O seu primeiro jogo pode datar de 1990, mas só muito mais tarde é que Fire Emblem começou a agraciar os mercados ocidentais. E mesmo depois dessa estreia, foi preciso esperar até à chegada à Nintendo DS e, sobretudo, à Nintendo 3DS para que a mesma se tornasse em mais uma das figuras de proa do catálogo da gigante nipónica. Com múltiplos lançamentos num curto intervalo de anos, incluindo remakes de títulos que só tinham sido lançados no Japão e spin-offs como Fire Emblem Warriors, a série é atualmente um nome facilmente reconhecido na indústria, o que valeu a inclusão de várias das suas personagens mais conhecidas nos mais recentes Super Smash Bros.

Com a atual portátil da Nintendo a perder - finalmente - fulgor à medida que se aproxima do final do seu ciclo de vida e a Nintendo Switch a revelar-se um retumbante sucesso, Fire Emblem tem agora uma nova oportunidade para provar o seu valor junto daqueles que regressaram com a consola híbrida às plataformas da Nintendo - grupo no qual eu me incluo -, bem como de voltar a entregar uma experiência passível de ser desfrutada na televisão, algo que não acontecia desde os tempos da GameCube.

Fire Emblem: Three Houses marca assim a estreia da série na Switch e jogadas as primeiras horas da sua aventura, há muito para apreciar na nova empreitada da Intelligent Systems. Acima de tudo, há o confirmar da presença de um sistema de combate tático e estratégico incrivelmente satisfatório e recompensador, recheado de nuances e detalhes para aprender e dominar, mas sem nunca assoberbar ou se tornar demasiado moroso e fastidioso. Não, todos os elementos funcionam em uníssono para criar batalhas estratégicas que não se tornam cansativas.

Transportando-nos para o continente de Fódlan, uma região dominada por três nações soberanas, assumimos o controlo de um mercenário que depois de ajudar um grupo de estudantes em combate é recrutado e transformado num professor na Officers Academy, uma academia localizada no mosteiro de Garreg Mach e onde os futuros líderes das várias nações do continente treinam e são preparados para as suas eventuais funções. Assim, um pouco ao estilo da série Persona ou, até mais similarmente, de Trails of Cold Steel, a narrativa acompanha o ano letivo e coloca-nos ao comando de uma das três fações - das três Houses, cada uma representando a sua nação e privilegiando diferentes tipos de combate - da academia.

Desde cedo na aventura serão convidados a escolher a House que pretendem lecionar e acompanhar ao longo do ano. O mesmo é dizer que a opção pelo grupo de personagens com os quais pretendem passar mais tempo ao longo da campanha, no campo de batalha e fora dele, será tomada bem antes de os poderem conhecer verdadeiramente. Pode ser uma decisão para motivar várias passagens pela campanha, mas do que joguei até agora ainda não encontrei razões suficientes que me levem a pensar que tal alocação de horas na obra valerá efetivamente a pena.

Isto porque, até ao ponto a que joguei antes de escrever estas linhas, o arco narrativo e o aprofundar das personagens e as suas relações ainda não ganharam a substância necessária para me investir nesta aventura. Claro que há pontos de interesse, como a postura algo ditatorial da Church of Seiros ou a existência de Sothis, uma entidade ligada ao protagonista que assume a forma de uma jovem rapariga e que possui a capacidade de parar e rebobinar o normal fluir do tempo, mas é preciso muito mais de um arco narrativo que suportará várias dezenas de horas de jogo.

Não é por isso surpreendente que seja a jogabilidade a brilhar mais alto durante estes primeiros momentos com a obra. Fazendo uso do combate estratégico por turnos tradicional da série, os alunos da nossa House são classificados de acordo com a sua proficiência em determinados parâmetros, que vão desde a sua eficiência com os diferentes tipos de armas até características como a manuseabilidade de cavalos e Pegasus, e ainda a fé e a autoridade. Obviamente, estes departamentos são melhorados através da experiência obtida no campo de batalha, assim como durante o período escolar.

A melhoria destes departamentos permite depois aos alunos obter certificação em classes mais específicas e avançadas para aprimorar as suas características únicas e a sua utilidade na nossa estratégia durante as batalhas. O combate propriamente dito força-nos a ter vários fatores em conta, seja as vulnerabilidades ou resistências a determinados tipos de ataques, a localização no campo de batalha e tipo de terreno - as florestas, por exemplo, aumentam a possibilidade de se esquivarem a um ataque, a durabilidade das armas, o aumento do suporte entre companheiros através da proximidade com que realizam as ações, os itens equipados e muito mais.

O facto de o jogo nos informar do resultado final de cada ação, se os ataques não forem falhados, é fundamental na definição, pois é uma rápida forma de perceber quando é que a nossa abordagem inicial é adequada ou se devemos repensá-la. Isto porque a maioria dos ataques são seguidos de um rápido contra-ataque do inimigo - e vice-versa -, logo existe sempre a possibilidade do vosso ataque acabar por causar menos dano do que o provocado pelo contra-ataque. É graças à congregação de todos estes elementos que as batalhas premeiam a ponderação e o pensamento estratégico.

Isto é ainda mais verdade se optarem por jogar a obra no modo clássico, isto é, no modo em que se perderem as vossas unidades, estas não regressam à ação - ainda que possam utilizar, de forma limitada, a habilidade de Sothis para fazer recuar o combate ao momento em que fizeram asneira e tentar emendar o erro. Depois importa utilizar as aulas e os dias livres - podem explorar e realizar missões secundárias pelo mosteiro, seminários que são essencialmente aulas especiais e participar em batalhas - para retirar o máximo proveito do calendário escolar antes da missão principal que encerra normalmente o mês, preparando e melhorando os alunos para o combate.

O arranque de Fire Emblem: Three Houses é assim um atestado de competência ao seu sistema de combate estratégico por turnos e uma amostra algo tépida ao nível da sua narrativa. Desta forma, servirão as muitas horas que ainda restam da campanha para perceber quantas mais camadas serão adicionadas às batalhas táticas e também qual a verdadeira capacidade da campanha para nos investir nos seus eventos e nas personagens que os protagonizam.

Fire Emblem: Three Houses chega ao mercado no dia 26 de julho em exclusivo para a Nintendo Switch.

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