Decisões e consequências. Diz a teoria do Multiverso, de uma forma muito simplista, que existem um número infinito possíveis de universos para além do nosso e que cada decisão tomada por todo e qualquer indivíduo dá origem a diferentes realidades ou dimensões que seguem uma linha temporal distinta originada pelas múltiplas opções possíveis nos momentos de decisões. Perceber como a nossa vida poderia ser diferente apenas pela escolha de B em vez de A pode ser assustador, mas é um material extremamente apelativo para obras de ficção.

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Zero Time Dilemma, o capítulo final da trilogia Zero Escape, é um exemplo perfeito de como utilizar de forma inteligente este conceito numa experiência que coloca tanto ênfase nos momentos em que oferece ao jogador a possibilidade de definir o seu destino. O uso de decisões e escolhas em videojogos não é nada de novo, que o diga a Quantic Dream, mas é na maneira como estas situações são implementadas na narrativa e a moldam que está o segredo do sucesso. E neste departamento, ninguém o faz melhor do que esta série e, mais concretamente, do que esta obra.

Mais uma vez, a história coloca-nos no centro de um "jogo" macabro, controlado por Zero, no qual vários participantes - ou se preferirem, prisioneiros - são forçados a resolver vários puzzles e a tomar decisões moralmente questionáveis com vista a obterem a sua liberdade. Presos num abrigo subterrâneo, ditam as regras que apenas após seis dos participantes morrerem as portas para a liberdade serão abertas. Divididos em três grupos sem qualquer espécie de interação entre eles, os jogadores terão várias oportunidades para assegurar a sua sobrevivência em detrimento dos restantes prisioneiros, mas, como é óbvio, isso não será tão simples como se poderia esperar.

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Ao contrário do que é habitual, Zero Time Dilemma apresenta a sua história através de fragmentos narrativos que são apresentados sem qualquer sequência cronológica - apenas obtêm a sua localização na cronologia de eventos após a sua conclusão -, e nos colocam no controlo das diferentes equipas que participam neste "jogo". De uma forma geral, estes fragmentos envolvem sempre um momento de decisão que afetará o futuro das personagens, sendo muitas vezes antecedidos por uma sala de quebra-cabeças que terão de resolver.

Mas não se deixem enganar, estas decisões não têm como propósito dar ao jogador a ilusão de escolha e de preponderância no rumo da narrativa, muito pelo contrário. As decisões fazem parte integral da narrativa e servem um objetivo real na narrativa, para além do facto de poderem originar diferentes finais, a maioria dos quais com desfechos trágicos para muitas das personagens. Aliás, o jogo "obriga-nos" a ver todos os possíveis desfechos provenientes dos momentos de decisão para que obtenham o máximo de informação relativamente à história do título.

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No entanto, o brilhantismo de Zero Time Dilemma assenta na forma como utiliza o facto de saber, de antemão, que os jogadores têm uma tendência inata para assistirem a todas as consequências das decisões a seu favor para produzir uma narrativa em que todas as decisões e todas as suas opções sejam fundamentais para o seu desenrolar. Quer isto dizer que assistir a todos os possíveis desfechos de todas as decisões é fundamental para desvendarem todos os fragmentos da narrativa e, mais concretamente, aquele que pode ser considerado como o derradeiro final da obra.

Poderia pensar-se que o facto de o título nos obrigar a ver todos os possíveis desfechos retiraria impacto às nossas decisões originais, mas a verdade é que as decisões não estão presentes para o jogador poder moldar a narrativa e as personagens à sua vontade, mas sim para servir uma história que faz uma constante e eficiente utilização da temática de realidades alternativas e linhas temporais. As decisões têm consequências imediatas para não desiludirem o jogador, mas mais importante que isso é a forma como diferentes decisões revelam novos detalhes sobre o arco narrativo geral da obra, sobre o passado e a personalidade dos protagonistas e muito mais.

