Os jogadores que têm uma Nintendo Switch não se podem queixar de falta de propostas aliciantes. Ainda no rescaldo de The Legend of Zelda: Link's Awakening e com uma nova dupla Pokémon no horizonte, a semana passada ficou marcada pela chegada ao mercado de Luigi’s Mansion 3, obra desenvolvida pela Next Level Games que me arrebatou completamente.

A minha história com a série remonta ao lançamento do Luigi’s Mansion original na GameCube. A Europa recebeu o jogo em 2002 e eu estava lá sem saber muito bem o que esperar do título, mas ficando rendido à sua jogabilidade e à plasticidade das personagens e dos níveis, a forma como era uma estética que resultava e uma jogabilidade recompensadora na hora de capturar os espectros.

Luigi’s Mansion 3, como provavelmente já terão tido oportunidade de ler, leva o protagonista e o seu grupo de amigos a passar férias no hotel The Last Resort. Aceitado o convite, não demora muito até que Hellen Gravely, a dona do hotel, com a colaboração do King Boo, prenda os amigos de Luigi em quadros. O local que parecia idílico dá lugar a um empilhamento vertical de pisos que têm que ser explorados, recuperando os botões do elevador até chegar aos andares superiores.

São quinze pisos que demoram facilmente mais de dez horas a serem explorados. Pode parecer uma enorme empreitada, mas Luigi’s Mansion 3 é um videojogo que se presta a uma exploração demorada, recompensadora, e capaz de abolir a passagem do tempo. Isto deve-se, inquestionavelmente, ao talento da produtora, que foi inteligente o suficiente para transformar a chegada a um novo piso num acontecimento.

Podemos debater que não há continuação entre os pisos e podemos obviamente filosofar sobre as liberdades criativas tomadas para que haja um piso com a temática medieval ou outro que comporta uma luta contra um boss que é o esqueleto de um dinossauro. Contudo, em termos práticos, a conquista dos diferentes pisos é também vários atestados da criatividade da produtora. Ou seja, o cérebro é treinado para associar a chegada a uma nova área ao início de um novo enigma que estará assente em diferentes camadas de resolução, sem nunca se esquecer de dar aos jogadores mais uma panóplia de memórias.

O Poltergust G-00 de Luigi encerra várias funções: é aspirador, sim, mas detém agora uma nova funcionalidade conhecida como Suction Shot (dispara um desentupir contra várias superfícies dos cenários e pode posteriormente ser puxado). Mais: há a emissão de luz negra que revela partes que não estavam visíveis a olho nu, assim como um flash de luz que encadeia os espectros e ativa certos interruptores. Juntem-lhe a possibilidade de lançar uma lufada de ar e começam a ter uma ideia do canivete suíço que Luigi leva consigo. Ah, e graças a uma matéria viscosa verde, há também Gooigi, um clone de Luigi que se esgueira entre as grades de condutas e barras de metal, participando ativamente na resolução de certos enigmas e no combate lado-a-lado contra bosses.

O propósito de mencionar estes processos da jogabilidade é destacar que a sua conjugação ajuda de sobremaneira a que exploração dos cenários seja tão proveitosa. Há incontáveis colecionáveis escondidos, tal como dinheiro que pode posteriormente ser gasto na compra de itens. Todavia, cada piso usa estas mecânicas para que o jogador sinta a sua inconsolável curiosidade ser recompensada. Durante a minha estadia no The Last Resort, foram incontáveis aS vezes em que senti a suave e morna sensação de simplesmente estar bem por aquelas terras digitais, demorando-me simplesmente a contemplar os apontamentos visuais deixados pela equipa de produção.

Luigi’s Mansion 3 nunca é uma obra extremamente complicada, seja nos confrontos contra os fantasmas e/ou bosses, seja nos puzzles inseridos nos cenários ou nas próprias lutas, enquanto percebemos o que temos que fazer para infligir dano ao adversário. Assim, são diversos os momentos em que estamos longe de perigo, oportunidades exímias para a simples contemplação. A Next Level Games sabia perfeitamente o que estava a fazer, transformando os pisos em algo com uma escala imaginativa, mas que assentam em detalhes concretos que lhe dão uma estética transversal credível.

