por - Jan 3, 2015

O que andamos a ver, 12 de junho

Numa da altura do ano em que é impossível não pensar na E3 a cada quinze minutos, a equipa do VideoGamer Portugal arranjou tempo para colocar o evento em segundo plano durante algumas horas e tentava espairecer a cabeça antes da insanidade de anúncios começar. Assim, apenas a algumas horas de começar a primeira conferência, aqui ficam as nossas recomendações da semana.

O Pedro Marques dos Santos viu Make Happy, o mais recente especial de comédia de Bo Burnham, tendo aparentemente gostado do material que o jovem comediante preparou. O Filipe Urriça também se quedou pela Netflix e também optou pelo estilo de comédia, apesar de ter reticências em classificar The Do-Over, o novo filme de Adam Sandler, como uma comédia. O Marco Gomes viu O Verão do Skylab. Eu vi L’avventura, provavelmente o magnum opus de Antonioni e não vale a pena estar com rodeios: vejam se tiverem oportunidade.

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Marco Gomes

O Verão de Skylab (DVD, 2011 – 2012)

Às donzelas graciosas em dobro.

O contacto primeiro com Julie Delpy deu-se exclusivamente à frente da câmara, num registo distante da sua amada comédia despretensiosa, concretamente Branco (1994), irmão do meio da Trilogia das Cores – as da bandeira gaulesa de Krzysztof Kieślowski.

Mulher dos sete ofícios, ostentando entrada em dez departamentos – descontadas inanidades e redundâncias – na lista de créditos do IMDB, numa carreira iniciada aos quinze anos pela direção de Jean-Luc Godard com Máfia em Paris (1985), tendo como expressão maior junto do grande público as interligadas comédias românticas, Antes do Pôr-do-Sol (2004) e Antes da Meia-Noite (2013).

Em O Verão de Skylab, Le Skylab no original, vestindo a pele de Anna, mãe de uma dessas personagens centrais mas pouco, Albertine, fornece préstimos na realização e argumento para uma comédia familiar alheada do sentido semântico que a indústria cinematográfica anglo-saxónica há muito tenta vender, com resultados degradantes nas últimas duas décadas.

Mais do que promover a comunhão intergeracional, o arrebanhamento de diversas faixas etárias como aspiração de gorda rentabilidade dá lugar ao das dinâmicas familiares, despoletadas em esticada prole por ocasião do aniversário da matrona.

Nunca almejando ao que não se propõe, tem O Verão de Skylab méritos avultados, até por facilmente poderem ser tidos como despiciendos, apresentando fauna de personagens, diálogos e situações replicáveis no enquadramento social venoso de cada um de nós.

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Pedro Martins

L’avventura (Blu-ray, 1960 – 2016)

Passou muito tempo desde que L’avventura estreou, mas uma das obras mais celebradas de Michelangelo Antonioni continua a impressionar em 2016. Vi recentemente a sua remasterizada em alta definição e é um daqueles filmes que, apesar de ter mais de duas horas, passa bastante depressa, deixando o espectador à espera do desfecho.

A história é relativamente, ou melhor, o início da história é relativamente simples: um grupo de italianos ricos fazem uma viagem de barco junto a Sicília e resolvem parar numa ilha deserta e Anna desaparece misteriosamente. Isto ocorre nos primeiros 30 minutos do filme e pensa-se que Antonioni dedicará o resto da sua obra à procura da jovem interpretada por Lea Massari.

Contudo, não demora muito a começarem a aparecer outros factores que desviam a atenção da procura, especialmente o interesse amoroso que se desenvolve entre Claudia, a melhor amiga e confidente de Anna, e Sandro. Podia ser um frete, um desmanchar de cliché atrás de cliché, mas é aqui que entra a mestria de Antonioni.

É brilhante a forma como esta relação é conduzida, levando quem é a perguntar-se ocasionalmente onde é que está Anna, levando, sobretudo, a pensar se esta relação nascida do desastre é assim tão forte que os faça praticamente esquecer que Anna desapareceu. Não é um esquecimento porque o argumento é mau, é um apaziguar de aflições alimentado por conflitos internos e externos.

Não vi a versão original do filme, mas posso garantir que este restauro deixa qualquer um de queixo caído, crédito para Antonioni, claro, mas também para Aldo Scavarda, responsável pela cinematografia. Os locais de filmagem são cenários que permitem aos atores brilharem carismaticamente, especialmente Monica Vitti (Claudia), que rouba todas as cenas em que entra, sendo daquelas atrizes que parecem um íman. É um grande filme, é um grande realizador.

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Filipe Urriça

The Do-Over (Netflix, 2016)

Bem, os filmes de Adam Sandler continuam com a qualidade que o ator sempre nos habituou. Ou seja, nenhuma. Mesmo depois de ver a nota geral de sete porcento no Rotten Tomatoes, decidi, mesmo assim, ver a desgraça de filme lançado no Netflix.

Como já tem sido recorrente nas produções da Happy Madison Productions, fundada pelo próprio Adam Sandler, o elenco principal costuma ser escolhido no círculo de amigos do ator. Desta vez é David Spade que vai contracenar com Sandler.

Ver The Do-Over é praticamente assistir a um descarrilamento na primeira fila. O filme começa bem e ainda tive a esperança de que iria assistir a algo minimamente bom. O par de amigos rouba a identidade de sujeitos que morreram em circunstâncias estranhas, que mais tarde sabemos ter sido por uma boa causa. Contudo, quando o plano que arquitetaram é descoberto pelos amigos e família, são inseridas à bruta algumas tentativas de cenas de comédia. Como já era de esperar, falham praticamente todas. Humor infantil é o que predomina.

O filme é constrangedor para quem o vê, com as situações que Sandler tenta espremer para fazer uma piada. E foi precisamente por aí que me ri. Ri-me pelas formas que abordam a comédia. Sem profundidade, o mais superficial possível. Não sou capaz de acreditar que quem produziu isto se tenha sentado e pensado em cada cena por mais de cinco minutos. Foi certamente o dinheiro que falou mais alto no contrato entre a Netflix e Adam Sandler, porque em comparação com a restante programação oferecida pelo serviço de transmissão online, The-Do-Over é uma perda de tempo.

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Pedro Marques dos Santos

Make Happy (Netflix, 2016)

Apesar de apenas hoje vos escrever sobre o mais recente especial de comédia a chegar à versão portuguesa do serviço de streaming Netflix, a verdade é que foi no domingo passado que tive oportunidade de assistir ao especial Make Happy de Bo Burnham e desde já afirmo que fiquei agradavelmente surpreendido com o que vi.

Confesso que não tinha qualquer conhecimento sobre o trabalho deste jovem comediante que começou no YouTube, mas a verdade é que aquilo que a experiência de stand-up criada por si para o especial é algo bastante diferente daquilo a que estou habituado em espetáculos do género.

Poderia argumentar-se que a comédia de Bo é algo desconectada, não havendo transições suaves entre os vários momentos do espetáculo, contudo, a verdade é que tudo funciona com eficácia para efeitos de comicidade, mesmo os momentos “mortos”.

Se assistirem a Make Happy e gostarem daquilo que viram, recomendo também que assistam a What, outro espetáculo de Bo Burnham que está disponível no YouTube.

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