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Como não poderia deixar de ser numa obra com tamanho foco em linhas temporais alternativas, o jogo orienta-nos na perfeição e sem cair no erro de tornar tudo demasiado confuso ao colocar à nossa disposição um gráfico com a cronologia de todos os fragmentos, para que rapidamente percebem a linha temporal em que se encontram e as decisões que já foram tomadas, de forma a que possam ver as consequências de decisões contrárias. Para além disso, a aparentemente inócua decisão de ver os protagonistas serem injetados com o amnésico no final de cada fragmento faz com que a narrativa se mantenha coerente independentemente da cronologia, das decisões e das suas consequências.

Claro que num título que coloca praticamente todos os seus holofotes na narrativa é fulcral que exista um sólido leque de personagens interessantes e diversificadas para a cimentar e manter o jogador investido na experiência. Felizmente, Zero Time Dilemma não desilude neste departamento e conta com um curioso elenco de protagonistas que vão revelando ser muito mais do que os momentos iniciais deixavam antever à medida que a história vai avançando e vamos conhecendo o seu passado e as suas motivações. Há inclusivamente lugar ao regresso de personagens dos jogos anteriores, mas não se preocupem, pois o jogo não requer conhecimento dos eventos dos seus antecessores.

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Termino os parágrafos relativos à narrativa da obra afirmando que a revelação final do título não desilude e oferece uma reviravolta inesperada que faz com que as 23 horas de mistério e suspense sejam devidamente recompensadas. A forma como o jogo nos mantém colados ao ecrã sempre em busca de descobrir cada vez mais sobre as personagens e a narrativa é uma das suas melhores valências e a revelação final, embora pareça vinda absolutamente do nada, deixar-vos-á a pensar nas pistas que deixaram passar em claro muito depois dos créditos terem rolado pela última vez.

Quando não estiverem a desfrutar da narrativa ou a tomar decisões, muitas vezes, de vida ou de morte, Zero Time Dilemma coloca-vos em complexas salas de quebra-cabeças, nas quais a capacidade do jogador para resolver problemas fazendo uso de um raciocínio lógico será testada e levada aos limites. Sim, é verdade que são exigentes, mas são quebra-cabeças que fazem sentido e seguem uma sequência lógica que se traduz numa sensação de trabalho bem feito sempre que concluem os desafios que vos são colocados à frente.

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Primeiro têm de explorar a sala em busca de objetos de utilidades e depois perceber onde e como os devem utilizar para poderem destrancar a sala em que se encontram presos. Apesar de alguns poderem demorar bem mais do que 30 minutos a serem concluídos, dependendo sempre da vossa habilidade para resolver os puzzles, foram poucas as situações em que senti que os puzzles fossem obtusos e a sua resolução demasiado rebuscada, mas é certo que esses puzzles menos bem conseguidos moem um pouco a experiência.

Um departamento em que Zero Time Dilemma deixa algo a desejar é na sua componente gráfica, especialmente no que à modelagem das personagens diz respeito. Não só estas são bastante pouco atrativas, como o jogo tem, de uma forma geral, um aspeto algo datado que se traduz em cenários desinspirados e texturas fracas. Já a banda sonora cumpre o seu objetivo de acompanhar os altos e baixos da narrativa, ganhando um tom mais tenebroso em momentos de maior tensão e aligeirando quando o ritmo se torna mais calmo.

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Em suma, Zero Time Dilemma é um jogo de excelência que conclui da melhor forma uma trilogia de títulos de inegável qualidade. A narrativa é genial e retira o máximo proveito da forma como nos é apresentada para entregar uma experiência memorável e que vos deixará colados à vossa portátil do princípio ao fim da campanha, mantendo-se convosco muito depois de os créditos terem rolado. Mas mesmo com o foco na narrativa, os quebra-cabeças não foram descurados e são também eles altamente satisfatórios e recompensadores. O grafismo deixa a desejar, mas está longe de prejudicar a experiência.