É incutida ao jogador uma motivação para a exploração que nunca cessa, em muito devido à diversidade do que vamos tendo pela frente. Um dos pisos que mais me marcou é dotado de uma flora com tantos detalhes que mesmo antes de chegar à área principal onde teremos que escalar uma árvore que se agiganta por diversos metros, já tinha parado de jogar apenas para apreciar a colocação de cada flor e de cada planta. Antes, a comida noutra área tinha um aspecto, mais do que credível, delicioso. O jogo faz isto de forma exímia, conseguindo tornar memorável uma ida a um centro de fitness.

Há alguns jogos que mesmo sendo deslumbrantes e motivando os jogadores a abrirem caminho, por variados motivos não nos conseguem simplesmente "estar". Luigi’s Mansion 3 faz isso, mesmo quando estamos a trabalhar para um objetivo. Pessoalmente, acredito que além de tudo o que já foi escrito, isto deve-se à forma como cada nível assenta em camadas de ações antes de se chegar ao confronto com o boss. Ou seja, há uma lista que é realizada com o auxílio das mecânicas de jogabilidade que recompensa cada metro dado, cada área aspirada a fundo, ou cada entrada para uma porção secreta de terreno.

Todas as personagens, desde o comum fantasma ao King Boo, passando por Hellen, o realizador Morty, pela Polterkitty ou pelo Polterpup, contam com animações que ajudam a essa demora. Nem que seja a vê-los deslocarem-se pelos cenários, nem que seja a contemplar a forma como Luigi lida com o medo, assumindo uma postura (quase) sempre fragilizada pelo medo que lhe corre nas veias. A produtora, novamente, compreendeu que conjugar tudo isto resultaria em algo marcante, facilmente reconhecível, e até único.

Não é o jogo perfeito, claro que não. Em alguns momentos em que a câmara é fixa não temos pela frente a melhor perspectiva dos cenários e até o esquema de controlos, mesmo sendo ajustável nas definições, tem alguns comandos que nem sempre primam por serem intuitivos. Contudo, são detalhes que sucumbem perante a pujança com que o alcance global do design e do grafismo arrebatam quem tem o comando nas mãos.

Seria injusto destacar apenas um motivo pelo qual Luigi’s Mansion 3 é uma obra que marcou o meu 2019. A jogabilidade levada a lume nos confrontos mais robustos é um ponto positivo, também, mas sinceramente fica comigo as férias que a obra me proporcionou. E isto é uma perfeita ironia, pois foram as férias arruinadas de Luigi, Mario e companhia que estão no génese do meu tempo entre pisos, viagens de elevador e visitas ao laboratório do Professor E. Gadd.

Antes de terminar, permitam-me apenas um exemplo de como a atenção ao que é dito é também fonte de diversão. Logo no início, pouco depois do laboratório portátil ser apresentado, E. Gadd mostra o Virtual Boo, uma ferramenta de comunicação entre ele e o Luigi. Uma cópia descarada do Virtual Boy, um dos maiores flops comerciais da Nintendo, sobre a ferramenta é dito pelo Professor que “espera até eu terminar os materiais de marketing disto. Vai voar das prateleiras!” É sempre refrescante ver uma empresa a gozar consigo mesma.

Se tiverem uma Nintendo Switch, mesmo que não tenham seguido a série desde o seu início, devem pensar em dar uma oportunidade ao jogo. Caso o façam, demorem todo o tempo que tiverem, pois os cantos e os caminhos menos óbvios são quase sempre uma recompensa e uma fonte de algo que vale a pena - nem que seja uns minutos a admirar a intrincada canalização do hotel. Luigi’s Mansion 3 não precisa de óculos com lentes feitas de nostalgia para ser apreciado como uma excelente adição ao catálogo da consola que continua a conquistar tantos jogadores.

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