura têm ao vosso dispôr o Compass, ferramenta que à distância de um botão informa-vos que tarefas têm disponíveis, aquela que está ativa e aquelas que já foram concluídas. Além disso, é emitido um raio de luz que indica a sua direção e, caso não bastasse, a tarefa ativa está devidamente assinalada no mapa.

Como já foi mencionado, não há combate propriamente dito, mas isso não quer dizer que não tenham no vosso inventário vários itens: um martelo para partir pedra, um machado para cortar madeira, uma foice para cortar erva, etc. Os materiais que forem recolhendo são usados para completar tarefas, por exemplo, ou então para fazer trocas no ligeiro toque de comércio presente na obra, ou para experimentarem o sistema de crafting.

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Na sua superfície, Yonder apresenta esta mecânicas que não afastarão nenhum jogador. Contudo, com o passar das horas, a produtora esconde na manga um abrir do leque que recompensará os jogadores mais experientes, como por exemplo a possibilidade de construírem quintas e aproveitar os animais para produzirem bens. É possível também dedicarem a vossa habilidade a um número de profissões, como serem carpinteiros ou cozinheiros digitais.

Infelizmente, com este avançar de horas chega também a sensação que fizemos as mesmas coisas várias vezes. Mesmo que a produtora Prideful Sloth tenha compreendido a forma de dar profundidade ao que podemos fazer, a sua execução leva-nos por processos familiares, processos que já conhecemos de cor e que começam a provocar algum cansaço. 

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A forma que arranjei para aliviar esta saturação foi explorar os cenários - Gemea tem oito áreas diferentes - até onde o jogo me ia permitindo, fazendo uso das “férias já mencionadas” e ir alternando com os afazeres. Outra característica que ajuda a diversificar minimamente as áreas de jogo é a inclusão de um sistema de tempo: Yonder conta as horas, os dias e os anos que vão passando. Além disso, vai girando também pelas estações do ano. Isto é feito em tempo real, ou seja, em sessões mais longas vão jogando de dia e de noite; vão passando por variações que ajudam à ilusão da descoberta e do menos agradável.

E o grafismo de Yonder está entre os seus pontos mais positivos. Não que seja fotorrealista ou que tenha efeitos exemplares, mas sim porque tem carisma. Pode fazer lembrar uma mistura de Wind Waker com Breath of the Wild, mas na prática isso faz com que as áreas de jogo nos convidem a prolongar a nossa estadia, contrariando o que temos que fazer com o quão charmosos são os locais onde o fazemos.

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A forma encontrada para o design das pequenas vilas, as luzes por cima do suave ondular das ervas, a maneira como o sol se começa a mostrar às primeiras horas da manhã, as planícies que são calcorreadas pelo vosso Chibi: tudo sabendo que não há urgência de encontros com o inimigo só sublinha a ideia que já explanei nos parágrafos anteriores.

Infelizmente o mesmo não pode ser dito da sonoplastia, que acaba por passar, no seu cômputo geral, despercebida. Compreende-se que não estamos a falar de um Role Playing Game épico, mas ainda assim há momentos em que se pedia mais, em que se pedia pelo menos algo. Certamente não é o aspecto que perdurará na memória por mais tempo.

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Yonder será sempre moldado pelo que esperam dele quando o comprarem. Esqueçam-no se querem algo do calibre das grandes aventuras. Contudo, há algo zen em passar pelo inventário e vestirem os últimos itens, ir à pesca, plantar sementes. A questão resume-se a isto: quando equipei as calças que tinha desbloqueado, o primeiro passo foi verificar como isso alteraria as minhas stats. E a verdade é que não altera nada, porque nem sequer as há. 

Demora algum tempo a desligarem a parte do vosso cérebro que está sempre à melhor do melhor equipamento e das melhores armas, que está sempre a fazer comparações. É uma obra com um coração colorido, com um mundo onde não há violência, mas também com um mundo onde não há recompensa. Se querem relaxar sem se darem ao trabalho de estudar todos os aspectos de uma obra, têm aqui a brisa de verão dos videojogos.